quarta-feira, 12 de março de 2014

Crítica - Alemão

O cinema nacional mais comercial parece ter encontrado vocação para determinados tipos de filmes, como comédias ou biografias, mas outros, como suspense, parecem relegados ao segundo plano, gerando produtos cujos resultados são no mínimo constrangedores como os horrendos Segurança Nacional (2010) e Federal (2006). Claro, ano passado tivemos o excelente O Lobo Atrás da Porta que circulou por várias mostras e festivais, mas o cinema brasileiro ainda está longe de ser um prolífico produtor do gênero e este Alemão não contribui em nada para seu desenvolvimento.
 
Usando a invasão do Morro do Alemão como pano de fundo, o filme conta a história ficcional (como o letreiro inicial faz questão de apontar) de Samuel (Caio Blat), Branco (Milhem Cortaz), Danilo (Gabriel Braga Nunes) e Carlinhos (Marcelo Melo Jr), policiais do serviço de inteligência que moram infiltrados no morro para coletar informações sobre os traficantes do local para a iminente invasão. Quando suas identidades são expostas a Playboy (Cauã Reymond), o traficante que comanda o morro, eles se refugiam na pizzaria de Doca (Otávio Müller), também um policial infiltrado. Presos lá dentro enquanto os traficantes os procuram, os cinco precisam encontrar um modo de sair do morro antes que a invasão comece para repassarem a inteligência recolhida para a polícia.

Com essa premissa o filme poderia ser uma espécie de Cães de Aluguel (1992) brasileiro, mostrando esse grupo com personalidades antagônicas confinados em um local, tentando entender como tudo deu errado enquanto o cerco se fecha contra eles e as tensões entre o grupo crescem. Infelizmente Alemão não chega nem perto disso, graças a problemas no roteiro e algumas péssimas escolhas.
 
Iniciando com cartelas de texto que explicam todo o pano de fundo do filme da forma mais artificial possível, o filme intercala vários trechos de telejornais sobre a invasão entre as cenas do filme. Essa decisão parece não casar bem com o esclarecimento inicial de que a história desses personagens é uma ficção, afinal ao contrapor tudo com a realidade, a obra nos lembra que estamos vendo uma história imaginada que de modo algum incidiu, impactou ou teve qualquer relação com a realidade concreta trazida nas matérias jornalísticas. Além disso a trama se perde em uma linha temporal confusa, pouco orgânica e por vezes forçada, como o momento em que um morador passa pela pizzaria de dia e vê a mão de Doca sangrando, mas só conta suas suspeitas ao dono do morro tarde da noite. O mesmo ocorre com o mensageiro que transporta os documentos da polícia que só vai até o delegado contar que perdeu papéis importantes um dia depois.
 
Algumas situações passam longe de evocar tensão como a tola emboscada armada para pegar Carlinhos, na qual os traficantes colocam sua namorada em carro e usam o sistema de som para chamá-lo. Era de se esperar que a armadilha contasse com vários bandidos escondidos nos becos e lajes, esperando para matá-lo ou prendê-lo de modo a extrair dele a informação onde os outros estavam. Ao invés disso, apenas dois bandidos armados protegem a garota e a situação se resolve facilmente.
 
Não ajuda também o fato da trama jamais se aprofundar nesses personagens, construindo-os como figuras unidimensionais com motivações bastante clichês, temos o pai de família que quer voltar para a filha, o jovem que quer provar o valor ao pai e por aí vai. Assim, fica difícil aderir a estes personagens, tanto que quando um deles é baleado não há qualquer tipo de temor ou surpresa, apenas apatia. Isso ainda é prejudicado por alguns diálogos sofríveis como aqueles envolvendo o delegado (Antônio Fagundes) e o mensageiro e a despropositada tentativa de tentar criar uma aproximação romântica entre Mariana (Mariana Nunes) e um personagem que está praticamente agonizando e que ela mal conhece, afinal não há a menor possibilidade que nada se concretize entre os dois. Tudo isso é invariavelmente piorado por uma direção de atores equivocada que parece confundir intensidade com exagero e em muitos momentos o bom elenco acaba soando como um amontoado de caricaturas.
O filme ainda tenta discutir a questão das UPPs e da ocupação policial dos morros, mas se limita à oposição binária entre a necessidade de segurança, presença e assistência do Estado nesses locais e a brutalidade e corrupção policial que fazem tão mal quanto o trafico. As discussões nunca vão além dessas duas frases e falham em sair do senso comum ao tentar produzir qualquer tipo de reflexão sobre um problema social altamente complexo, o excelente documentário Morro dos Prazeres (2013), por exemplo, constrói um debate muito mais rico e ponderado sobre o tema.
 
Entretanto, a narrativa não é um completo desperdício, o início, com os personagens se encontrando pela primeira vez sem saber como o disfarce deles foi exposto, é bastante tenso e igualmente eficaz é o momento em que os traficantes entram na pizzaria de Doca para perguntar sobre os policiais.
 
Outro problema é o uso da música, que parece inadequada ao clima do filme. A narrativa apresenta um arco tenso, claustrofóbico e fatalista, com a sensação de que aqueles personagens poderiam morrer a qualquer momento. A música, ao invés de contribuir com a sensação de incômodo, tensão, claustrofobia e desesperança, se apresenta com sons que evocam grandiosidade, com acordes que lembram composições de Ennio Morricone para os faroestes de Sergio Leone, ou pesam forte a mão no melodrama e todas as vezes que elas são inseridas, parecem não se relacionar nem um pouco com as imagens que vemos, principalmente porque as vezes são colocadas em cenas nas quais não há nada de efetivamente importante acontecendo, isso sem mencionar os momentos em que a música interfere diretamente com os diálogos e não conseguimos entender o que os personagens dizem por causa da intrusão musical. Há tempos não via a música sendo usada de modo tão equivocado em um filme.
 
Por outro lado, temos uma fotografia e um uso de câmera bastante eficiente, apostando nas sombras e um forte contraste entre claro e escuro para construir todo aquele ambiente como um lugar hostil e sufocante. A câmera contribui para essa sensação com o uso de planos fechados que transmitem a sensação de confinamento, bem como o uso de uma câmera na mão, gerando imagens tremidas e por vezes desfocadas que denotam a incerteza, o nervosismo e a tensão que permeiam tudo aquilo.
 
No fim das contas, Alemão acaba sendo um produto bastante decepcionante que devido a um roteiro capenga e decisões equivocadas jamais explora o potencial de sua premissa.
 
Nota: 4/10

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