segunda-feira, 8 de junho de 2020

Crítica – The Last Days of American Crime

Análise Crítica – The Last Days of American Crime

Crítica – The Last Days of American Crime
Adaptado de uma graphic novel de mesmo nome, este The Last Days of American Crime, nova produção original da Netflix, consegue ser simultaneamente longo demais e ainda assim incapaz de construir de maneira convincente os arcos de alguns de seus personagens ou mesmo um universo envolvente. Tudo isso faz suas desnecessárias duas horas e meia extremamente cansativas.

A trama se passa em um futuro próximo distópico no qual o governo dos EUA está prestes a acabar com o crime usando um sinal sonoro que paralisa as pessoas que pensem em cometer algo ilegal. Em meio a isso está o ladrão Bricke (Edgar Ramírez), cujo irmão morreu na prisão ao ser usado como uma das cobaias para o tal sinal. Como vingança, ele decide roubar bilhões de uma reserva federal dias antes do sinal ser ativado e usar esse dinheiro para fugir do país. Para tal, contará com a ajuda do gângster Kevin (Michael Pitt) e da hacker Shelby (Anna Brewster).

Apesar de ser vender como uma perigosa corrida contra o tempo, a trama tem um ritmo arrastado que demora a engrenar e que precisa o tempo todo recorrer a longos diálogos expositivos para explicar o universo e as motivações dos personagens ao público, não dando espaço para que isso seja sentido ou dramaturgicamente construído. A relação entre Shelby e Bricke, por exemplo, parece acontecer por pura necessidade de roteiro. Chega a ser impressionante que apesar de tantas explicações a maioria dos personagens sequer consiga demonstrar motivações convincentes.

O filme também se arrasta por conta de várias subtramas envolvendo traições e mudanças de lealdade que provavelmente foram pensadas para criar um senso de suspense, mas tornam tudo entediante e desnecessariamente bagunçado. Elas estão sempre desfazendo alguma reviravolta anterior ao ponto em que depois de muito tempo andando em círculos a maioria das situações ou personagens volta ao ponto inicial sem que nenhuma dessas idas e vindas tenha provocado nenhum desenvolvimento significativo. Alguns personagens, como o policial interpretado por Sharlto Copley acabam sendo tão irrelevantes para a trama que poderiam ser completamente cortados sem prejudicar em nada a trama.

Há aqui e ali tentativas de comentário político e social, mas o filme passa tão rapidamente e tem tão pouco a dizer sobre essas questões que tudo soa raso e diluído, mais parecendo uma versão piorada (muito piorada) de Minority Report (2002) combinado à franquia Uma Noite de Crime. Na verdade todo pano de fundo político parece ser uma mera desculpa para criar cenas de violência e brutalidade sem que o filme tenha muito a dizer.

Se o texto é uma bagunça quase sem sentido, os atores não ajudam a tornar as coisas muito melhores. Edgar Ramírez parece o confundir estoicismo de Bricke com inexpressividade. Anna Brewster pesa tanto a mão para fazer Shelby parecer sensual, constantemente com os lábios entreabertos, que parece vulgar sem ser sexy.

Já Michael Pitt parece estar em um filme totalmente diferente, se comportando como se estivesse fazendo uma imitação de Tommy Wiseau graças ao sotaque esquisito e um comportamento que em momento algum parece remotamente similar a qualquer conduta humana. Aliás, a cena em Kevin discute com o pai e a madrasta, com quem forma um bizarro triângulo amoroso, parece saída diretamente de The Room (2003), por conta de sua completa falta de nexo dramatúrgico ou narrativo, mas sem a excentricidade mambembe que tornou o infame filme Wiseau ao menos engraçado.

Se alguém tinha alguma esperança que ao menos as cenas de ação fossem salvar o filme, basta lembrar que este é um filme dirigido por Olivier Megaton para que toda a esperança desvaneça. Afinal, Megaton é um sujeito famoso (ou infame) por fragmentar seus filmes ao ponto da incompreensão como a célebre tomada de Liam Neeson em Busca Implacável 3 (2014), na qual o diretor usa mais de uma dúzia de cortes em uma cena de seis segundos em que Neeson pula uma cerca.

Aqui, como em outros filmes de Megaton, a câmera chacoalha como se tudo estivesse sendo manejada por um cinegrafista sob efeito de cocaína durante um terremoto. A montagem corta a cada dois segundos ou menos durante as cenas de ação, como se quisesse testar se o espectador sofre de epilepsia e em muitos momentos, como perseguições de carro, mal consegue criar um senso de coesão espacial em relação ao posicionamento de cada elemento da cena.

Com um roteiro inane, escolhas equivocadas de atuação e uma péssima direção, o único crime cometido em The Last Days of American Crime é contra o cinema.

Nota: 1/10


Trailer

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