sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Crítica – A Arte da Autodefesa


Análise Crítica – A Arte da Autodefesa


Review – A Arte da Autodefesa
Eu não estava preparado para a sucessão de absurdos que a trama deste A Arte da Autodefesa colocou diante de mim. Falo absurdos no bom sentido, já que todos os eventos inesperados e condutas sem noção parecem claramente pensados para agregar à mensagem do filme e suas ponderações sobre masculinidade.

A trama é protagonizada por Casey (Jesse Eisenberg), um contador pacato e tímido que um dia é assaltado e espancado por uma gangue de motoqueiros. Traumatizado pelo ocorrido, Casey decide começar a fazer aulas de karatê para ser capaz de se defender. Aí ele conhece Sensei (Alessandro Nivola), um instrutor artes marciais que promete fazer o protagonista superar todos os medos.

Dizer mais seria estragar a experiência de quem ainda não assistiu, já que a trama nos leva a muitos desdobramentos inesperados. O que parecia uma história de um sujeito lidando com os traumas da violência urbana se transforma em uma versão idiota de Clube da Luta (1999). Por outro lado, a reviravolta envolvendo a gangue de motoqueiros seja relativamente previsível. Sim, o plano da gangue não faz muito sentido, mas me parece ser uma decisão proposital de mostrar como toda a situação e o esforço precisar rearfirmar a masculinidade o tempo todo é, em si, absurdo e potencialmente perigoso.

A jornada de Casey é se tornar mais assertivo e menos medroso, com o personagem idealizando o karatê como esse veículo que irá lhe dar o que deseja. Aos poucos vamos percebendo que o personagem, na verdade, está usando a arte marcial para compensar suas inseguranças quanto à própria masculinidade, como se ele precisasse agir de maneira exageradamente agressiva e insensível para demonstrar que é “homem” (no sentido de masculinidade heteronormativa). Eisenberg já mostrou ao longo de sua carreira como é hábil em interpretar um sujeito emocionalmente retraído, seja o Zuckerberg de A Rede Social (2010) ou o Columbus dos dois Zumbilândia e aqui faz de Casey um sujeito sempre prestes a desabar sob o peso do quanto detesta ser quem é.

Já Alessandro Nivola faz do Sensei uma figura dotada de certa gravidade e mistério, mas que aos poucos vai se tornando cada vez mais esquisito conforme aprendemos suas ideias bizarras sobre o que é “ser homem”. É uma transição que podia tornar o personagem caricato ou pouco crível, mas que faz sentido pela maneira como se conecta com o senso de absurdo com o qual o texto olha para os ideais típicos de masculinidade e também pela performance de Alessandro Nivola, que nos permite vislumbrar que toda a bravata e rigidez é um mecanismo de defesa para esconder um homem profundamente inseguro.

O filme também mostra como essa busca por se tornar o auge da masculinidade afeta as mulheres, com Anna (Imogen Poots) sempre sendo preterida para receber a faixa preta apesar dela ser melhor do que todos os outros homens do dojo. É um exemplo de como uma hierarquia patriarcal prejudica e subestima as mulheres, com o desfecho nos lembrando que dar espaço ao feminino e se desfazer de padrões arcaicos de masculinidade é o único caminho possível para melhorarmos.

Povoado por personagens excêntricos e com um senso de absurdo bem particular, A Arte da Autodefesa apresenta uma visão ácida sobre o quão frágil é o ideal de masculinidade.

Nota: 8/10


Trailer

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