terça-feira, 15 de novembro de 2016

Crítica - Um Estado de Liberdade



Muitas histórias já foram contadas sobre a Guerra Civil americana e os conflitos causados pela tentativa do sul do país em se separar do resto da União. Nesse sentido Um Estado de Liberdade conseguia se destacar ao resgatar uma história pouco conhecida de dissidência dentro do movimento de secessão que mostrava como mesmo no racista sul haviam pessoas progressistas. A questão é que mesmo com suas boas intenções, o filme tem muitos problemas que o impedem de ter o impacto que deveria.
                                 
A trama segue a história real de Newt Knight (Matthew McConaughey) um soldado do sul que resolve desertar depois de presenciar inúmeras mortes e se dar conta de que estão lutando apenas para que os ricos fazendeiros donos de escravos possam manter seus privilégios. Voltando à sua cidade natal, Newt percebe como a população é constantemente oprimida e saqueada pelos militares, que cobram abusivos "impostos de guerra". Cansado da exploração, ele decide resistir aos militares e acaba criando uma comunidade dentro dos pântanos composta por outros cidadãos descontentes e escravos fugidos.

Um dos principais problemas do filme é o ritmo. A trama demora a engrenar e se perde em vários segmentos episódicos de Newt ajudando pequenos camponeses. Só com quase uma hora de projeção é que finalmente se desenha o conflito principal que é a formação de sua "comunidade alternativa". A partir daí imaginei que a narrativa finalmente tomaria corpo, mas estava enganado, ela se torna ainda mais fragmentada e episódica. A cada uma ou duas cenas há um salto de anos (o filme inteiro se passa ao longo de uns quinze anos) sem que haja a devida contextualização para situar o espectador no que aconteceu nesse tempo.

Em uma cena, Newt discursa para seus seguidores, esclarecendo que apesar de estarem se insurgindo contra o sul, isso não significa que eles apoiem a União. Uma cena depois o filme faz um salto temporal que mostra Newt e seu bando já fortemente armados, inclusive com canhões (onde eles conseguiram não é dito) tomando uma cidade e hasteando justamente a bandeira da União. Certamente houve uma mudança de posição por parte do movimento, mas como o filme não se dá ao trabalho de explorar isso, soa como uma alteração gratuita. Outros saltos temporais vão sendo feitos ao longo do filme e sempre sem o contexto necessário para compreender o que se passou e assim perdemos a noção da dimensão do movimento liderado por Newt. Parece que o diretor e roteirista Gary Ross queria apenas reconstituir alguns momentos chave da insurgência e não tentar compreender realmente o que foi o movimento e como ele funcionava. Parece mais uma série que foi condensada para o formato de filme do que algo verdadeiramente pensado para o cinema.

Inclusive muitas coisas parecem simplificadas para fazer a trama seguir tão rápido. Uma delas é a complexidade das relações dentro de um movimento multiétnico em um lugar que ainda era essencialmente racista. Por mais que as pessoas ali tivessem o interesse comum em resistir à opressão dos Confederados, o sul dos Estados Unidos era naquele período predominantemente racista. Ainda assim o filme mostra negros e brancos convivendo de forma plenamente pacífica sendo que certamente devem ter havido conflitos causados por brancos que se recusavam a ver negros como iguais ou acatar ordens destes.

O desfecho parece simplesmente encerrar de modo gratuito a jornada de Newt, sem muita justificativa do porque o filme acaba naquele momento, podendo ter sido encerrado em qualquer outro. Ao invés de um desfecho bem amarrado, o filme salta para os anos de 1950 para mostrar o julgamento de um neto de Newt. À parte de ser um descendente do protagonista, a história dele não tem praticamente nenhuma relação com a insurgência do avô e poderia ser contada sem que a conhecêssemos, assim como a história de Newt poderia ser encerrada sem precisar nos dizer o que houve com seus descentes. Esse epílogo parece servir apenas para dizer que o sul dos EUA continuava racista apesar da luta de Newt, mas isso poderia ser dito sem esse salto temporal e com um final melhor amarrado para o protagonista.

Matthew McConaughey é competente em conceber Newt como alguém tão cansado e desesperado diante da opressão que vivencia que decide chutar o balde e enfrentar todos. O carisma e intensidade do ator ajuda a ter simpatia por um personagem que, tal como concebido pelo texto, é bastante raso. Ao longo dos cerca de quinze anos, não há nenhuma mudança ou aprendizado experimentado pelo personagem. Ele já começa como um líder extremamente hábil que sabe enfrentar os soldados do sul, sabe como plantar no pântano, sabe como cuidar perfeitamente de sua comunidade, enfim desde o início ele já é um líder nato e perfeito que sabe todo o necessário para o sucesso de sua empreitada. Mesmo quando algo dá errado, isso acontece à despeito de suas ações e não por causa delas. O único personagem minimamente interessante é o ex-escravo Moses (Mahershala Ali, de Luke Cage e House of Cards), mas o filme passa tão pouco tempo com ele que não dá para desenvolvê-lo de modo satisfatório. A ótima Gugu Mbatha-Raw (do episódio San Junipero de Black Mirror) é desperdiçada em um papel que também acaba tendo pouco espaço para se desenvolver.

Se há um acerto no filme é a qualidade e atenção aos detalhes em sua reconstrução de época. Os sets e figurinos traduzem muito bem as condições precárias e sujas na qual os personagens viviam, com construções decadentes e roupas puídas, constantemente cheias de lama ao ponto em que só falta sentir o fedor dos pântanos sulistas. As cenas de batalha servem para demonstrar toda a violência da guerra, ajudando a compreender como alguém como Newt simplesmente se cansou de tanta brutalidade.  

Um Estado de Liberdade apresenta boas intenções ao trazer uma história pouco conhecida da Guerra de Secessão, mas desaba em uma trama sem foco, excessivamente fragmentada e personagens unidimensionais.


Nota: 4/10

Trailer:


2 comentários:

Karla López Ortega disse...

Para mim Matthew sempre faz um excelente trabalho. Este ator nos deixa outro projeto de qualidade, de todas as suas filmografias essa é a que eu mais gostei, acho que deve ser a grande variedade de talentos. Umo dos melhores Matthew McConaughey filmes que vale a pena assistir, a chave do sucesso é o bem que esta contada a historia e a trilha sonora, enfim, um dos meus preferidos.

Lucas Ravazzano disse...

O McConaughey está realmente bem e fez o que podia com o material limitado que tinha. O ator e a história real mereciam algo melhor.