segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Crítica – A Barraca do Beijo 3

 

Análise Crítica – A Barraca do Beijo 3

Review – A Barraca do Beijo 3
Há uma cena em Billy Madison: O Herdeiro Bobalhão (1995) em que o diretor da escola, farto das baboseiras proferidas pelo protagonista, diz algo como: "Essa é uma das coisas mais insanamente idiotas que já ouvi. Em nenhum momento da sua fala incoerente e desconexa você esteve nem perto de algo que pudesse ser considerado um pensamento racional. Todos nesta sala agora estão mais burros por terem ouvido isso”. A frase pode servir como síntese para o horror que é a trilogia que se encerra neste A Barraca do Beijo 3, um produto tão atroz que considero ser uma punição divina para os males que a humanidade cometeu contra o planeta Terra.

A trama é mais uma vez centrada em Elle (Joey King) que (de novo) se vê no centro de uma disputa entre seu namorado Noah (Jacob Elordi) e Lee (Joel Courtney), irmão de Noah e melhor amigo de Elle. Acontece que Elle prometeu ir para a mesma faculdade que Lee, mas ela também foi aprovada pela mesma faculdade que Noah irá fazer, que é do outro lado do país. Agora ela precisa decidir para onde irá.

Se isso parece um conflito estúpido é porque, bem, é estúpido mesmo. Num mundo com vídeochamadas, aplicativos de mensagem e tudo mais, não estar fisicamente perto de alguém não significa que o contato irá se desfazer. Além disso, ao invés de ficarem felizes por Elle ter conseguido passar em duas faculdades de prestígio (algo que é porcamente construído no filme anterior) os dois se comportam como babacas possessivos disputando a atenção de Elle como se um não pudesse ficar feliz pela garota estar na companhia do outro (lembrem, Noah e Lee são irmãos).

Há uma cena em que Lee se mostra irritado por Elle tê-lo deixado esperando para ir ver Noah e esperneia porque a vida inteira todos preteriram ele pelo irmão mais velho, projetando em Elle todas as inseguranças e frustrações que tem com Noah. Isso está longe de ser uma relação saudável para qualquer um dos envolvidos e considerando a conduta de Lee, ele precisaria urgentemente de acompanhamento psicológico. Não que Elle seja menos tóxica, imatura e intransigente, já que ela trata com uma agressividade desmedida e desnecessária a namorada do pai, que não ofereceu nada além de gentileza para a protagonista. Assim, não há ninguém digno do investimento emocional do espectador entre o trio principal e apenas torcemos para que tudo termine o mais rápido possível.

Marco (Taylor Zakhar) é aqui transformado em vilão ao stalkear Elle e forçar situações para se aproximar dela. O expediente soa desonesto já que facilita a escolha da personagem de eliminar um de seus pretendentes, tirando dela a necessidade de autoexame e amadurecimento. A escolha é problemática porque também mostra que Noah estava correto em seu comportamento ciumento, possessivo e agressivo (algo que desde o primeiro filme é confundido com cuidado). Considerando que é um filme para adolescentes, pedir para que garotas confiem que o macho agressivo tentando controlar sua sociabilidade não é exatamente uma boa mensagem a se passar.

Assim como no segundo filme, a produção é desnecessariamente inchada, cheia de coadjuvantes que vão do nada a lugar nenhum. Marco continua desprovido de personalidade e existe apenas para gravitar em torno de Elle. O mesmo pode ser dito da namorada de Lee, tão irrelevante que sequer sou capaz de lembrar o nome, que só existe para reagir aos desdobramentos do conflito entre Lee, Elle e Noah. É curioso, já que no filme anterior parte do conflito era porque Lee deixava a namorada de lado para ficar com Elle e aqui ele continua fazendo a mesma coisa sem que isso seja um problema.

