segunda-feira, 25 de junho de 2018

Crítica – Luke Cage: 2ª Temporada


Análise Crítica – Luke Cage: 2ª Temporada


Review – Luke Cage: 2ª TemporadaA primeira temporada de Luke Cage teve um começo promissor, mas acabou perdendo um pouco do impacto ao eliminar um pouco cedo demais seu vilão mais interessante. Essa segunda temporada também tem problemas em construir bom um vilão e acaba sendo prejudicada por isso e por problemas de ritmo.

A trama começa pouco tempo depois dos eventos mostrados da série dos Defensores, com Luke Cage (Mike Colter) tentando derrubar Mariah (Alfre Woodard) que, junto com o gângster Shades (Theo Rossi), assumiu os negócios do vilão Boca de Algodão (Mahershala Ali). Ao mesmo tempo, uma nova ameaça surge na forma do jamaicano Bushmaster (Mustafa Shakir), que chega ao Harlem em busca de vingança contra algo que a família de Mariah fez no passado.

Esse segundo ano tenta explorar a frustração de Luke com o fato de que mesmo sendo indestrutível ele não é onipotente e não tem como manter o bairro seguro o tempo todo. Seu desejo de ajudar as pessoas e fazer do Harlem um local pacífico acaba levando-o a questionar seus métodos e a pensar em atitudes mais extremas. Seria um caminho promissor, levar o personagem por esse caminho de anti-herói e explorar seu lado mais sombrio, a segunda temporada de Demolidor, por exemplo, fez isso relativamente bem, mas lamentavelmente o mesmo não ocorreu aqui.


O principal problema é que o texto erra a mão no modo como representa a raiva e frustração de Luke, algo que já tinha acontecido com o Danny Rand na primeira temporada de Punho de Ferro. Luke acaba soando mais como um sujeito desagradável e um babaca birrento que se acha melhor e mais sofrido do que todo mundo ao invés de um sujeito bem intencionado que perdeu seu rumo e assim fica difícil torcer por ele. As coisas melhoram um pouco na segunda metade da temporada, depois que Luke faz as pazes com o pai, mas até chegar lá é preciso aguentar muitos episódios com um protagonista com o qual eu não me importava.

É uma pena, pois a jornada de Luke toca em questões importantes como o preconceito racial e a dificuldade de ex-presidiários retomarem suas vidas, mas nem sempre são tratadas com o cuidado merecido. Um exemplo é quando Luke fala para Claire (Rosario Dawson) que já estava acostumado a ser temido antes mesmo de ter poderes só por ser um homem negro andando na rua à noite, o depoimento impactante do personagem, no entanto, perde força quando o texto o coloca para agir de maneira agressiva e machista com Claire, socando a parede como que para não socá-la, quase que tentando usar a raiva do preconceito sofrido como uma desculpa para que ele agisse de maneira abusiva com a namorada.

Os vilões também não se saem muito melhor. Se inicialmente o vilão Bushmaster tinha uma motivação crível, buscando reparação por injustiças do passado, e uma postura ameaçadora, com o tempo ele acaba se tornando aborrecido. O principal problema é que ele não tem nada a oferecer em termos de construção de personagem para além da sua raiva e vê-lo narrar as mesmas injustiças em praticamente todas as suas cenas ao longo de mais de uma dúzia de episódios cansa bem rápido. O vilão tem o cacoete de corrigir qualquer pessoa que se refira a Mariah por seu nome de casada (Dillard), lembrando a todos com quem conversa de que ela é uma Stokes. Imagino que isso tenha sido pensado para mostrar a firmeza do personagem em seus ideais, mas quando o vemos fazer isso três vezes em uma única cena, com segundos separando cada uma das correções, ele mais soa como um moleque imaturo e intransigente e não como um sujeito rígido e cheio de convicções.

Ao menos o Bushmaster consegue ser um eficiente oponente para Luke, criando boas cenas de ação conforme o vilão usa movimentos que remetem à capoeira para derrotar o herói do Harlem. O roteiro tenta fazer de Bushmaster uma espécie de espelho para Luke, como se o vilão representasse o que aconteceria com o protagonista caso ele cedesse à raiva e violência, mas como ambos são construídos como moleques cheios de birra a maior parte do tempo, o conflito entre eles acaba não tendo o impacto que deveria.

Mariah, por sua vez, começa como uma repetição de muitas ideias utilizadas com o Boca de Algodão, em especial a noção de que ela nunca quis uma vida de crime e recorreu a esse caminho por não ter achado nenhum outro meio de ascender socialmente ou ajudar sua comunidade. Seu desejo de tornar uma empresária “legítima” na primeira metade da temporada vem acompanhado de um componente trágico que ajuda a humanizá-la, mas conforme a trama avança Mariah acaba cedendo ao crime, se tornando uma homicida megalômana genérica, tirando a complexidade que até então vinha sendo exibida. Se a personagem não descamba para uma caricatura aborrecida é por conta do talento de Alfre Woodard, que dá a Mariah uma altivez e intensidade que convence mesmo quando o texto a joga no terreno do exagero.

Shades já não era lá grande coisa na primeira temporada, sendo basicamente definido pelo seu hábito de usar óculos escuros em lugares fechados e por forçar uma voz rouca e áspera pensada para soar sinistra, mas que o fazia parecer como se tivesse laringite. Durante boa parte da temporada isso segue o mesmo, com direito a algumas atitudes bem estúpidas por parte dele, como quando ele mata um líder de gangue que lhe devia dinheiro só porque o sujeito insultou Mariah e assim Shades deixa de receber o que é devido. Apesar dessa lealdade aparentemente extrema à Mariah, ele rapidamente a abandona e a delata próximo ao fim da série quando a vê matando inocentes em um restaurante jamaicano, uma guinada que nunca crível para o que foi construído a respeito do personagem.

A trama tenta dar algum grau de complexidade a Shades ao sugerir que ele teve um envolvimento sexual no passado com o gângster Comanche (Thomas Q. Jones), mas isso nunca é plenamente desenvolvido e repercute pouco, desperdiçando a oportunidade de agregar nuance a um personagem que era risível.

O grande acerto continua sendo o olhar afetuoso que a série lança sobre o Harlem, celebrando a cultura, especialmente a música do lugar, explorando a diversidade da cultura negra e sendo hábil em nos deixar imersos no clima do bairro, nos seus problemas e na sensação de habitar aquele lugar. As cenas de ação são bastante competentes em mostrar a força irrefreável do protagonista. Além das já citadas lutas entre Luke e Bushmaster, mas também por vários momentos em que Luke enfrenta dezenas de capangas armados, sendo uma das melhores a que coloca ele e Danny Rand para lutarem contra criminosos em uma estufa. Outros personagens também tem bons momentos, como a luta envolvendo Misty (Simone Missick) e Colleen (Jessica Henwick) em um bar.

A segunda temporada de Luke Cage continua valendo pela ação e construção do seu universo, mas é prejudicada por errar a mão na jornada do protagonista e vilões inconsistentes.


Nota: 7/10


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