terça-feira, 20 de junho de 2017

Crítica - Ao Cair da Noite

Análise Ao Cair da Noite


Review Ao Cair da NoiteUma família vivendo em uma casa na floresta leva o avô doente, com o corpo marcado por lesões e escaras, para fora de casa. Exceto pelo doente, todos usam máscaras e luvas de proteção, provavelmente é algo contagioso. Eles arrastam o corpo do doente, cobrem seu rosto com um travesseiro e dão um tiro em seu rosto, jogando-o em uma vala logo em seguida e ateando fogo em seu corpo. Praticamente não há diálogos nessa cena, mas nesses primeiros minutos Ao Cair da Noite já deixa claro ao espectador o cotidiano duro de seus personagens e quanto eles se desumanizam para sobreviver.

A família composta por Paul (Joel Edgerton), sua esposa Sarah (Carmen Ejogo) e seu filho adolescente Travis (Kevin Harrison Jr). O cotidiano da família é interrompido mais uma vez quando um homem, Will (Christopher Abbott) tenta invadir a casa deles. Ao descobrir que ele apenas buscava mantimentos para sua família, Paul decide convidá-los para morar em sua casa. Se de início a convivência parece pacífica, aos poucos a paranoia em relação à misteriosa epidemia deixa os nervos de todos a flor da pele.

É impressionante como o diretor Trey Edward Shults consegue fazer tanto com tão poucos elementos. O filme se passa todo na casa e na mata ao redor e tem apenas cinco personagens, mas há um constante clima de suspense e temor exatamente por não sabermos quem ou quê devemos exatamente temer. É aparentemente inquestionável que há algum tipo de epidemia à solta, mas porque exatamente os personagens temem tanto sair de casa à noite? O que essa doença faz com as pessoas? Mais que isso, conforme a trama avança e as tensões entre os moradores da casa começam a ampliar, ficamos nos perguntando se a ameaça está mesmo lá fora ou dentro da casa.

O roteiro e a montagem enchem os personagens de ambiguidades que nos fazem duvidar das intenções e sanidade de cada um deles. Os pesadelos de  Travis nos fazem indagar se ele não está enlouquecendo ou infectado, o momento em que Will contradiz algo que tinha dito inicialmente nos faz desconfiar dele e as ações cada vez mais brutas e desapegadas de humanidade de Paul levantam a questão se ele é mesmo apto a liderar aquele grupo. Todas essas dúvidas e tensões vão crescendo aos poucos e é igualmente recompensador e angustiante quando tudo estoura sobre os personagens, lembrando um pouco a cuidadosa e eficiente construção atmosférica do excelente A Bruxa (2016).

Joel Edgerton, que já tinha se saído muito bem no suspense O Presente (2015), entrega aqui uma de suas melhores performances como um homem que tenta ocultar seu medo e desespero com uma fachada rígida e pragmática. Apesar da dureza de suas escolhas e ações, Edgerton nos dá indícios sutis que ele tem plena consciência dos impactos morais e humanos de suas escolhas, lamentando o extremos aos quais precisa chegar, mas fazendo mesmo assim. A fotografia investe nas sombras e nos contrastes entre claro e escuro, criando ambientes tomados por sombras, nos quais as lanternas dos personagens são a única fonte de luz, nos fazendo temer pelo que pode se esconder em cada canto escuro, em especial pelo constante uso de ruídos da floresta.

Ao Cair da Noite faz um bom uso de sua trama e ambientação econômicas, lembrando que o medo e a tensão residem muitas vezes naquilo que não vemos ou não sabemos.


Nota: 8/10

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