sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Crítica - O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos


Quando falei sobre os dois filmes anteriores desta nova trilogia, sempre mencionei o quanto eles eram inchados, cheios de subtramas desnecessárias e ritmo arrastado. Este O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos poderia fazer valer todos os excessos anteriores ao entregar um clímax que os justificasse, no entanto, apenas consolida a ideia de que a modesta e simples aventura escrita por J.R.R Tolkien não precisava ser estendida ao longo de três filmes.

O filme começa exatamente onde A Desolação de Smaug terminou, com o poderoso dragão dirigindo-se à Cidade do Lago. Após a batalha, os moradores da cidade, liderados por Bard (Luke Evans), decidem pedir a parte que lhes cabe do tesouro da montanha para reconstruírem a cidade. No entanto, Thorin (Richard Armitage) foi completamente consumido por sua cobiça e se recusa a negociar. Além dos humanos, o rei elfo Thranduil (Lee Pace) também se aproxima da montanha para recuperar um antigo tesouro. Para piorar, o exército de orcs liderados por Azog (Manu Bennet) se aproxima da montanha, pronto para cercar humanos, elfos e anões para eliminá-los de uma vez.

Assim como os dois primeiros filmes, este também sofre com problemas de ritmo, o principal deles é o fato de ele começa pelo clímax. A batalha contra Smaug é grandiosa, tensa e empolgante como se esperava, mas fica a sensação de isto deveria estar no final do filme anterior e não servir de prólogo para este, já que primeiro é preciso fechar o arco do dragão para que a trama deste filme possa devidamente começar.

Para piorar, algumas subtramas e personagens que os dois primeiros filmes gastaram precioso tempo para construir, como o romance entre Kili (Aidan Turner) e Tauriel (Evangeline Lily) ou a introdução de Beorn (Mikael Persbrandt). Qualquer um que conhece o livro sabe o que acontece com Kili ao fim de O Hobbit, o que nos trazia a incômoda sensação de que este arco morreria na praia e este terceiro filme apenas confirma que este romance foi uma enorme perda de tempo, já não acrescentou nada ao personagem. O mesmo pode ser dito de Beorn, que, dada sua aparição relâmpago neste terceiro filme, poderia ter sido inteiramente suprimido desta trilogia. Nos livros ele é importante na batalha final, mas aqui mal aparece, tornando sua longa e arrastada introdução no filme anterior completamente inútil, melhor teria sido não mostrar o personagem (da mesma forma como suprimiram Tom Bombadil em O Senhor dos Anéis) do que colocá-lo na narrativa e não fazer nada com ele.

Não bastassem os problemas herdados de escolhas equivocadas dos filmes anteriores, este filme também comete seus erros. Um deles é o foco excessivo no covarde Alfrid (Ryan Gage). Se inicialmente ele oferece um bem-vindo alívio cômico, sua presença vai se tornando incômoda à medida que o filme insiste em fazer as mesmas piadas e fica difícil crer que Bard ou os outros cidadãos tolerariam um comportamento tão torpe. O incômodo ainda piora com a insistência do filme em manter vivo alguém tão desprezível, já que todo o tema do filme são os problemas causados pela ganância e deixá-lo sem punição parece tematicamente incoerente.

A irregularidade dos efeitos especiais também incomoda em alguns momentos. A maquiagem digital usada em Legolas (Orlando Bloom) o deixa com um aspecto esquisito. Algumas cenas com Bilbo (Martin Freeman) e Gandalf (Ian McKellen) conversando em meio à batalha (e o mesmo acontece em uma cena com Thorin e seu primo) são incomodamente bidimensionais, deixando claro que os atores estavam sozinhos diante de um fundo azul e não em meio a uma guerra frenética.

No entanto, o filme também tem seus acertos. Peter Jackson continua a exibir sua habitual competência em comandar grandes cenas de ação, estabelecendo com clareza a geografia do ambiente e a movimentação dos personagens, deixando claro quem está aonde e lutando contra quem, criando uma encenação fluida e coesa. Embora nada do que aconteça durante a batalha do título chame tanto a atenção quanto o confronto com Smaug (Benedict Cumberbatch) no início, ainda assim é tudo muito bem realizado e as acrobacias do elfo Legolas continuam espetaculares.

Martin Freeman continua sendo o coração e a alma do filme com seu Bilbo e exibe uma preocupação genuína com a mudança de seu amigo Thorin. Os momentos em que temos ambos em cena são de longe os melhores do filme e Freeman exibe muito bem a apreensão e pesar que Bilbo sente pelo companheiro. Uma pena, portanto, que Bilbo apareça tão pouco (apesar de seu papel decisivo), se tornando quase um coadjuvante em seu próprio filme. Richard Armitage, por sua vez, é muito competente em retratar a queda de Thorin rumo à cobiça e como a posse do seu tesouro o deixa insano. É interessante perceber como o filme sobrepõe a voz do personagem com a de Smaug, demonstrando como ele se tornou tão obcecado pelo ouro quanto o dragão.

Os demais anões não tem muito o que fazer (exceto Kili e seu malfadado romance), mas todos evocam bem o afeto e camaradagem que sentem um pelo outro, assim, mesmo sabendo muito pouco sobre eles, podemos sentir o quanto são amigos e se importam uns com os outros.

Contudo, é o carisma e calor humano (ou élfico ou anão) destes personagens que faz esta jornada valer a pena e encerrar com dignidade a jornada de Bilbo Bolseiro, que definitivamente não precisava ser tão inchada e alongada através de três filmes.


Nota: 6/10

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