quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Crítica – Rainhas do Crime


Análise Crítica – Rainhas do Crime


Review – Rainhas do Crime
É difícil olhar para este Rainhas do Crime e não pensar no superior As Viúvas (2018), já que a premissa de ambos é praticamente a mesma. Tudo bem que o quadrinho no qual Rainhas do Crime se baseia foi lançado antes, mas o filme empalidece ao lado de As Viúvas por conta da superficialidade de seu texto e falta de ritmo.

A trama se passa na década de 70 e acompanha três esposas de gângsteres irlandeses que controlam o bairro de Hell’s Kitchen em Nova Iorque. Quando os três maridos são presos, cabe a Kathy (Melissa McCarthy), Claire (Elizabeth Moss) e Ruby (Tiffany Haddish) tomar o controle dos negócios para conseguirem se sustentar. Na prática é a mesma trama de As Viúvas, no qual um grupo de mulheres precisa assumir a atividade criminosa dos maridos na ausência dele.

O maior problema é o modo corrido com o qual o filme percorre sua própria trama, como se estivesse com pressa de chegar ao final. Constantemente são usadas elipses com montagem rápida e uma música pop setentista para avançar rapidamente a narrativa e com isso o filme “pula” o desenvolvimento das personagens, já que elas se transformam nessa passagem de tempo, mas nunca vemos ou sentimos essas transformações, apenas somos informados a respeito delas.

Essa escolha por uma estrutura que se contenta em ser meramente expositiva não está apenas na montagem, mas também aparecem nos diálogos. As personagens falam o tempo todo sobre o que pensam ou como se sentem, mas o filme não dá espaço para espaço para que elas sintam ou demonstrem isso. Sabemos que Gabriel (Domhnall Gleeson) sempre foi apaixonado por Claire apenas porque o personagem, já que nunca vemos isso. Na verdade, a entrada de Gabriel na história acaba sendo um completo deus ex machina, já que o personagem aparece do nada para salvar Claire de um estupro e é imediatamente tratado como alguém importante sendo que nunca o tínhamos visto antes.

Como tudo é muito rápido, muitas escolhas ou ações dos personagens não tem suas motivações devidamente construídas. Em dado momento Ruby diz que sua posição de chefia permitiria abrir mais espaço para a população negra, mas o filme nunca nos mostra a personagem interagindo com outros personagens negros (a mãe dela é a única exceção) e assim nunca temos essa impressão de que Ruby é de fato alguém conectada com a população negra do bairro. Desta maneira, sua fala acaba soando como uma decisão arbitrária do roteiro do que como uma decisão orgânica.

O mesmo pode ser dito da relação conflituosa entre Kathy e o pai. Durante todo o filme Kathy é criticada pelo pai por ter assumido o trabalho criminoso do marido, mas ao final o pai simplesmente decide aceitar Kathy e elogia tudo que ela fez. Mesmo depois de Kathy admitir que agiu pelos filhos e sim por si própria, o pai mantem o apoio, o que torna a mudança de atitude dele uma ação ocorrida por pura necessidade da narrativa. O clímax ainda conta com duas reviravoltas razoavelmente previsíveis (uma mais do que a outra) sendo que a reviravolta “estilo Keyser Soze” com uma das personagens se revelando um grande gênio criminoso acaba servindo a pouco propósito além de um choque descartável que já virou clichê nesse tipo de filme.

É uma pena que o texto seja tão frouxo e fracasse em desempenhar funções básicas de estabelecimento de motivações, porque o trio principal realmente abraça suas personagens mesmo sem muito material com o que trabalhar. Tiffany Haddish, normalmente habituada a fazer comédias, surpreende como uma mulher que vai aos poucos endurecendo conforme ascende no mundo do crime, enquanto que Melissa McCarthy faz de Kathy alguém em uma encruzilhada moral entre ser implacável ou preservar algum quinhão de humanidade.

Apesar do esforço do elenco, Rainhas do Crime acaba sendo um filme de máfia sem personalidade, prejudicado por uma trama apressada e por um roteiro raso, incapaz de sequer estabelecer as motivações de seus personagens de maneira consistente. A impressão é que estamos diante de algo que poderia render uma minissérie, mas que precisou ser comprimido para caber em um longa metragem e, com isso, perdeu coesão e consistência.


Nota: 4/10

Trailer

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