quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Crítica – Projeto Gemini


Análise Crítica – Projeto Gemini


Review – Projeto Gemini
A divulgação deste Projeto Gemini tratava como uma imensa novidade sua premissa de colocar um astro de ação como Will Smith enfrentando a si mesmo através do uso de computação gráfica. Não sei até que ponto isso se deu por falta de repertório ou simplesmente por querer convencer desonestamente o espectador de que estava vendo algo inédito, mas a verdade é que isso está longe de ser novidade entre os blockbusters hollywoodianos.

Arnold Schwarzenegger enfrentou um clone de si mesmo em O Sexto Dia (2000), Jean-Claude Van Damme fez o mesmo um ano depois em Replicante (2001). No mesmo ano o chinês Jet Li lutou contra um doppelganger de outra dimensão em O Confronto (2001) e esses são apenas os exemplos que vem na minha memória imediata. Desta maneira, desde sua premissa Projeto Gemini já soava como um produto requentado, ainda que um nome como Ang Lee no comando desse a esperança de que o filme pudesse ser algo mais do que um blockbuster de ação genérico, mas infelizmente isso não acontece.

Na trama, o assassino Henry Brogan (Will Smith) está decidido a deixar a função e viver em paz. Como ele é o melhor no que faz e sabe demais, a chefe da agência secreta para qual ele trabalha decide eliminá-lo e para isso chama Clay Varris (Clive Owen), dono da companhia militar privada Gemini. Clay despacha Junior (também Will Smith) para matar Henry, Junior é um clone de Henry feito anos atrás com o intento de substituir Henry. Assim, os dois assassinos que tem técnicas semelhantes começam um brutal confronto.

A trama é básica e desde o início é possível prever que Junior e Henry inevitavelmente irão cooperar para encerrar o programa de clonagem capitaneado por Clay. O vilão interpretado por Clive Owen, por sinal, é alguém com motivações vagas e objetivos genéricos. Ele quer criar soldados perfeitos para...bem não há um plano muito específico, ganhar dinheiro, talvez? Não sei e o filme não nos dá muito com o que nos importemos com este conflito.

O trajeto narrativo óbvio não seria um problema tão grande se a fita conseguisse usar sua premissa para efetivamente dizer algo. A ideia de enfrentar a si mesmo mais jovem podia servir como metáfora para a maneira como nosso passado sempre tenta nos derrubar ou como a sabedoria da experiência pode ser melhor que o vigor da juventude, mas a verdade é que o filme não tem nada a dizer sobre a questão. Poderia haver um debate ético, filosófico, existencialista, tinha potencial para tudo isso, principalmente com um realizador contemplativo como Ang Lee no comando, mas nada disso acontece.

Will Smith consegue criar diferenças entre Henry e Junior através do uso da voz e da linguagem corporal, mas a despeito dessas características físicas nenhum dos dois tem personalidades satisfatoriamente desenvolvidas. Henry é o clichê do assassino traumatizado pela violência que promoveu, enquanto Junior é o soldado criado para ser perfeito e vai aos poucos perdendo o controle ao perceber que não é tão perfeito quanto pensava. Nada disso é exatamente novo no cinema de ação e o texto nunca dá a eles nuance o suficiente para que se elevem acima do lugar-comum. Os demais personagens são ainda mais inócuos, como a agente interpretada por Mary Elizabeth Winstead ou o operativo vivido por Benedict Wong, que são mais dispositivos de roteiro do que sujeitos plenamente desenvolvidos.

Os efeitos especiais que criam a versão jovem do Will Smith de fato impressionam pela qualidade, mas em alguns momentos os movimentos da boca denunciam a artificialidade do modelo digital. As cenas de ação são bem conduzidas, explorando a profundidade de campo e usando poucos cortes, mas como não temos conexão alguma com os personagens, não chegamos a nos envolver com os embates de modo a sentirmos tensão ou empolgação. É tudo muito bem realizado tecnicamente e, ainda assim, carente de qualquer sentimento ou conexão emocional.

Apesar de Projeto Gemini apresentar bons efeitos especiais e cenas de ação filmadas de maneira competente, sua trama genérica e personagens sem personalidade impedem que nos importemos com qualquer coisa que acontece em cena. O resultado é um produto frígido, que não causa qualquer reação além de indiferença.


Trailer

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