quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Crítica – O Assassinato de Nicole Simpson

 

Análise Crítica – O Assassinato de Nicole Simpson

Review – O Assassinato de Nicole Simpson
Ocorrido na década de 90, o julgamento do atleta e ator O.J Simpson pelo assassinato da ex-esposa, Nicole, movimentou a atenção da mídia dos Estados Unidos. Nos últimos anos Hollywood se debruçou a analisar esses eventos, produzindo retratos amplos e complexos sobre o caso. Na ficção tivemos a excelente minissérie O Povo Contra O.J Simpson, parte da série de antologia American Crime Story capitaneada por Ryan Murphy. No documentário tivemos o vencedor de Oscar O.J Made in America (2017).

Digo tudo isso para mostrar a vocês que existem alternativas muito melhores para entender o caso do que este O Assassinato de Nicole Simpson, uma tentativa rasteira e sensacionalista de retratar os últimos dias de Nicole feita pelo diretor Daniel Farrands, que já tinha conduzido o péssimo A Maldição de Sharon Tate (2019), também sobre um assassinato real e igualmente apelativo e raso.

A trama acompanha os últimos dias de Nicole Brown Simpson (Mena Suvari) antes de ser assassinada. Vemos a relação dela com as amigas Faye (Taryn Manning) e Kris (Agnes Bruckner), ao mesmo tempo em que acompanhamos a presença e ameaças constantes de O.J (Gene Freeman) a Nicole. O filme também mostra Nicole tendo um caso com um pintor que reformava a casa dela, Glen (Nick Stahl) e usa isso para tentar reescrever a história e dizer que Nicole talvez tenha sido morta por Glen Rogers (e não por O.J), o “Casanova Killer” um serial killer real que estava em atividade em Los Angeles na época. Deixando em dúvida quem teria sido o real assassino ou se O.J e Glen colaboraram na morte (algo do qual não há qualquer prova).

Glen teria confessado o assassinato de Nicole quando foi preso, mas há anos já foi provado que ele não poderia ter cometido esse crime, então para o filme desenterrar uma teoria conspiratória já formalmente descreditada apenas para tentar construir suspense em cima de um caso real de feminicídio soa apelativo, de mau gosto e desrespeitoso com a vítima. Além disso soa irresponsável, já que pode atiçar uma nova onda de teorias conspiratórias e negacionismo sobre o que teria acontecido.

O material de divulgação diz que o intento do filme a dar voz a Nicole, permitir que ela seja vista como algo mais que vítima. É uma intenção nobre, mas que nunca se realiza. A protagonista não é mostrada como qualquer outra coisa que não uma vítima. Praticamente todos os seus diálogos giram em torno de como O.J era violento com ela e as situações nas quais ela é ameaçada ou atacada por O.J ou por Glen.

O filme inclusive coloca algumas cenas gratuitas de violência, como o pesadelo em que Nicole se vê “possuída” por uma entidade fantasmagórica que a arremessa nas paredes, um momento que não acrescenta nada à personagem e existe apenas para espetacularizar a violência à qual ela é submetida. Uma atitude reprovável considerando que Nicole foi vítima de um crime brutal e que até hoje não recebeu justiça (O.J foi inocentado e sua prisão se deu por outro crime). Ele (assim como o trabalho anterior de Farrands) é basicamente tudo que os detratores de Era Uma Vez em...Hollywood (2019) acusavam o filme de Tarantino de ser, uma exposição de mau gosto de crime real para fins de espetáculo sem nada a dizer.

A atriz Mena Suvari tenta fazer o que pode para dar algum módico de complexidade a Nicole, trazendo um olhar melancólico, exausto, que demonstra como todo o processo de separação do marido e esforço de resistir às ameaças dele estão acabando com ela mentalmente. O problema é que o texto não tem nada a dizer sobre ela além do fato de que Nicole seria inevitavelmente morta, como que predestinada a isso. Ao longo do filme existem várias tomadas e diálogo cujo único propósito é servir de prefiguração do que acontecerá, como as imagens do infame Ford Bronco branco (a montadora parou de fazer o carro, depois do caso) de O.J parado na calçada observando Nicole ou diálogos de Nicole falando sobre as marcas de sapato que O.J deixa na calçada dela.

O elenco coadjuvante não ajuda as coisas a melhorarem. O.J passa boa parte do filme sendo reduzido a uma sombra, uma ameaça à espreita, como o Jason da franquia de Sexta Feira 13. Nos poucos momentos em que de fato está em cena, o ator Gene Freeman nos faz querer que a presença dele fosse só fora de quadro, já que ele é tão inexpressivo que sequer consegue trazer uma presença impositiva ou ameaçadora para O.J. Nick Stahl, por sua vez, fica preso a um psicopata que pende para a caricatura e, como o resto dos personagens do filme, não há qualquer esforço de entendê-lo, qual o seu modus operandi ou como ele escolhe as vítimas.

Apesar de dizer que fala em favor da vítima, O Assassinato de Nicole Simpson é uma exploração rasa, sensacionalista e irresponsável de um caso real e brutal de feminicídio, que não tem nada de consistente a dizer sobre o caso ou os envolvidos e ainda ressuscita teorias conspiratórias já formalmente refutadas.

 

Nota: 2/10


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