terça-feira, 30 de agosto de 2016

Crítica - Aquarius

Análise Aquarius


Review Aquarius
Quando escrevi sobre O Som ao Redor (2013), trabalho anterior do pernambucano Kleber Mendonça Filho, falei sobre minha dificuldade em discorrer sobre o filme por não sentir que conseguiria dar conta da riqueza obra e fazer jus às suas qualidades. Pois a mesma sensação tomou conta de mim quando sentei ao computador para tentar falar sobre minha experiência com este Aquarius, que tem tanto a dizer sobre nossa sociedade, nossa relação com as cidades, com a história e com nossa memória coletiva e individual, que temo não ser capaz de dar conta do tanto que esse filme nos fala como indivíduos e como povo.

A trama segue Clara (Sônia Braga) uma jornalista aposentada cujo modesto prédio, que fica de frente para a praia de Boa Viagem, está sendo comprado por uma construtora para ser demolido e dar lugar a um grande condomínio de luxo. A questão é que Clara, que viveu ali quase que sua vida inteira, é a única que ainda não vendeu o seu apartamento para a construtora e o jovem engenheiro responsável pelo projeto, Diego (Humberto Carrão), começa a ficar impaciente com a insistência da senhora em não deixar o seu lar.

O mais interessante é o naturalismo com o qual tudo é construído. As problematizações não surgem de grandes discursos artificiais e cheios de demagogia, nem oferecem soluções fáceis subestimando a complexidade dos problemas apresentados, mas aparecem naturalmente no cotidiano da protagonista conforme ela tenta manter o seu cotidiano pacato apesar das constantes tentativas da construtora em deixá-la desconfortável. A fala dos personagens discorre de maneira extremamente natural, assim como os sotaques e usos de expressões típicas de Recife, tudo funciona para te convencer que aquelas pessoas estão habituadas a falar e viver daquela maneira a muito tempo. Falando em naturalidade, não poderia deixar de mencionar o competente raccord que faz a transição entre passado e presente no início do filme, fundindo os dois tempos de maneira impecável. O trabalho de som contribui para a impressão de que os personagens existem em uma cidade viva, que existe para além dos prédios e condomínios e está em constante movimento e atividade.

Começando com uma montagem de fotos antigas e em preto e branco de Recife, Mendonça já vai dando indícios de como o papel do registro, da memória e da influência dos processos históricos vão ser importantes para o desenrolar de sua trama. Uma estratégia similar ao que fizera em O Som ao Redor, mas que continua a fazer sentido aqui, já que ele explora o processo de transformação de nossas cidades em um aglomerado de condomínios fechados. Se em O Som ao Redor (com o qual este filme faria uma ótima sessão dupla) ele mostrava o que significava viver confinado nesses grandes condomínios, aqui ele tenta entender o processo e a retórica utilizada para se transformar a cidade de um espaço no qual se vive (e se ocupa) para um espaço no qual apenas se passa a caminho de casa ou se vê da varanda de seu prédio.

Em planos abertos ele mostra os prédios novos e altos da orla de Recife fazendo sombra na praia revelando uma inversão absurda de prioridades na qual tomar sol na praia, portanto um espaço público, torna-se secundário a tomar sol em sua varanda enquanto se observa a praia. O mesmo acontece no plano geral de uma comunidade humilde coberta pela sombra de um prédio de luxo, quase como se os mais abastados estivessem tomando até o sol dos mais pobres. Em dado momento a tela branca de proteção de um grande condomínio em construção ao lado do prédio de Clara se solta e passa voando pela janela da aposentada, quase como se esse tipo de construção fosse um fantasma assombrando a personagem.

O filme também trata de como a cidade não é apenas um conjunto de lugares ou prédios, mas um componente essencial da formação de nossas identidades (pessoais e coletivas). É um espaço de construção de vivências, de memórias, de socializações e aprendizados. Sob este aspecto, alterar a paisagem urbana não é apenas alterar um conjunto de construções, é alterar diretamente na vivência cultural de uma população e, portanto, não é algo a ser feito de maneira unilateral e leviana.  

A questão da importância dos objetos, fotografias e produtos culturais como parte da construção de uma memória coletiva e que estes dizem muito sobre o contexto no qual foram produzidos. Em uma cena Clara e seus familiares estão vendo álbuns de fotos antigos e tentam lembrar o nome de uma antiga empregada da família e rapidamente alguns planos-detalhe nos mostram as fotos e vemos como a empregada sempre aparece fora de foco ou com o rosto cortado, literalmente sendo negada a sua identidade e transformada em uma coisa, em mais um objeto da casa. A imagem parece remeter ao nosso passado escravagista, cujas marcas, como as fotos demonstram, ainda permanecem de certo modo na maneira como vemos as atividades de trabalho doméstico (algo que o cinema brasileiro já tinha tratado no ótimo Que Horas Ela Volta?). Clara comenta que a empregada roubou várias joias e sua irmã lhe diz que "sempre foi assim, nós os exploramos e eles roubam nossas coisas". Há uma certa medida de fatalismo e desencanto em sua voz, quase como se ela reconhecesse que esses desequilíbrios em relações sociais dificilmente serão extintos da nossa sociedade.

