quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Crítica - Raw

Análise Raw


Review Raw
Quando um filme mexe muito conosco chega a ser difícil encontrar palavras para ponderar sobre a experiência. Isso definitivamente aconteceu comigo ao terminar de assistir este Raw (ou Grave no original), terror francês sobre canibalismo e amadurecimento.

Justine (Garance Millier), uma jovem vegetariana, entra para uma importante faculdade de veterinária e durante o trote ela é obrigada a comer carne crua de animal. Nos dias que seguem ela começa a se sentir mal, com erupções em sua pele e uma fome insaciável por carne. Com o tempo a carne animal passa a não satisfazê-la e ela resolve experimentar carne humana quando sua irmã, Alexia (Ella Rumpf), acidentalmente corta fora parte do dedo.

A primeira fonte de incerteza reside no que está acontecendo com Justine. Será que havia alguma coisa na carne? Será que ela está se transformando em algum tipo de criatura? É possível que ela apenas esteja surtando em virtude do estresse dos estudos e das constantes provocações dos estudantes veteranos? A narrativa deixa lacunas suficientes para que nossas conclusões nunca fiquem sob um terreno sólido, o que aumenta a incerteza, a tensão e o suspense.

O filme oferece muitas imagens grotescas, como a angustiante cena em que Justine "vomita" cabelos, puxando fios intermináveis de sua boca e garganta em uma longa cena que certamente pode causar náusea em quem tem estômago fraco. Do mesmo modo, as cenas dela se debatendo na cama com placas e erupções na pele remetem ao body horror (ou horror corporal) dos filmes de David Cronenberg.  Isso, claro, sem mencionar os momentos de canibalismo. A cena em que Justine devora o dedo decepado da irmã e aterrorizante não só pela crueza gráfica pela qual tudo é retratado, mas pelo semblante de satisfação e prazer, sem qualquer resquício de dúvida ou culpa por parte de Justine. É como se naquele momento ela tivesse se encontrado, descoberto quem é e o prospecto disso, claro, nos deixa na ponta da cadeira.

O canibalismo, no entanto, não está presente apenas como uma oportunidade de chocar o público com cenas grotescas de violência gráfica, serve também como uma metáfora da natureza humana que se presta a diferentes leituras. É possível compreender o a transformação da personagem como uma análogo para o processo de amadurecimento emocional e físico, como esses impulsos são como a descoberta de sentimentos e emoções complicadas (como o amor ou o desejo sexual) que Justine até então não tinha vivenciado. O impulso transgressor da juventude também é metaforizado pelo comportamento canibal da protagonista, como se o ato fosse uma maneira de mostrar seu não conformismo com os padrões que lhe são impostos e rechaçar a personalidade controladora de sua irmã e a superproteção de seus pais.

Podem ser um comentário sobre a selvageria inata no ser humano e como há em nós essa potência primitiva e selvagem que a todo momento tenta escapar para nossa superfície. Ainda há a dimensão do laço familiar e o modo como a descoberta do canibalismo se equivale ao medo de um jovem em se tornar um adulto igual à família da qual ela tanto tentou se diferenciar.

A fotografia constantemente coloca tons neons de vermelho na sua iluminação. Um lembrete visual da fome da protagonista que paira sobre os ambientes como uma nuvem de ameaça cujo significado os personagens estão alheios. A estratégia aumenta tensão para o público, que sabe de um perigo do qual as pessoas que estão em cena não fazem ideia e a música ajuda a ampliar o clima de desconforto e apreensão.

Complexo, impactante e instigante, Raw é um dos melhores filmes de terror dos últimos anos. Uma excelente estreia para a diretora e roteirista Julia Ducurnau que me deixa curioso por seus próximos projetos.


Nota: 9/10

Trailer

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