Em dado momento da história Lee faz um novo amigo, um garoto que frequenta a mesma faculdade que ele irá, mas lá pela metade da projeção o tal amigo desaparece e nunca mais é mencionado. Chloe (Maisie Richardson-Sellers) ensaia um arco próprio envolvendo a separação dos pais dela, entretanto ela abandona o filme sem que isso seja resolvido ou faça qualquer diferença. Chega a ser engraçada a cena em que Chloe diz que acha Elle uma grande mulher, já que as duas mal trocaram três palavras ao longo do filme e não há nada na trama que sustente essa atitude da personagem.

Não que qualquer cena entre o trio principal seja muito melhor, já que com eles a trama dá mais voltas que uma corrida da Nascar. Todo o fluxo narrativo consiste de Elle sair com Lee e isso deixa Noah com ciúmes, aí ela sai com Noah e deixa Lee com ciúmes e, bem, é só isso. A primeira metade é uma sucessão de esquetes soltos com brincadeiras e peças sendo pregadas que não servem para nada na trama e sequer encantam enquanto espetáculo visual. A sequência do kart até poderia ser divertida se não fosse desnecessariamente alongada pela disputa tóxica entre Noah e Marco.

Depois de três filmes era de se imaginar que os responsáveis pela franquia tivessem aprendido o mínimo que construção narrativa, desenvolvimento de personagem ou fluxo dramático, mas aqui tudo soa estupidamente como no primeiro filme. Sim, há o final em que Elle tem uma epifania (que é dada a ela de mão beijada pela sogra, ou seja, a protagonista sequer faz o esforço de amadurecer por conta própria) de que sempre se definiu pelos homens ao seu redor e seguiu os comandos deles, atentando para a necessidade de tomar as próprias decisões.

Poderia ser um final edificante (ainda que chegando tarde demais depois de dois filmes com Elle sendo uma songa monga passiva), mas não é por conta de uma série de desenvolvimentos forçados que ocorrem por pura conveniência de roteiro. Mal tem sua epifania, Elle decide ser game designer porque...bem...porque sim ué...err...porque ela joga videogame o tempo todo. Aliás, o filme se detém longos minutos mostrando imagens de jogos de Xbox como Killer Instinct e Ori and the Blind Forrest em um constante product placement da Microsoft (o que torna esse filme a pior coisa financiada pela companhia de Bill Gates desde o Windows XP). O pitching de um game que ela faz na seleção da faculdade sequer tem conexão com os tipos de jogos que ela jogava ao longo do filme. Faria mais sentido, por exemplo, se ela sugerisse algum game de dança.

O que piora tudo é o epílogo final que reúne Elle, Noah e Lee anos depois de terminarem a faculdade. Apesar de tudo que passaram, o status dos três continua idêntico e a trama simplesmente decide jogar Elle novamente para Noah porque sim e pronto. Depois de todo o aprendizado da protagonista, não havia qualquer motivo para querer retornar para ele, o epílogo apenas nos informa que eles teriam amadurecido e pronto, tudo volta a ser como era antes. Nada disso soa devidamente construído ou merecido para a personagem, ocorrendo apenas por determinação do roteiro.

Faria mais sentido com a epifania da personagem se ela construísse uma nova amizade e um novo romance longe das figuras tóxicas das quais fez questão de se libertar. A impressão é que tentaram responder às críticas feitas aos outros filmes sobre a relação nociva entre os três protagonistas, mas ao mesmo tempo quiseram entregar um final feliz previsível para não frustrar as expectativas dos fãs que se agradaram com tudo aqui e o resultado é um meio termo covarde que não se compromete com uma ruptura definitiva e coloca a personagem de volta no mesmo lugar que ela estava.

Depois de acompanhar esses personagens por três filmes, devo dizer que fiquei feliz com o final. Fico feliz por essa trilogia horrenda ter finalmente acabado e eu não precisar mais sofrer ou gastar meu tempo e energia com um produto tão sofrível, mal escrito, mal conduzido e que não tem qualquer senso de desenvolvimento narrativo.

 

Nota: 2/10

 

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