segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Crítica - Elis



Faz algum tempo que o cinema brasileiro descobriu nas cinebiografias de músicos um grande filão comercial. Além do interesse do público em saber mais sobre a vida desses artistas, há também o próprio apelo de suas músicas para engajar e emocionar o espectador. Elis é o mais recente dessa leva de cinebiografias e mesmo seguindo uma estrutura bem tradicional a este tipo de filme, funciona graças ao talento de Andreia Horta com a personagem título, além da força da trajetória da cantora na música brasileira.

A trama segue Elis Regina (Andreia Horta), de sua chegada ao Rio de Janeiro até sua trágica morte por overdose (e isso não é spoiler pessoal). Ao longo da trama vemos algumas de suas parcerias mais marcantes como Jair Rodrigues (Ícaro Silva) e também seus relacionamentos com Ronaldo Bôscoli (Gustavo Machado) e Cesar Camargo Mariano (Caco Ciocler).

Assim como aconteceu em outras cinebiografias como Tim Maia (2015) ou Gonzaga: De Pai Para Filho (2013), o filme encontra alguns problemas ao abarcar um período tão grande na vida de seu biografado. Muita coisa que recebe destaque em dado momento é completamente esquecida no seguinte sem muita explicação. Um exemplo é o programa de Elis e Jair Rodrigues. Uma cena mostra o sucesso deles, a seguinte já diz que eles estão perdendo terreno para a Jovem Guarda, logo depois o Bôscoli e o Miele (Lúcio Mauro Filho) são trazidos para revitalizar o programa, mas assim que Elis e Bôscoli se envolvem romanticamente, o programa desaparece do filme por completo. Em muitos momentos também não há a sensação clara de quanto tempo passou entre uma cena e outra. Por vezes temos a impressão de um salto temporal grande, mas os diálogos se referem a eventos de cenas que ficaram para trás a um tempo considerável quase como se fossem recentes, o que  deixa a impressão de uma temporalidade bagunçada.

Porém nem isso consegue diminuir o brilho e a força da trajetória de Elis Regina e há um visível esforço em mostrá-la não apenas como uma mulher de enorme talento, mas também como uma pessoa constantemente inquieta, cheia de falhas e em constante conflito consigo mesma. Andreia Horta desaparece no papel de tão eficiente que é em evocar os maneirismos e fala de Elis, funcionando também em trazer toda a inquietação e impetuosidade da cantora.

Ao seu lado há um elenco igualmente competente. Gustavo Machado é eficiente em construir a personalidade blasé e cafajeste de Bôscoli, fazendo dele um canalha charmoso do qual conseguimos compreender o motivo das mulheres se sentirem atraídas por ele, mesmo sabendo de seu caráter (ou falta dele). Lúcio Mauro Filho surpreende como Miele, já que mesmo sem parecer fisicamente com ele, traz a mesma cadência de fala que lhe era particular e linguagem corporal.

Os números musicais trazem a intensidade e força que estamos acostumados às músicas de Elis Regina, confesso que me arrepiei na cena em que ela canta pela primeira vez a primorosa O Bêbado e a Equilibrista (uma das ou talvez a melhor canção da música brasileira). A cena é tão poderosa que a primeira coisa dita depois da performance é um acertado "puta que pariu" do cartunista Henfil (Bruce Gomlevsky). Por outro lado, a música original composta para o filme é muitas vezes óbvia e demasiadamente intrusiva, como a exagerada música de suspense usada na cena em que Elis chega em casa depois de interrogada pela ditadura.

Nesse tipo de filme muita coisa acaba sendo suprimida para que a história possa caber nas duas horas de filme, assim nem incomoda tanto a omissão de muitas figuras importantes da música que cruzaram o caminho de Elis. Uma escolha particular, no entanto, acaba chamando a atenção. O filme começa e termina com a personagem principal cantando canções compostas por Belchior, no entanto o cantor e compositor não é visto ou citado em momento algum do filme. Isso cria um paradoxo estranhíssimo. Se a música de Belchior é tão importante na trajetória da cantora ao ponto de abrir e fechar o filme, como ele pode ser tão pouco importante para que seu nome sequer seja mencionado durante o filme? Se seu trabalho ao lado da cantora não é suficientemente importante para valer uma menção então porque justamente são as canções dele que começam e terminam a obra? Não faz muito sentido.

Elis acerta na escolha do elenco e na construção dos números musicais, sendo digno da intensidade e da importância de sua biografada ainda que tenha alguns problemas estruturais.


Nota: 7/10

Trailer:

Nenhum comentário: