domingo, 10 de julho de 2016

Crítica - As Montanhas se Separam



Montanhas são um símbolo de resistência e resiliência diante da passagem do tempo. Muitas se formaram bem antes dos primeiros seres vivos saírem dos oceanos, existem até hoje e provavelmente continuarão a existir mesmo quando a humanidade não habitar mais este planeta. Assim, quando o cineasta chinês Jia Zhang-ke intitula seu novo filme como As Montanhas se Separam, há uma clara intenção de falar sobre a passagem do tempo e o desgaste que ele inevitavelmente promove nas relações humanas, levando ao afastamento entre pessoas que outrora pareciam tão próximas.

A trama acompanha Tao (Tao Zhao), uma jovem cujo afeto é disputado pelos dois amigos, Jinsheng (Yi Zhang) e Liangzi (Jing Dong Liang). A partir disso, vamos vendo como essas pessoas e aquelas ao redor vão, ao longo de cerca de trinta anos, se afastando ou se reencontrando.

Como de costume em seus trabalhos, Zhang-ke filma com longos planos e poucos cortes e sua câmera está quase sempre focada em Tao (a quem acompanhamos durante a maioria do filme), registrando suas reações e contemplações com o mundo à sua volta. A atriz Tao Zhao é o centro emocional do filme, como uma mulher que parece encontrar felicidade e serenidade na solidão. Estando quase sempre no foco das cenas, Zhao traz bastante nuance e delicadeza para a sua personagem em seus três períodos, primeiro como uma jovem sagaz e cheia de energia, depois como uma mãe cheia de ansiedade e conflito pela relação complicada com o filho distante e depois como alguém em paz consigo mesma no belíssimo desfecho.

Não é apenas um filme sobre como o tempo acaba nos afastando de algumas pessoas, mas também traz certas inquietações sobre o que significa manter as raízes e tradições em um mundo cada vez globalizado e mais plural, algo que o diretor já tinha tratado em O Mundo (2004). Isso fica evidente na relação entre Jinsheng e o filho no futuro, no qual a diferença de idioma, bem como a recusa deles em falar a língua do outro por causa de suas formações culturais, acaba distanciando-os cada vez mais. Do mesmo modo, percebemos a felicidade de Tao ao ver que o filho gostou de sua comida tradicional apesar de sua conduta cada vez mais estrangeira.

A própria evolução da paisagem das cidades chinesas parece revelar essa constante tensão entre tradição e "modernidade". Se em 1999 vemos os personagens frequentando locais marcados por sua arquitetura tradicional e marcadamente chinesas, conforme o tempo passa a paisagem urbana vai sendo tomada por prédios cada vez mais altos e modernosos além de vários em construção. Isso também pode ser visto na mudança da paleta de cores, se nas cenas em 1999 temos uma paleta de cores intensas e variadas, quando chegamos a 2025 encontramos uma predominância de branco (conferindo uma aparência mais "clean" aos objetos e construções futuristas) e cores menos saturadas. É interessante também o modo como Zhang-ke vai literalmente ampliando nossos horizontes indo para widescreen quando chega em 2014 e depois para cinemascope em 2025, dando a impressão de um mundo em constante expansão.

Há também um comentário sobre como a modernização do mundo tornou tudo tão rápido que não valorizamos mais o tempo que passamos um com o outro e o valor que há nisso mesmo tudo em nossas vidas sendo tão fugaz. Isso se manifesta não só no modo como o filme é filmado, com planos longos cheios de silêncio e contemplação, mas também nos diálogos. Em uma cena, o filho de Tao lhe pergunta porque pegaram o trem comum e não o de alta velocidade e ela lhe responde que queria passar mais tempo com ele e também apreciar a paisagem.

O uso da canção Go West do Pet Shop Boys não é apenas uma maneira impactante e energética que o filme encontra para iniciar sua narrativa, acaba sendo também uma espécie de hino temático do filme. O título (vá para o oeste ou vá para o ocidente) dialoga com os temas de abertura e ocidentalização da China e de seu povo, assim como o refrão sobre união, ressaltado pela dança em grupo do início, dialoga com as ideias sobre proximidades e distanciamentos que a obra aborda. Tanto que usá-lo novamente na agridoce cena que encerra o filme, com Tao dançando novamente, mas desta vez sozinha, sinaliza o duplo movimento manutenção do que existe e busca por mudança que marca toda a narrativa.

As Montanhas se Separam acaba se revelando um delicado e melancólico estudo sobre a passagem do tempo e como ele afeta as pessoas, os lugares e as nações.


Nota: 10/10

Trailer:

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