sexta-feira, 30 de maio de 2014

Crítica - Confia em Mim

Em meu texto sobre Alemão comentei como o cinema brasileiro vem tentado emplacar comercialmente outros gêneros além das comédias. O resultado nem sempre é satisfatório (como o próprio Alemão), mas pelo menos é bom ver que nossa produção está se expandindo para outros campos. Confia em Mim é mais uma tentativa de realizar um suspense, embora, infelizmente, ainda não consiga fazê-lo com competência.

A trama é centrada em Maria (Fernanda Machado), uma chef que sonha em abrir seu próprio restaurante para se livrar de seu patrão invejoso. Seus desejos parecem próximos a se concretizar quando ela conhece o sedutor Caio (Matheus Solano), que se prontifica a investir na jovem se eles se tornarem sócios no negócio. Envolvida por ele, Maria lhe dá suas economias para que possam comprar o imóvel para fazerem o restaurante, mas, para sua surpresa, Caio desaparece com o seu dinheiro. A partir daí Maria inicia uma busca pelo golpista para tentar reaver seu dinheiro.


O filme é competente em retratar a sensação de impotência que as vítimas desse golpe experimentam, já que não há muito que as autoridades possam fazer visto que costumeiramente as vítimas entregam voluntariamente seu dinheiro aos golpistas. Então acompanhamos Maria enquanto ela se vê obrigada a pedir seu antigo emprego de volta, praticamente se humilhando ao antigo chefe, ou os comentários de desaprovação de sua mãe e irmã que a veem como uma coitada.
 
Matheus Solano também é competente em criar um golpista que é igualmente carismático e escorregadio, que com seus sorrisos e conversa bem articulada consegue convencer suas vítimas de suas mentiras e desculpas, mesmo quando elas claramente desconfiam dele.

O problema do filme, no entanto, reside na própria natureza do crime (ou a inexistência deste) retratado. Afinal, se é difícil enquadrar o golpista em um crime específico, também não é possível haver um aumento das tensões ou um confronto direto entre ele Maria, já que Caio sabe que ela não possui nada contra ele, então não existe motivo para que ele tente algo contra ela.

Apesar disso o filme ainda tenta forçar um embate entre eles após a tentativa fracassada de flagrá-lo com outra vítima. Na cena em questão, Caio vai até a casa de Maria para questionar se ela o está investigando e o filme quer sugerir o tempo todo que algo irá acontecer, mas nada efetivamente acontece. Já no início da cena, quando Caio entra no apartamento de Maria, o golpista é mostrado por uma câmera trêmula e fora de foco, como se quisesse sugerir um desequilíbrio psicológico do personagem, sendo que isso não ocorre, afinal ele sabe que não pode ser preso. Assim sendo o recurso não soa apenas equivocado e despropositado, mas também dramaticamente desonesto, uma vez que sugere algo que não reflete a conduta do personagem e toda a cena termina por soar gratuita e vazia.

Na verdade, o terço final do filme é inteiro repleto de momentos que visam criar situações tensas e climáticas, mas estas nunca se concretizam. Mesmo a conclusão da história soa demasiadamente rápida e fácil, encerrando a narrativa de modo bastante anticlimático. O que temos, portanto, é um suspense que jamais consegue criar efetivamente um clima de tensão e incerteza, as bases do gênero narrativo que a obra tenta ser, falhando naquilo que deveria ser o elemento principal e dominante do filme.

Deste modo, Confia em Mim apresenta apenas uma trama morna, que nunca engrena ou envolve, desperdiçando o esforço da construção dos dois personagens principais e o trabalho de seus atores.

Nota: 4/10

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