As relações desiguais entre diferentes camadas da sociedade também são vistas ao longo do filme, a exemplo de duas situações distintas vistas ao longo da trama. Em uma, vemos a humilde diarista que trabalha para Clara falar sobre seu filho ter sido atropelado e morto (ou melhor, assassinado) por um motorista bêbado e apesar dele ter sido pego, não houve qualquer punição. Por outro lado, vemos o salva-vidas da praia frequentada por Clara apontar a presença de membros de alta classe vendendo drogas na praia, pessoas "de boa família" e bem vestidas que não são punidas pelos crimes que cometem. Assim, o filme mostra como direitos básicos de cidadania são, na verdade, transformados em privilégios para pessoas mais financeiramente abastadas, que tem toda a proteção e acesso aos direitos de cidadão, enquanto o mesmo é negado aos que tem menos.

Claro que nenhuma dessas ponderações feitas pelo filme funcionaria sem o elenco coeso encabeçado por Sônia Braga. Braga é a alma e coração do filme como Clara, uma mulher que demonstra ter passado por muita coisa em sua vida (incluindo um câncer e a perda do marido) ao ponto de conseguir manter a serenidade e a placidez mesmo diante de muitos absurdos ao qual é submetida. É impressionante a força e a serenidade que ela demonstra na cena em que está se beijando do carro com um affair e ela percebe a clara perda de interesse dele ao se dar conta da ausência do seio que ela perdeu para um câncer (e o enquadramento da cena denota o literal e metafórico abismo que aparece entre eles). Mesmo quando repreende a filha ou discute com Diego em uma cena que se passa na garagem de seu prédio Clara não eleva seu tom de voz e rechaça provocações de maneira estoica, ainda que suas palavras demonstrem o quanto ela é firme em suas posições. A serenidade que ela mantém ao longo do filme ainda contribui para tornar extremamente recompensadora a cena que fecha o filme na qual ela resolve enfrentar a construtora e literalmente coloca o pau na mesa (no sentido de madeira seus maliciosos). Confesso que ao ver a ação de Clara naquele momento eu ergui os braços em comemoração.

A resiliência que ela demonstra, no entanto, não significa que as ações da construtora não a afetem, como fica clara na cena em que ela fica pensando se trancou ou não sua porta, imaginando alguém invadindo sua casa. Simultaneamente altiva e frágil, a Clara de Braga é uma personagem riquíssima e o trabalho cuidadoso e cheio de nuance da atriz faz dela desde já um dos trabalhos mais memoráveis de sua respeitável carreira.

A escalação de Humberto Carrão como o jovem engenheiro "de boa família", educado e aparentemente cheio de boas intenções é uma decisão extremamente inteligente por construir relações intertextuais com a própria trajetória do ator como "galã" de novelas globais nas quais interpretou "mocinhos" com características similares. Assim, o filme inicialmente nos faz crer, em certa medida ao vermos os personagens se referindo a ele com os adjetivos citados acima e a aderir em sua postura inicialmente gentil, polida e educada. É importante que o filme leve seu público a comprar essa imagem do personagem, pois isso torna a sua desconstrução ainda mais impactante. Na já citada cena da discussão na garagem, Diego desfaz sua fachada de "bom moço" e mostra como é um sujeito mesquinho, que pensa no mundo como um tabuleiro no qual pode dispor as peças como bem entende. Um homem que não tem qualquer reserva em atormentar uma idosa simplesmente porque ela quer continuar morando em sua própria casa e isso interfere em seus planos. Inclusive o personagem é enquadrado em um ângulo baixo durante a discussão, denotando seu senso de superioridade e fazendo-o ver Clara "de cima".

Assim como muitos gestores públicos deste país, ele é alguém "de posses" e formação "no estrangeiro", mas que pensa a cidade como quem joga SimCity e não como um espaço a ser habitado, ocupado e utilizado por seres humanos (lembrando ainda que Diego, como muitos políticos, chega a sua posição por puro nepotismo). É admirável a coragem de Carrão a interpretar um personagem que é praticamente um enorme dedo médio em riste para os mocinhos que fez na televisão como se puxasse o espectador pelo braço e dissesse: "lembra daqueles mocinhos de novela? É assim que eles são na realidade". Sem mencionar a sutileza na construção de sua canalhice e desfaçatez, tornando crível um personqgem que facilmente poderia descambar em uma caricatura.

Os sempre competentes Irandhir Santos e Maeve Jinkings entregam performances cheias de naturalidade como, respectivamente, um salva-vidas amigo de Clara e a filha dela. Jinkings aparece relativamente pouco, mas cada uma de suas cenas é verdadeiramente marcante ao construir uma relação entre Clara e a filha que tem sua parcela de mágoas e desentendimentos, mas ainda assim se mantém graças a um afeto poderoso e verdadeiro por parte de ambas.

Aquarius se revela, portanto, como um cuidadoso, inteligente e impactante estudo sobre o processo de formação das nossas cidades e sociedade, lembrando a importância da memória e da história para compreender como chegamos nessa situação. Com uma direção segura e elenco afiado, é um filme rico de significado e complexidade.


Nota: 10/10

Obs: Não há absolutamente nenhum motivo para a alta classificação indicativa de 18 anos que o filme recebeu. Sim, existem cenas de sexo e nudez frontal masculina e feminina, mas filmes nacionais recentes como Boi Neon (2016) ou Tatuagem (2013) tinham quantidades até superiores desse tipo de imagem e receberam uma classificação de 16 anos. [Atualizado 01/09/2016] O ministério da justiça voltou atrás na decisão e abaixou a classificação para 16 anos, de acordo com matéria de Folha [Fim da atualização]


Trailer:

2 comentários:

Sidnei Cassal disse...

Excelente crítica. Abordou todos os aspectos do filme. Parabéns!

Lucas Ravazzano disse...

Muito obrigado Sidnei, falar de um filme tão rico como esse de uma maneira que o fizesse justiça não foi fácil pra mim.