segunda-feira, 18 de junho de 2018

Crítica – Hereditário


Análise Crítica – Hereditário


Review – Hereditário
À distância Hereditário parece mais um filme de terror sobre casas mal assombradas e possessões demoníacas, mas sob a sua premissa bastante tradicional há uma trama sobre nossa indelével conexão com nossas famílias e como somos inevitavelmente confrontados com as consequências das escolhas feitas por nossos pais e avós.

A trama começa quando a mãe da artista plástica Annie (Toni Colette) morre e deixa toda a família em estado de luto. As principais afetadas pela perda são Annie, que tinha uma relação cheia de animosidade e ressentimento pela falecida mãe, o que significa que agora todos esses problemas da relação jamais serão resolvidos, e Charlie (Milly Shapiro), a estranha filha caçula de Annie. Praticamente criada pela avó, Charlie é a mais deprimida com a sua morte, começando a exibir um estranho comportamento.

Como qualquer outro filme de terror, não demora a acontecerem coisas estranhas e sinistras na casa de Annie, mas tal como exemplares recentes do gênero, a exemplo de A Bruxa (2016) ou Raw (2016) Hereditário joga com nossa percepção do que está acontecendo, nos deixando em dúvida se de fato estamos diante de casos de assombração e possessão ou se aqueles personagens estão surtando, já que a trama nos dá razões suficientes para duvidar da sanidade deles. O medo aqui emerge do não saber, do confronto com o desconhecido.

O filme consegue criar imagens sinistras a partir das miniaturas esculpidas por Annie, muitas vezes filmando-as em proximidade de modo a criar incerteza se estamos diante de um cenário “real” dentro daquele universo ou se o que vemos é apenas uma miniatura. Outro modo com o qual o filme tenta nos desorientar em relação à realidade naquele universo é no seu uso de jump cuts (cortes súbitos e abruptos) para retratar a passagem entre dia e noite ou outras elipses temporais, criando uma incerteza em relação à passagem do tempo.

O modo como a fotografia explora os contrastes entre luz e sombras para criar uma atmosfera tenebrosa, principalmente pelo uso de cores fortes, como o intenso vermelho que emerge do aquecedor da casa da árvore, quase como se o local fosse o portal para o inferno. A fotografia também se vale de reflexos e refrações de luz que constantemente vagueiam pelos cenários e cujas fontes nunca são mostradas, deixando dúvida se estamos diante de algo banal ou se são algum tipo de manifestação espiritual ou sobrenatural.

Além desses recursos mais sutis para criar uma atmosfera de temor e tensão, a trama ocasionalmente recorre a imagens mais explícitas, como a cabeça decepada e decomposta que vemos em determinado momento e que permanece assombrando minha memória mesmo dias depois de ter visto o filme. O diretor Ari Aster consegue criar uma tensão intensa até mesmo durante incidentes que claramente não possuem nada de sobrenatural, como a cena em que Charlie tem uma crise alérgica depois de comer nozes e Peter (Alex Wolff), o irmão mais velho dela, dirige apressado para levá-la ao hospital. Mantendo a câmera em Charlie durante boa parte da cena, o filme não nos poupa da agonia sufocante da menina.

Parte dos méritos do filme repousam também em seu elenco. A garota Milly Shapiro torna a postura retraída e silenciosa de Charlie em algo sinistro, principalmente por seu hábito de confeccionar estranhos brinquedos ou recolher animais mortos. O hábito da menina em constantemente fazer um som de estalo com a língua é usado muitas vezes como fonte de sustos, com o filme usando sons similares para sugerir a presença dela em ambientes nos quais ela não deveria estar. Ann Dowd traz um magnetismo arrepiante como a conselheira de luto de Annie (e você sabe que é um filme de terror quando a conselheira de luto é a Tia Lydia de The Handmaid’s Tale), cuja conduta excessivamente gentil parece esconder toda sorte de intenções sombrias.

Toni Colette, por sua vez, é bastante eficiente em convencer da crescente instabilidade da personagem diante dos eventos estranhos que começam a acontecer. De início ela parece entorpecida pela dor, depois devastada quando uma tragédia ainda maior se abate sobre ela e aos poucos essa dor vai dando vazão ao desespero e à raiva, fazendo emergir traumas e rancores antigos entre ela e o restante de sua família. A atriz protagoniza um dos momentos mais assustadores do filme quando Annie aparentemente “incorpora” uma criança durante uma sessão espírita, mas o texto da à cena ambiguidade suficiente para criar dúvida se Annie estava de fato possuída ou se era mais um de seus episódios de sonambulismo. Na verdade, todo o clímax pode ser entendido tanto de maneira literal quanto metafórica, simbolizando o surto irreversível de alguns personagens.

Hereditário acaba sendo extremamente hábil em criar uma atmosfera de constante tensão e incerteza conforme usa estruturas típicas do terror para nos fazer no tenebroso lembrete sobre como a convivência familiar molda quem somos de uma maneira irrefreável. É daqueles filmes que continuam a nos assombrar mesmo dias depois das luzes da sala de cinema terem se acendido.

Nota: 9/10


Trailer

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