quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Crítica - O Pequeno Príncipe

 
Por mais que eu adore o livro de Antoine de Saint-Exupéry, vê-lo adaptado para o cinema sempre traz uma certa apreensão, já que não se trata de uma obra simples, mas um texto rico, cheio de metáforas e simbolismos que não são necessariamente fáceis de traduzir para as telas. Felizmente este O Pequeno Príncipe é uma versão bastante competente do tradicional conto e, apesar de algum excesso de didatismo aqui e ali, consegue captar muito bem a força do texto original.
 
A trama acompanha uma menina (Clara Poincaré / Larissa Manoela) que se muda com sua mãe para ingressar em uma nova e melhor escola. Na nova casa, sua mãe lhe impõe uma severa agenda para se preparar para o começo das aulas, já que ela tem todo um plano de vida para a garota. Ela, porém, começa a se aproximar do excêntrico vizinho, um velho aviador (André Dussollier/ Marcos Caruso) que começa a lhe contar uma história sobre um príncipe que conhecera quando seu avião caíra no deserto.

O filme acerta em seu belo design que constrói a cidade como um lugar completamente padronizado, no qual todas as casas são iguais e com as mesmas plantas, as cores são frias e sem vida e os adultos são seres cadavéricos, quase como assombrações, como nos mostra a cena da entrevista no início. Em oposição a isso, a casa do aviador é a única "fora do padrão", o que sugere sua percepção de mundo diferente, e também o único local em que as cores são vivas e marcantes. Nos momentos em que narra a história o filme, a estética muda, com personagens que lembram estátuas de papel machê, quase como se as ilustrações de Saint-Exupéry tivessem saltado das páginas e ganhado vida.

Essas escolhas de cor e de design servem ao tema principal da narrativa ao mostrar como os adultos (e o mundo por eles construído) não deixa qualquer espaço para espontaneidade ou imaginação, um mundo no qual todos estão sempre preocupados com o futuro, mas não vivem o presente. Esse mundo dos adultos é, portanto, um mundo de ausências, ausência do presente, ausência de contato humano, ausência de afeto. A mãe tem grandes planos para o futuro da filha, mas lhe trata mais como uma funcionária, com suas metas, horários e cotas, do que como filha, já que está sempre ocupada e atrasada para algo. O pai, sempre ausente, só se mostra através dos globos de neve que dá de presente para a filha, mundos capturados em redomas de vidro, mas o mundo real também está ausente.

Aliás, é curioso que visual dos globos de neve se pareça com a redoma de estrelas do homem de negócios, já que ambos revelam o desejo de trazer o universo para si, mas ao mesmo tempo manter-se distante dele. Os adultos visitados pelo príncipe são criaturas autocentradas, isoladas em seus próprios planetas (literais e metafóricos) em busca de coisas que não podem lhes dar felicidade ou satisfação.

A jornada da garota e seu aprendizado com o aviador e o príncipe é uma jornada de formação, de entender que quando tentamos controlar tudo ao nosso redor e planejamos cada mínimo aspecto de nossas vidas, perdemos tudo é que espontâneo, perdemos o acaso, o devir e todas as possibilidades que ele representa. Perdemos, portanto, a vida em si, pois ela acontece queremos ou não e o que a faz valer a pena não é o dinheiro, as posses ou títulos, mas as experiências que temos com aqueles que cativamos e aqueles por quem nos deixamos cativar. Ainda sim, não se furta de trazer algumas verdades que podem soar duras para os pequenos, mas que são necessárias, pois  crescer é inevitável, que dores, perdas, mágoas e fracassos fazem parte da vida.

Isso, no entanto, não significa que devemos nos tornar adultos duros e fechados do resto do universo, tal qual os do filme, mas entender que tudo isso faz parte de nossa experiência com o mundo e do nosso desenvolvimento. Entender que crescer não significa abrir mão dos nossos sonhos ou de nossa espontaneidade, que devemos questionar aquilo que se apresenta para nós e que nem sempre se adequar a um padrão é algo positivo. Fundamentalmente tudo se resume a perceber que aquilo que é verdadeiro e essencial é "invisível aos olhos", pois o importante são as experiências que vivenciamos e os laços de afeto que construímos, pois quando tudo que é material deixar de existir, as memórias calorosas de tudo que vivemos permanecerão conosco.

O Pequeno Príncipe é uma animação recheada de beleza e doçura que nos lembra como é ver o mundo através da inocência e curiosidade de uma criança. Se este filme não lhe fizer sentir nada, provavelmente você está morto por dentro.

Nota: 8/10

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