segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Rapsódias Revisitadas - 007 Contra Goldeneye

Análise Crítica - 007 Contra Goldeneye

Review - 007 Contra Goldeneye
Lançado em 1995, 007 Contra Goldeneye tinha a missão de mostrar que o famoso agente britânico com licença para matar ainda poderia ser relevante em um contexto pós-Guerra Fria. No final da década de oitenta as duas tentativas protagonizadas por Timothy Dalton, 007 Marcado Para Morte (1987) e 007 Permissão Para Matar (1989) não agradaram muito por conta da persona mais violenta do Bond de Dalton e pela natureza mais banal de seus inimigos, como contrabandistas, oficiais governamentais corruptos ou crimes de evasão de divisas.

Com um novo Bond em Pierce Brosnan, 007 Contra Goldeneye tentava trazer de volta a glória dos tempos áureos de James Bond, afastando-o do tom excessivamente sisudo de Dalton ou do camp e da galhofa de Roger Moore. A abordagem parecia remeter à fase de Sean Connery, mas fazendo o personagem e as ameaças enfrentadas por ele soarem contemporâneas (para a época em que foi feito, claro). Nesse sentido, a trama do filme é sobre as marcas indeléveis da guerra, sobre como o fim de um conflito não significa que as feridas abertas por ele deixam de sangrar e as consequências disso reverberam por anos a fio.

A trama coloca James Bond (Pierce Brosnan) na caça por uma arma tecnológica chamada Goldeneye, um satélite capaz de disparar pulsos eletromagnéticos fortes o suficientes para fritar todos os dispositivos eletrônicos de um país inteiro. Quando a arma é roubada dos russos pelo dissidente Ourumov (Gottfried John), Bond se junta à analista de sistemas Natalya (Isabella Scorupco) para encontrar a arma e descobrir quem é o misterioso Janus, que está por trás das ações de Ourumov.

O texto de certa forma reconhece que há algo de datado em Bond, com M (Judi Dench) chamando atenção do agente pelo comportamento irresponsável e machista. Não significa que Bond deixou exatamente de ser isso, mas a misoginia do personagem é suavizada (para os padrões de 1995) em relação aos primeiros filmes do agente. Além disso, a escalação de uma mulher para ser a chefe de Bond ajuda por em xeque o comportamento do personagem, dando a ele uma figura feminina que tem autoridade sobre ele e com a qual seus truques não funcionam.

O Bond de Brosnan ainda é um agente calejado por anos de serviço, marcado pela perda de aliados próximos como Alec Trevelyan (Sean Bean, seguindo a tradição de morrer em praticamente todos os filmes), mas Brosnan também injeta em seu Bond uma atitude mais blasé fazendo mais descolado e trazendo mais charme ao agente britânico. A jornada de Bond aqui é a de mostrar seu valor em um mundo que, depois do fim da Guerra Fria, talvez não precise mais de espiões.

É um tema que os Bond posteriores com Brosnan seguiriam, mas sem o mesmo sucesso. O que faz diferença aqui, provavelmente é a perspectiva histórica, de mostrar como as ameaças que surgem neste filme são um reflexo direto das feridas deixadas pela Guerra Fria e também outros conflitos do século XX. Ourumov é um dissidente que não aceita o fim da União Soviética e deseja voltar aos seus “dias de glória” de outrora, preso a um passado que não tem mais volta, insistindo em entender os novos tempos ou abrir mão de quem era.

Esse ideia de apego às marcas do passado é também evidenciada em Trevelyan, preso a um passado ainda mais remoto por sua descendência cossaca, tentando obter justiça por guerras de outrora, mostrando como são duradouras as sequelas desses conflitos e do ciclo de violência gerado por eles. Trevelyan é também uma marca, uma cicatriz do passado do próprio Bond, uma corporificação dos erros passados do agente. De certa forma o antagonista é um lembrete a Bond do que aconteceria se ele ficasse preso a rancores do passado e cedesse aos próprios traumas. O molde de Trevelyan é algo que a franquia tentou replicar na nova versão de Blofeld em 007 Contra Spectre (2015), mas falhou em estabelecer uma motivação consistente.

Nesse sentido é significativo que Trevelyan escolha o codinome de Janus (é um filme de 25 anos, isso não é spoiler), o deus greco-romano de duas faces, representando a dualidade do personagem enquanto antigo aliado e atual antagonista de Bond. As duas faces do deus também representam o passado e o presente, fazendo dele a divindade da mudança da transição, sendo curioso que Trevelyan seja motivado (e eventualmente destruído) justamente por se recusar a desapegar do passado. Imagino também que não seja por acidente que a revelação envolvendo a identidade de Janus aconteça em um parque com antigas estátuas soviéticas, um espaço pautado na permanência e desgaste do passado no presente.

O filme ainda apresenta ótimas sequências de ação, como a fuga em uma avião em queda livre no início, a perseguição a Ourumov com Bond pilotando um tanque ou o conflito final contra Trevelyan em uma antena de satélite. Repletas de adrenalina explosiva, a ação não ficava devendo em nada aos blockbusters de ação da época, mostrando que Bond poderia tranquilamente competir com filmes do gênero que enchiam os cinemas na década de 90.

007 Contra Goldeneye foi uma bem sucedida renovação da franquia James Bond, mostrando como o espião britânico poderia se manter relevante mesmo no contexto pós-Guerra Fria. O restante dos filmes de Brosnan como 007 não chegam a ser tão bons quanto a estreia dele no personagem, mas o trabalho do diretor Martin Campbell é tão competente que mais de uma década depois ele seria chamado novamente para renovar o personagem ao dirigir 007 Cassino Royale uma década depois e introduzir um novo Bond em Daniel Craig.


Trailer

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