quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Lixo Extraordinário – King of Fighters: A Batalha Final

 

Análise Crítica – King of Fighters: A Batalha Final

Review – King of Fighters: A Batalha Final
Não é novidade que filmes baseados em games sejam péssimos. Temos inúmeros exemplos da tentativa de levar games para o cinema rendendo alguns longas extremamente ruins. Este King of Fighters: A Batalha Final é só mais um exemplo de como uma adaptação de games pode ser pavorosa. É tão ruim que perto dele Street Fighter: A Última Batalha (1994) parece até assistível em comparação.

Na trama, a energia emanada por três tesouros místicos é usada para acessar uma realidade (ou dimensão) virtual na qual acontece um torneio para decidir quem será o rei dos lutadores. Essa dimensão alternativa não traz consequência para o mundo real, ou seja, não é possível ser ferir ou morrer de verdade nela. Isso muda quando o criminoso Rugal (Ray Park) rouba os três tesouros e toma a dimensão para si, tornando o jogo em um torneio mortal para poder absorver o poder dessa dimensão e da criatura sobrenatural conhecida como Orochi. Para detê-lo, a agente da CIA Mai Shiranui (Maggie Q) precisa reunir os representantes dos três clãs: Kyo Kusanagi (Sean Faris), Iori Yagami (Will Yun Lee) e Chizuru Kagura (Françoise Yip).

Sério, o que diabos acabei de descrever? Realidade virtual? Agentes da CIA? Sério, como conseguiram complicar tanto um material que segue a premissa mais básica de filmes de artes marciais? Sim, eu sei que há uma complexa mitologia envolvendo o universo KOF, mas em termos de narrativa em si, é a premissa básica de um torneio de luta em localidade remota promovido por uma figura misteriosa e povoado por lutadores pitorescos. Era só fazer isso e encher o filme de boas cenas de luta que poderia sair algo minimamente decente.

Tudo bem, é uma adaptação, nem tudo precisa ser igual. Eu sou o primeiro a defender que não há problema desviar do material original desde que isso crie algo coeso, que consiga funcionar e envolver. Aqui isso não acontece. A trama raramente faz qualquer sentido, já que o texto não consegue minimamente explicar a lógica que governa o funcionamento desse universo de dimensões alternativas e um torneio clandestino em realidade virtual. Os diálogos são quase inteiramente expositivos com os personagens sempre explicando o que está acontecendo com a trama ou o que se sentem, não conseguindo criar o mínimo de arco narrativo ou desenvolvimento para qualquer um deles.

Sean Faris é completamente inexpressivo como Kyo, se limitando a fazer uma expressão forçada de bad boy que soa risível ao longo da projeção. Ray Park, por melhor lutador que seja (ele, afinal, Darth Maul e Snake Eyes), falha em tornar Rugal um vilão intimidador, preferindo uma abordagem calcada no exagero, parecendo um vilão de desenho animado infantil, mas que não consegue nem divertir com seus excessos como fez Raul Julia no filme de Street Fighter. Personagens como Iori ou Terry Bogard (David Leitch, que posteriormente dirigiria filmes como Atômica e Deadpool 2) ficam presos em papeis meramente explicativos e estranhamente Mai acaba sendo a personagem de maior destaque, provavelmente por Maggie Q ser a mais famosa do elenco.

Eu também entenderia uma adaptação do jogo que não fosse completamente fiel ao aspecto visual do material original, afinal a estética anime dos personagens do jogo (Iori ou Benimaru parecem saídos diretamente de Jojo’s Bizarre Adventure) seja difícil traduzir em carne osso. Imaginei que o filme daria figurinos mais distantes do original, um pouco mais realistas, mas ao invés disso todos os personagens tem um visual ridículo.

Mai parece uma prostituta de esquina com um vestido azul (porque não manter ao menos as cores originais da personagem?) curtíssimo com meia arrastão e cinta-liga. Eu sei que os trajes dela eram mínimos no game, mas ao menos parecia algo que uma ninja vestiria, aqui não há qualquer razão de ser. Rugal, por sua vez, parece um cafetão, com uma corrente enorme no pescoço, ocasionais calças coloridas e uma longa echarpe. O característico olho vermelho demoníaco do vilão parece apenas um sério caso de conjuntivite e em uma cena Rugal inexplicavelmente aparece vestido como uma camisa de time de hockey e calças largas como se estivesse participando de um clipe do Limp Bizkit. Os poucos cujos visuais remetem ao jogo, como Kyo ou Terry, parecem um bando de cosplayers vagabundos.

As lutas, que deveriam ser o ponto alto, são prejudicadas por uma câmera que insiste em não ficar quieta, escolhas estranhas de enquadramento, como posicionar a câmera nas costas de um personagem, impedindo que vejamos o que acontece, e montagem picotada impedem que esses embates sejam desprovidas de energia ou senso de movimento. Além disso, as lutas são prejudicadas pela computação gráfica ruim que nunca convence e o fato das coreografias de luta não incorporarem os movimentos que os lutadores fazem nos jogos. Isso sem falar nos visuais pouco inventivos da dimensão alternativa em que o torneio acontece, que na maior parte do tempo parece um monte de galpões abandonados.

Eu também não poderia deixar de mencionar o whitewashing envolvendo Kyo, um personagem japonês que aqui é interpretado por um homem branco. A narrativa tenta explicar que o Kyo do filme seria apenas meio nipônico, filho de um japonês com uma mãe ocidental, mas Sean Faris é tão indubitavelmente branco e distante de qualquer traço asiático que fica difícil embarcar nessa proposta. Isso piora quando o filme nos dá um flashback de Kyo e a versão infantil do personagem é interpretada por uma criança claramente oriental. O que aconteceu com ele? Passou por uma mudança de etnia ao estilo Michael Jackson? Os realizadores do filme acharam que ninguém ia perceber essa bizarrice?

Com uma narrativa que mal consegue fazer sentido, personagens vazios e lutas sem graça, King of Fighters: A Batalha Final é uma das piores adaptações de games já feitas.


Trailer

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