quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Crítica - Motorrad


Análise Crítica - Motorrad


Review Motorrad
Os vinte primeiros minutos deste Motorrad me deixaram bastante empolgado pelo que poderia vir a seguir. Com pouquíssimos diálogos, o filme construía uma atmosfera intrigante e desoladora conforme o protagonista Hugo (Guilherme Prates) viaja com sua moto por paisagens desoladas e estradas vazias. Parece um cenário apocalíptico e até então a trama não faz questão de explicar nada, usando essa incerteza e desconhecimento como fonte de tensão. Imaginei que o restante do filme seguiria esse tom, de um terror mais atmosférico e voltado para o medo do que não sabemos, algo similar ao recente Ao Cair da Noite (2017). O que acontece à partir de então, no entanto, cai em uma lamentável coleção de clichês do terror.

Hugo deseja fazer parte do clube de motocross do irmão, Ricardo (Emílio Dantas), e parte com ele e um grupo de amigos para uma cachoeira remota. No caminho, eles encontram um estranho muro de pedra e decidem derrubá-lo para continuar a viagem. Ao chegarem na cachoeira, os protagonistas são confrontados por um misterioso grupo de motoqueiros vestidos de preto que começam a matar os amigos  de Hugo e Ricardo um a um.

Assim, o que começava como algo atmosférico, entra completamente no domínio do terror slasher tal como os filmes das franquias Sexta-Feira 13, Pânico ou Halloween no qual um grupo de jovens é caçado por um assassino silencioso (ou grupo de assassino). Por sinal, a premissa do filme, um grupo de jovens caçado por um bando de maníacos em uma paisagem inóspita, é incrivelmente similar ao de Quadrilha de Sádicos (1976) e seu remake Viagem Maldita (2007). Isso por si só não seria um problema se o filme trabalhasse com algo tipo de subversão a esse formato que já se tornou extremamente familiar, mas não é o caso. O que acontece aqui é basicamente uma reprodução de lugares-comuns desse tipo de história, com direito a múltiplas tomadas nas quais os assassinos silenciosamente observam suas vítimas correrem em pânico ou a imagem da mocinha gritando de medo conforme o assassino destrói uma frágil porta de madeira com a faca.

Os personagens são aquela coleção de tipos unidimensionais que já estamos cansados de ver nesse tipo de filme, como o covarde, o desonesto, o casal que fica se agarrando o tempo todo, o mocinho ingênuo. Qualquer um que tenha o mínimo de familiaridade com esses filmes sabe de cara quem vai morrer, já que os assassinos seguem a típica moral do gênero de que a morte é uma espécie de punição pelas "falhas de caráter" dos personagens.

Nesse sentido, acaba nem importando que o filme nem explique direito quem são esses motoqueiros (há apenas uma leve sugestão), porque eles não estão ali para serem personagens plenamente realizados, eles são monstros, forças da natureza que existem para punir aqueles jovens por suas transgressões. Considerando que o próprio cinema hollywoodiano já brincou com o quão datadas são essas convenções em filmes como a franquia Pânico ou O Segredo da Cabana (2012), soa incomodamente datado que um longa feito hoje simplesmente reproduza tão acriticamente essas estruturas manjadas.

Ocasionalmente a narrativa tenta sugerir elementos de sobrenatural, como a marca na mão de Hugo, o momento em que ele observa um poço ou as falhas nos celulares dos personagens, mas tudo isso é abordado de forma muito vaga e pontual ao longo da trama para servir com eficiência como fonte de tensão. Há também a questão de certa repetição de elementos, como a moto não querer ligar, até que ela liga no último minuto. Feito uma vez, o recurso funciona como fonte de tensão, mas quando o filme começa a fazer isso repetidas vezes ao longo de seus 90 minutos, o dispositivo começa a ficar cansativo. Principalmente quando os personagens conseguem ligar até mesmo uma moto que acabara de ser retirada do fundo de um lago.

Não ajuda que boa parte das perseguições e cenas de ação sejam filmadas em closes extremos e usem uma montagem cheia de cortes rápidos. A escolha provavelmente visava dar dinamismo a esses momentos, mas com a câmera tão próxima e a montagem tão incessante, é difícil diferenciar os personagens entre si ou mesmo ter alguma clareza do posicionamento espacial deles. Em uma tomada vemos os protagonistas distantes de seus perseguidores, mas basta um corte rápido para que um segundo depois os motoqueiros de preto já estejam ao lado deles, fazendo toda a ação parecer mais fragmentada do que deveria.

A despeito do início promissor e do modo como Motorrad constrói seu universo hostil e desolado, sua excessiva e acrítica aderência aos clichês do gênero faz tudo parecer datado.

Nota: 4/10


Trailer

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