terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Crítica - American Crime Story: The People v. O.J Simpson

Análise American Crime Story: The People v. O.J Simpson


Review American Crime Story: The People v. O.J Simpson
O julgamento do ex-jogador de futebol americano O.J Simpson, acusado de assassinar sua esposa (de quem vivia separado na época) e o então namorado, foi considerado o "julgamento do século". Nunca na memória coletiva dos Estados Unidos alguém tão famoso esteve sob suspeita de cometer um crime tão bárbaro. O julgamento foi transformado em espetáculo midiático, transmitido ao vivo na televisão, e com toda a exposição emergiram outras questões que iam além da possível culpa de O.J, remetendo à violência histórica da polícia de Los Angeles contra a população negra, a constante impunidade de crimes relacionados a violência doméstica e o próprio fascínio do país com as celebridades. É sobre esse julgamento que American Crime Story: The People v. O.J Simpson, nova série de antologia (cada temporada traz uma história isolada) do Ryan Murphy (responsável por American Horror Story), irá se debruçar.

A trama começa no dia do assassinato de Nicole Brown e seu namorado. Quando a polícia vai à casa de O.J Simpson (Cuba Gooding Jr.) notificá-lo da morte da esposa, encontram um rastro de sangue na casa e o fato dele não perguntar como ela morreu ao ser notificado de sua morte faz ele ser visto como suspeito. Todas as provas apontam para O.J, que é preso. A promotora Marcia Clark (Sarah Paulson) é destacada para o caso, dada sua experiência em lidar com julgamentos envolvendo violência doméstica. O promotor Chris Darden (Sterling K. Brown) também é chamado ao caso, em parte por sua experiência em investigar a conduta da polícia de Los Angeles, em parte porque a promotoria queria um rosto negro na acusação caso a defesa de O.J explorasse a questão racial. O.J, por sua vez, forma o chamado "time dos sonhos" em sua defesa. O advogado de celebridades Howard Shapiro (John Travolta), com várias conexões políticas, o experiente F. Lee Bailey (Nathan Lane), que atuou em alguns dos casos criminais mais famosos do país, Robert Kardashian (David Schwimmer, o eterno Ross de Friends), amigo pessoal de O.J há décadas e se junta ao time por lealdade ao amigo. Completando o time vem o advogado de direitos civis Johnnie Cochran (Courtney B. Vance), que se junta para mostrar que acusação contra O.J é apenas mais uma reprodução da ação preconceituosa da polícia de Los Angeles.

A trama é inteligente ao não tentar eleger heróis e vilões na situação (exceto talvez por O.J, já que sugere sutilmente sua culpa) mostrando que cada um tem um claro interesse em estar ali e um objetivo com aquele julgamento. Cochran tem razão em sua revolta contra o preconceito racial e dívida histórica que a cidade tem com a população negra, Clark tem razão em reclamar da impunidade em casos de violência doméstica e feminicídio, Darden tenta evitar que a discussão racial tire o foco do julgamento por achar que O.J, que sempre viveu em meio à riqueza e privilégio, não é um símbolo da comunidade negra. Bailey quer retornar aos holofotes, Shapiro tenta fechar um acordo com a promotoria porque crê que o cliente é culpado e acha um grande risco levar o julgamento até o fim, enquanto que Robert apenas quer convencer a si mesmo que seu melhor amigo não é um assassino.

O elenco funciona muito bem em conjunto, conseguindo trazer os vícios e virtudes de seus personagens. Courtney B. Vance capta com precisão os maneirismos performáticos de Cochran, algo que facilmente poderia descambar para a caricatura, mas que ele constrói com bastante veracidade. Cuba Gooding Jr vai aos poucos plantando indicativos sutis de que O.J não é um cara tão legal e inocente quanto ele parece ser, sempre revelando uma breve e sutil variação no semblante sempre que é contrariado e constantemente querendo dizer aos seus interlocutores o que imagina que eles querem ouvir. David Schwimmer surpreende como Kardashian, trazendo uma vulnerabilidade tocante ao seu personagem, que aos poucos vai se dando conta de que o amigo pode ser culpado e a constatação o vai devorando por dentro, principalmente por saber que abandonar a defesa naquele momento significaria admitir a culpa dele.

A trama é eficiente em mostrar como a mídia transforma o que devia ser um julgamento sério em uma grande novela, sempre em busca de uma nova reviravolta ou detalhe sórdido, mais preocupada em criar entretenimento do que um debate consistente. As cenas de Robert Kardashian com as filhas (que se tornariam estrelas de reality show anos depois) mostram como a fama pode ser vista como um fim em si mesmo e como as pessoas se deslumbram com a exposição midiática. Do mesmo modo, revela como o histórico abuso de autoridade da polícia de Los Angeles tornou fácil que Cochran cooptasse o movimento negro para sua causa, contribuindo para descredibilizar o caso da promotoria. Há até mesmo um episódio todo focado nos jurados, abordando o quão difícil e cansativo foram os mais de duzentos dias de isolamento, contribuindo para que ninguém tivesse paciência para deliberar o caso ao fim e chegando rapidamente a um veredito só para finalmente irem embora.

As cenas de tribunal são cheias de tensão, mesmo para quem já conhece (como eu) a maioria dos desdobramentos. A câmera se movimenta rapidamente entre cada um dos falantes, quase como se cada frase posse um golpe feroz desferido contra o lado adversário. O uso da música, em especial de canções não originais, muitas vezes serve como um comentário bem humorado do que acontece em cena. Um exemplo é a presença da canção Another One Bites the Dust (que em português significaria algo como "mais um beija a lona") na sequência de montagem que mostra as manobras de Clark e Cochran para derrubar os jurados que não lhes interessa. Em outro momento, quando os jurados resolvem se manifestar contra o tratamento recebido pelos oficiais do tribunal ouvimos a canção de protesto Fight the Power.

O desfecho consegue fechar os arcos de praticamente todos os personagens principais, deixando claro o que aquela experiência significou para cada um deles e como aquilo impactou o resto de suas vidas para o bem ou para mal. O julgamento de O.J foi mais do que o julgamento de apenas um indivíduo, ele acabou virando uma discussão muito maior sobre uma série de outras variáveis daquele país e o showrunner Ryan Murphy entendeu muito bem a complexa dinâmica e implicações dos eventos que ocorrem naquele tribunal ao longo de tantos meses.


Nota: 10/10

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