quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Crítica - Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi

Resenha Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi


Análise Mudbound: Lágrimas Sobre o MississipiSe nós somos, de alguma maneira, o produto do ambiente em que vivemos, que tipo de pessoa seriam aqueles que viviam no enlameado delta do Rio Mississipi nos Estados Unidos dos anos 40? Como a vida em um ambiente tão hostil e tão difícil de cultivar agiria sob a psique daquelas pessoas ou ressaltaria tensões sociais e raciais? Este Mudbound: Lágrimas Sobre Mississipi tenta responder justamente essas perguntas.

A trama começa quando Henry (Jason Clarke) compra uma fazenda no Mississipi. Chegando lá, ele e sua família descobrem que a casa em que deveriam morar tinha sido vendida a outra pessoa e acabam indo morar em uma casa improvisada na própria fazenda, muito a contragosto de sua esposa, Laura (Carey Mulligan). Henry contrata Hap (Rob Morgan) para trabalhar em sua fazenda. Tanto Hap quanto Henry tem familiares que estão combatendo na Segunda Guerra Mundial: Jamie (Garrett Hedlund), irmão de Henry, e Ronsel (Jason Mitchell), filho de Hap. O retorno dos dois traz ainda mais tensão às relações entre brancos e negros na cidade.


A fotografia preza pelo uso de diferentes tons de marrom para transmitir a natureza monótona, constantemente suja e lamacenta daquele local. O uso predominante de iluminação natural ressalta as condições precárias, isolamento e escuridão (especialmente à noite) do ambiente. Tudo ajuda a construir a sensação de que ali não é um lugar agradável de viver, tentando imputar no público o mesmo desconforto experimentado pelos personagens.

O retorno de Jamie e Ronsel e a oposição com a qual eles são tratados ao voltarem para casa evidenciam a natureza racista daquela sociedade. Apesar de ambos terem desempenhado papéis importantes na guerra, apenas Jamie é realmente tratado como herói, enquanto que Ronsel é tratado pelos brancos com manifestações de racismo e intolerância. Se a família de Ronsel já estava resignada a esse tipo de tratamento, já que enfrentar os brancos normalmente significava morrer, o próprio Ronsel não está mais disposto a fazer concessões aos brancos e isso o coloca na mira do Ku Klux Klan.

A relação de trabalho entre Henry e Hap evidencia os resquícios de escravidão ainda presentes naquela sociedade, com Henry tratando Hap como alguém com um obrigação natural em servi-lo meramente pela cor de sua pele. A natureza opressiva e exploradora dessa dinâmica fica ainda mais evidente quando Hap quebra a perna e Henry não faz absolutamente nada para ajudar.

O filme constantemente recorre a narrações em off dos vários personagens para penetrar em suas mentes e explicitar seus conflitos. O principal problema é que a maioria dessas narrações tem cunho predominantemente expositivo, explicando como eles se sentem ao invés de permitir que eles demonstrem esses sentimentos e o público os perceba por conta própria. Com muito da narrativa e dos conflitos é delineado nessas longas explicações fica difícil se conectar com o sofrimento daquelas pessoas, já que seus dilemas e anseios são ditos ao invés de vivenciados. É uma pena, pois o elenco, em especial Rob Morgan e Mary J. Blige (que interpreta a esposa de Hap), são bastante eficientes em abordar a frustração, resignação e as moderadas tentativas de nutrir esperança por melhora de seus personagens, podendo ter rendido algo muito melhor se o filme não os limitasse a apenas explicar o que seus personagens pensam.

A primeira metade da trama também sofre com problemas de ritmo conforme a narrativa intercala entre o que acontece no Mississipi e as experiências de Jamie e Ronsel na guerra. Como todo o conteúdo das cenas de guerra é posteriormente explorado em flashbacks mais breves quando Jamie e Ronsel conversam sobre o que viveram no front de batalha, as longas cenas deles no início soam redundantes e deixam o desenvolvimento da trama relativamente truncado.

Esses problemas, no entanto, não tiram o impacto do desfecho. Ele funciona tanto pelo modo explícito com o qual aborda a crueldade da Ku Klux Klan, quanto por sua recusa em encerrar a história de maneira pessimista. Assim, ao invés de lamentar o destino dos personagens, celebra a resiliência deles, especialmente Ronsel, em fazer do amor o motor de suas vidas. Apesar do excesso de exposição, Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi funciona pelo modo como retrata a dureza da vida naquele lugar, reflexões sobre racismo e luta de classe que ecoam até os dias de hoje e por não abrir mão da esperança.

Nota: 7/10  

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