segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Crítica - Sully: O Herói do Rio Hudson



Fazer um filme baseado em uma tragédia (ou prevenção desta, como é o caso aqui) real é sempre uma faca de dois gumes. Por um lado o interesse que esse tipo de história desperta é, em certa medida, uma garantia de público. Por outro, sempre há o risco de se descambar para um maniqueísmo simplório ou de se pesar a mão no ufanismo e no drama (como o recente Horizonte Profundo: Desastre no Golfo). Felizmente o veterano Clint Eastwood evita esses problemas neste Sully: O Herói do Rio Hudson.

O filme acompanha o piloto Chesley "Sully" Sullemberger (Tom Hanks), que se tornou famoso por conseguir aterrissar um avião cheio de passageiros no Rio Hudson em Nova Iorque e salvar todos à bordo. Depois dos eventos, as ações de Sully e seu copiloto, Jeff Skiles (Aaron Eckhart), são postas em questão pelo comitê governamental responsável por investigar o caso, levantando a possibilidade de que suas ações tenham posto todos diante de um risco desnecessário.

O roteiro é esperto ao começar com Sully em seu hotel, já depois do acidente. O pouso forçado é um evento extremamente climático e impactante para ser mostrado já de início, quando o público ainda está "frio" seria desperdiçar a cena. Do mesmo modo, começar o filme no antes para culminar na aterrissagem provavelmente renderia algo pouco interessante e arrastado. O foco é menos na reconstituição da catástrofe e mais no modo como Sully lida com isso tudo. Do sentimento de sufocamento com a constante atenção (ou seria assédio?) midiático, ilustrado pelos constantes closes em seu rosto, e de sua inadequação ao status de herói, passando por suas dúvidas e inseguranças em relação às suas ações dentro do avião.

Tom Hanks, sempre competente em sua persona de "sujeito comum", acerta ao fazer de Sully exatamente isso, um sujeito que apenas estava fazendo seu trabalho e diante de uma crise fez o que pensou ser o melhor possível. Como qualquer outra pessoa, Sully é cheio de dúvidas e inseguranças e a todo momento parece que ele carrega o peso do mundo sob seus ombros e ele pode ruir a qualquer momento. Seria fácil transformá-lo em um herói mítico e irreal, mas as escolhas de Hanks e Eastwood preferem construir alguém bem mais "pé no chão" e com isso mais fácil de nos identificarmos.

A trama evita maniqueísmos fáceis ao não transformar a comissão de investigação em um grupo de vilões exagerados (como fez Horizonte Profundo). Sim, eles claramente antagonizam Sully e são uma força de oposição à ele, mas são fundamentalmente pessoas tentando fazer o que acham certo e agindo com os dados que tem à mão e não sujeitos sem escrúpulos dispostos a qualquer coisa para prejudicar o personagem.

O que prejudica o filme é o excesso de redundâncias, principalmente na metade da projeção, quando tudo parece andar em círculos, repetindo as mesmas ideias sobre a insegurança de Sully, o espírito de cooperação novaiorquino e o comportamento predatório da imprensa, que parece alçar os sujeitos à categoria de herói apenas para puxar-lhes o tapete logo em seguida. As visões de Sully com o acidente e o que poderia dar errado acabam cansando pela repetição e soam como um recurso óbvio demais, já que Hanks é mais que eficiente em convocar o estado de tensão, insegurança e estresse pós-traumático do personagem. O próprio acidente é praticamente repetido duas vezes, uma no meio, que mostra o resgate e outra no fim quando Sully e Jeff ouvem as gravações do cockpit diante do comitê investigativo. Teria sido melhor guardar tudo para o final do que "gastar" uma cena tão eficiente no meio do filme, quando ela poderia ser mais impactante se vista justamente durante o depoimento final de Sully quando a carreira e o futuro dele estavam em jogo.

Mesmo com problemas de ritmo, Sully: O Herói do Rio Hudson funciona pela condução sóbria de Eastwood e pelo carisma de Tom Hanks, construindo uma trama envolvente sobre os dilemas de um homem que apenas tentou fazer o seu melhor.


Nota: 7/10

Trailer:

Um comentário:

Andrea Martínez disse...

Pessoalmente eu gostei do filme. Acho que este filme é um dos melhores do gênero de drama autobiográfico que estreou o ano passado. É impossível não se deixar levar pelo ritmo da historia de Sully o herói do rio hudson. O elenco do filme fez possível a empatia com os seus personagens em cada uma das situações. Tom Hanks é sempre bom! Sem dúvida a veria novamente.