quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Crítica - Ex Machina: Instinto Artificial


Análise Ex Machina: Instinto Artificial

Review Ex Machina: Instinto Artificial
O processo decisório de algumas distribuidoras é algo que escapa minha compreensão. Volta e meia lançam nos cinemas brasileiros filmes que foram um enorme fracasso nos Estados Unidos ou que foram lançados direto em DVD, como o caso do execrável Para o que Der e Vier, enquanto isso ótimos filmes como o terror The Babadook e este excelente Ex Machina: Instinto Artificial (e ainda me colocam esse subtítulo bizarro), são lançados aqui direto para vídeo apesar do sucesso que fizeram lá fora.

A trama acompanha Caleb (Domhnall Gleeson), um programador que trabalha para a engine de busca BlueBook (um Google futurista) e ganha um sorteio para passar uma semana na propriedade do recluso bilionário Nathan (Oscar Isaac), o presidente da empresa. Ao chegar lá descobre que não foi sorteado apenas para um retiro corporativo, mas para interagir com o novo "produto" criado pelo bilionário, a robô Ava (Alicia Vikander), para realizar um "Teste de Turing" (ou Jogo da Imitação, como trata o filme sobre o matemático) de modo a determinar se sua inteligência artificial permite que seja confundida com humana. Como era de se esperar, as coisas não são tão simples quanto Caleb pensa e ele se vê em um perigoso jogo entre Nathan e Ava.

O filme vai aos poucos construindo uma atmosfera de tensão, nos dando pequenos indícios de que as coisas não são tão simples quanto Caleb pensa. Já na primeira conversa com Nathan vemos como o bilionário parece sempre querer deter as rédeas da conversa e rechaça de modo seco as tentativas do convidado em sair dos tópicos propostos por seu anfitrião. Do mesmo modo, quando ficamos sabendo que a chave recebida por Caleb só dá acesso a alguns cômodos, temos a impressão de que talvez ele não seja exatamente um convidado, mas um prisioneiro ali. O perigo latente daquele lugar é levemente percebido pelo vidro trincado no cômodo em que interage com Ava pela primeira vez e os súbitos blecautes que trancam as portas nos fazem inferir que nem tudo está tão sob controle quanto Nathan tenta convencê-lo de que está.

Tudo isso ocorre nos primeiros minutos de filme e obviamente não vou detalhar muito o que acontece adiante para não estragar a experiência de ninguém. A partir daí as tensões vão cuidadosamente escalando enquanto Caleb tenta analisar a "humanidade" da robô Ava e dá suas impressões a Nathan. Conforme esses três personagens interagem vamos indagando sobre o que realmente nos faz humanos. A investigação sobre a essência da humanidade começa a pesar sobre Caleb ao ponto que as fronteiras passam a se turvar e o protagonista passa a duvidar da própria humanidade, como na impactante cena em que ele começa a cortar o próprio corpo.

O diretor e roteirista Alex Garland acerta ao evitar dar respostas definitivas sobre as questões levantadas, permitindo que analisemos a situação por nós mesmos e construamos nossas próprias opiniões a respeito. Evita também prestar julgamento sobre os personagens e transformá-los em figuras maniqueístas que apenas empobreceriam o debate aqui proposto. Basicamente, o filme tem êxito em tudo que o pavoroso Chappie tentou fazer e fracassou graças a seu olhar leviano e unidimensional. Ao invés disso, Ex Machina: Instinto Artificial investe na criação de sujeitos complexos e ambíguos que nunca são facilmente decifráveis, o que amplia o sentimento de apreensão e incerteza, nos fazendo observar atentamente cada palavra, gesto e expressão desses indivíduos, buscando os indícios e subtextos que nos permitam tentar compreender as atitudes que se esforçam tanto para dissimular.

Chega a ser assombroso que este seja o primeiro longa de Garland, já que ele conduz esses embates com tanta segurança e precisão, uma grata surpresa em um ano que nos brindou com outro trabalho primoroso de um diretor neófito em longas-metragens no Whiplash: Em Busca da Perfeição de Damien Chazelle. O design de produção também acerta na criação dos corredores metálicos cheios de espelhos e divisórias de vidro, explicitando a caráter frio e enclausurado da mansão de Nathan. A fotografia aproveita para ressaltar o contraste dos ambientes brancos e cinzentos da casa com o verde vivo da vegetação ao redor ou o azul das geleiras. Além, é claro, da qualidade dos efeitos visuais que criam boa parte da robô Ava em uma mescla de efeitos práticos e de maquiagem com computação gráfica.

Como o filme é praticamente todo calcado nos diálogos entre os personagens, nada disso valeria se o elenco não estivesse a altura das múltiplas camadas trazidas pelo texto de Garland, mas a trinca principal de fato exibe grande habilidade, fazendo cada conversa ser carregada de tensão, criando um sofisticado thriller psicológico habitado por personagens extremamente inteligentes que tentam a todo momento superar a esperteza um do outro. Como já falei o filme evita maniqueísmos, dando a cada um seus próprios interesses e motivações, todas compreensíveis e justificáveis (sob seus próprios pontos de vista) conferindo grande complexidade a esses indivíduos e aos confrontos que se desenvolvem entre eles.

Oscar Isaac consegue fazer de Nathan um sujeito simultaneamente simpático e ameaçador, sendo que por mais que ele seja responsável pelos momentos mais engraçados do longa (como a cena em que ele dança), percebemos que há algo sombrio por trás de sua cortesia. Por sua vez Domhnall Gleeson traz uma medida de ingenuidade e vulnerabilidade a Caleb, algo que claramente justifica a escolha dele por Nathan, mas ao mesmo tempo ele é suficientemente atento e engenhoso para não ficar alheio aos possíveis segredos que Nathan lhe omite. Por fim temos a revelação que é a atriz sueca Alicia Vikander, meu primeiro contato com seu trabalho fora no horrendo O Sétimo Filho, o que tornou ainda mais surpreendente para mim a magnética performance que exibiu aqui. Sua Ava é uma proverbial esfinge, enigmática e inescrutável, sempre pendendo entre inocência e malícia, entre firmeza e doçura. Sua postura é rígida, mas expressiva, de um modo que nos traz uma linguagem corporal que é ao mesmo tempo robótica e dotada de humanidade. É exatamente por percebemos uma humanidade latente em meio a sua conduta robótica que a personagem (e o filme) funciona tão bem.

Assim sendo, Ex Machina: Instinto Artificial é uma inteligente mistura de ficção científica, suspense e pitadas de terror, que consegue entreter e nos instigar a reflexões complexas sobre a natureza humana graças a sua direção precisa e elenco afiado.

Nota: 10/10

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