segunda-feira, 14 de junho de 2021

Crítica – Amonite

 

Análise Crítica – Ammonite

Review – Ammonite
Este Amonite é levemente baseado na história real da paleontóloga Mary Anning. Digo levemente porque não há confirmação histórica do relacionamento entre ela e Charlotte Murchinson ainda que seja amplamente falado que as duas tiveram um relacionamento amoroso.

A trama se passa na Inglaterra do século XIX, Mary (Kate Winslet) é uma prolífica paleontóloga que é subestimada dentro do seu campo de atividade. Um dia ela é visitada por Roderick (James McArdle), que paga Mary por um tour guiado pela praia na qual ela escava fósseis. É aí que ela conhece Charlotte (Saoirse Ronan), esposa de Roderick com quem tem uma relação fria e desprovida de afeto. Roderick parte em uma expedição e deixa Charlotte, que está com problemas de saúde, aos cuidados de Amy. Aos poucos as duas começam a se aproximar e o que era companheirismo vai dando lugar ao romance.

A trama evidencia bem a solidão dessas duas personagens. Ambas mulheres carentes, que se sentem invisíveis, desvalorizadas e isso ajuda a entender a razão da forte conexõe que é construída entre as duas, como se elas se reconhecessem na solidão da outra e reparar isso na outra fosse reparar seus próprios problemas.

O sentimento de solidão e isolamento é ressaltado pelo pouco e discreto uso de música, com muitas cenas sendo pontuadas apenas pelos ruídos ambientes, como sons de oceano e pássaros, ressaltando o vazio e o silêncio dos espaços ocupados pelas personagens, deixando claro a existência solitária delas, especialmente Mary. Os poucos momentos de música mais presente são justamente aqueles de maior aproximação e afeto entre as duas personagens, como se essas trocas, esses gestos e interações modificassem o cotidiano silencioso delas, preenchendo-o com sentimento.

Como a trama fica boa parte do tempo apenas com as duas protagonistas em cena, é pelo trabalho de Kate Winslet e Saoirse Ronan que a narrativa encontra sua força afetiva. Mesmo com poucos diálogos e longos momentos de silêncio, impressiona o quanto Winslet consegue transmitir apenas com o olhar e o modo como Mary observa Charlotte. A Mary de Winslet é uma mulher pragmática, que põe seu trabalho em primeiro lugar, resguardada, mas que aos poucos se abre para a jovem que está cuidando. Já Ronan faz de Charlotte uma garota que parece nunca ter experimentado afeto verdadeiro até Mary e a cena em que as duas transam pela primeira vez transparece que Charlotte está descobrindo sentimentos e sensações sobre si que até então não conhecia.

A questão do preconceito e do temor em romper com certas regras sociais de heteronormatividade inevitavelmente aparece no clímax do filme, quando Charlotte tenta conciliar a vida de casada dela com a relação com Mary, algo que a paleontóloga rejeita não por um senso de moralidade, mas por não querer se afastar do trabalho de campo com fósseis. De certa forma, é a insistência de Charlotte em manter as aparências que acaba condenando a relação.

Carregado pelas ótimas performances das duas protagonistas, Amonite é um envolvente estudo de personagem sobre solidão e afeto.

 

Nota: 7/10


Trailer

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