segunda-feira, 30 de março de 2020

Crítica – Ozark: 3ª Temporada


Análise Crítica – Ozark: 3ª Temporada

Review – Ozark: 3ª TemporadaQuando escrevi sobre a segunda temporada de Ozark mencionei como a trama era eficiente em impor dilemas morais aos personagens principais e colocá-los em rumos sombrios. Pois este terceiro padece justamente por não conseguir criar conflitos convincentes graças aos coadjuvantes ruins que insere na narrativa, ainda que o elenco principal seja bom o suficiente para manter o nosso interesse. O texto a seguir pode conter SPOILERS da temporada.

A trama continua no ponto onde o ano anterior parou. Os Byrde consolidam a posição deles no lago Ozark inaugurando um cassino que serve de fachada para lavar dinheiro de carteis mexicanos. Marty (Jason Bateman) começa a pensar em estratégias para fugir de tudo isso, enquanto Wendy (Laura Linney) pensa em aproveitar para se consolidarem em uma posição de poder na comunidade local e expandir a presença deles em negócios lícitos. O casal está em desacordo quanto à melhor estratégia e isso começa a causar conflitos ao mesmo tempo em que outras ameaças surgem ao redor deles.

A série sempre teve sua parcela de personagens mal construídos que serviam apenas para ser um obstáculo, a exemplo do agente Petty (Jason Butler Harner), que ficava tão dentro do clichê do policial obsessivo que virava uma caricatura. No entanto essa terceira temporada abusa desse recurso, com a maioria dos novos personagens se comportando de maneira estúpida e caricata ou produzindo reações estúpidas nos personagens. Um exemplo é Erin (Madison Thompson), filha de Helen (Janet McTeer), a advogada do cartel. Erin é uma jovem que quer perder a virgindade a qualquer custo e se envolve com pequenos criminosos de Ozark. A personagem parece saída de uma daquelas comédias adolescentes e destoa do resto da trama.

Temos ainda Frank Jr (Joseph Sikora), filho do chefe da máfia de Kansas City que constantemente cria conflitos com Ruth (Julia Garner) apesar do pai dele já ter deixado claro que não é para mexer com ela. Ele é o típico clichê do filho mimado de mafioso que se acha mais poderoso do que realmente é e não há muito mais nele além de uma criação de conflitos óbvios e estúpidos que pouco contribuem para o desenvolvimento dos personagens.

O pior é Ben (Tom Pelphrey, que já tinha sido o péssimo Ward em Punho de Ferro), o irmão de Wendy. Ele é o típico “irmão ovelha negra com problemas mentais” e fica óbvio desde o início que a instabilidade dele criará problemas para os Byrde. A trama nunca explicita o que ele tem exatamente, preferindo o termo genérico “problema mental” como um escudo para colocar o personagem para fazer qualquer tipo de absurdo que a trama precise, fazendo ele variar entre esquizofrenia, bipolaridade, atraso mental e qualquer outro distúrbio que sirva à narrativa.

Por pura necessidade de roteiro Ben se apaixona quase que instantaneamente por Ruth, sem que esse sentimento seja devidamente construído ou justificado. Tudo bem que eventualmente Ruth fale que se atrai por Ben por ele ser tão problemático quanto ela, mas isso não serve para justificar o que ele viu nela ou as decisões incoerentes que Ruth toma por ele. Até esse ponto da trama, Ruth era mostrada como alguém bastante pragmática, inteligente e engenhosa, uma peça fundamental dos planos dos Byrdes.

Aqui, por conta do envolvimento com Ben, Ruth age como uma completa imbecil incapaz de avaliar adequadamente os riscos de uma situação. Por mais que Ruth visse o sofrimento de Ben na clínica psiquiátrica, tudo que foi construído sobre a personagem até aqui nos diz que ela seria pragmática e inteligente o bastante para entender que deixar ele solto era um risco grande demais, afinal ela matou os próprios tios para proteger os negócios que tinha com Byrdes. Então vê-la colocar tudo a perder ao assumir um risco idiota soa forçado. Diante de tudo que ela já passou também é pouco crível que o que acontece com Ben seja a última gota que a faz colidir com os Byrdes, principalmente quando a culpa maior foi dela por ter soltado o sujeito da clínica.

O arco de Ben só não é insuportável justamente pelo talento de Julia Garner e Laura Linney em nos convencerem do conflito interno das duas personagens. Mesmo quando Ben soa como uma caricatura patética e irritante, Garner e Linney nos envolvem no conflito ao mostrar a dor e a dúvida das duas em tentar ajudar o sujeito e mantê-lo vivo mesmo quando ele próprio não é capaz de lidar com a situação.

Aliás, é o trio principal formado por Linney, Garner e Jason Bateman que continua a fazer tudo funcionar a despeito dos problemas de roteiro ao mostrar como a relação entre esses três personagens vai se degradando com os constantes conflitos e das perspectivas diferentes do trio, nos fazendo acreditar nos personagens mesmo quando o texto não cria situações convincentes.

O arco envolvendo a relação entre os Byrdes e o chefe do cartel mexicano acaba sendo a principal e mais convincente fonte de tensão da temporada, já que Navarro (Felix Solis) além de ter uma presença intimidadora e demonstrar ser capaz de eliminar todos sem muito esforço, também exibi um grau de imprevisibilidade e instabilidade por conta da guerra com um cartel rival. Navarro é um sujeito passando por uma situação de vida ou morte, o torna o traficante ainda menos tolerante e paciente com as baboseiras e tropeços dos Byrde. É a tensão do conflito com Navarro que cria os momentos de maior suspense da temporada, incluindo o impactante final que deixa um gancho que já me deixou ansioso pela próxima temporada.

Entre os coadjuvantes inseridos na temporada, a única que se salva é a agente Maya (Jessica Frances Dukes), uma perita em contabilidade do FBI enviada para auditar o cassino de Marty. Maya tem um claro código moral, mas também exibe uma clara preocupação por Marty e sua família, tentando encontrar uma saída para eles, mesmo que os Byrdes não queiram, o que testa o senso de moralidade da personagem. Ela e Marty formam uma amizade relutante e conflituosa que injeta alguma nuance em uma temporada marcada por coadjuvantes ruins que pareceram ser inseridos só para alongar a trama, que poderia ter tranquilamente uns dois episódios a menos.

Essa terceira temporada de Ozark é a mais fraca da série até aqui por conta dos coadjuvantes ruins e algumas situações pouco críveis, mas continua se sustentando pela qualidade do elenco e construção de suspense.

Nota: 7/10


Trailer

2 comentários:

Unknown disse...

Essa crítica tem mais furos que o roteiro da série. Reassista e depois releia o que você escreveu.

Lucas Ravazzano disse...

Se você reconhece que a série tem muitos furos, então a crítica esta correta.