quarta-feira, 23 de maio de 2018

Crítica - Flash: 4ª Temporada


Análise Crítica - Flash: 4ª Temporada


Review - Flash Season 4
A terceira temporada de Flash foi relativamente morna, mas terminou com um gancho que prometia grandes mudanças nesta quarta temporada. Com Barry (Grant Gustin) na Força da Aceleração a série tinha a oportunidade de usar a ausência dele para desenvolver personagens que não estavam tendo muito espaço como Wally (Keiynan Lonsdale) e Iris (Candice Patton). Além disso o anúncio de que a narrativa finalmente teria como principal antagonista na temporada alguém que não fosse um velocista, o vilão Pensador (Neil Sandilands), parecia o respiro que Flash precisava para se renovar depois da cansativa na terceira temporada. Digo parecia porque a quarta temporada acabou sendo ainda pior. A partir desse ponto, o texto pode conter SPOILERS da quarta temporada.

Era lógico que Barry não ficaria preso na Força da Aceleração para sempre, mas eu imaginei que a série levaria alguns episódios antes de trazê-lo de volta, justamente para que pudéssemos sentir o peso da ausência dele e que outros personagens pudessem ser desenvolvidos. Nada disso aconteceu e Barry retornou já no primeiro episódio, automaticamente tirando qualquer senso de consequência ou peso dramático da temporada anterior. Se eu esperava que Wally pudesse ter algum tempo para crescer como personagem, o texto fez o exato oposto, despachando-o subitamente para a série Legendos of Tomorrow sem ter dado nada relevante para que Wally fizesse em toda sua participação em Flash.


O antagonista


O vilão Clifford DeVoe, o Pensador, inicialmente parecia um bom antagonista tanto pela sua habilidade em sempre estar a um passo a frente do Time Flash quanto pelo trabalho de Neil Sandilands. O ator construía DeVoe como uma presença serena e eloquente, mas carregada de gravidade. Além disso, ele confere certa vulnerabilidade ao personagem, um sujeito cujo corpo está definhando justamente por conta daquilo que o torna excepcional.

Por volta da metade da temporada, quando DeVoe armou para prender Barry, realmente achei que ele conseguiria ser um vilão tão memorável quanto o Flash Reverso da primeira temporada ou o Exterminador (Manu Bennet) de Arrow, mas não foi isso que aconteceu. Parte do problema foi a saída de Sandilands do personagem em virtude de suas trocas de corpo para se manter vivo e nenhum dos outros atores e atrizes que herdaram o personagem conseguiram fazê-lo tão bem quanto o primeiro ator. Outro problema foi a demora da trama em explicitar o plano final do vilão. Mesmo quando ele já tinha conseguido todos os meta-humanos que queria e recuperou seu corpo original (trazendo o ator Neil Sandilands de volta), ainda assim a trama demorou a fazê-lo colocar seus planos em prática, criando obstáculos arbitrários e forçados para justificar o porquê dele não levar seus objetivos adiante mesmo quando já tinha tudo que precisava.

Os heróis


Boa parte dos personagens to Time Flash sofreu ao longo da temporada com arcos desinteressantes. Foi difícil embarcar na trama de Caitlin (Danielle Panabaker) na primeira metade da temporada envolvendo a vilã Amunet (Katee Sackhoff). A narrativa tenta construir Amunet como uma antagonista poderosa, capaz de intimidar até mesmo os membros do Time Flash, mas seus limitados poderes magnéticos nunca a fazem parecer como a grande ameaça que o texto sugere. Além disso, Katee Sackhoff compõe Amunet com tanto exagero que ela mais parece uma caricatura risível do que uma inimiga brutal.

Se essa subtrama era ruim, ficou ainda pior para Caitlin na segunda metade da temporada quando ela foi separada de seu alter-ego, a Nevasca. A série sempre mostrou Caitlin como querendo se ver livre de seus poderes, mas no instante que isso aconteceu, de repente a personagem se tornou desesperada para reavê-los, mas nem foi isso que tornou o arco ruim. O que piorou tudo foi quando a trama simplesmente resolveu tirar da cartola um trauma de infância que nunca tinha sido citado como raiz do surgimento da Nevasca. A revelação não é apenas desonesta (já que se pode resolver praticamente qualquer problema simplesmente inventando um evento passado que ninguém nunca mencionou), como também incoerente. Se a Nevasca sempre fez parte de Caitlin, como ela demorou tanto a se manifestar? Porque a personalidade não emergiu quando ela viu Ronnie (Robbie Amell), por exemplo? No fim, tudo soou como um conflito desnecessário piorado por uma solução artificial.

Cisco (Carlos Valdes) não teve uma sorte muito melhor no modo como a temporada tratou o namoro dele com a Cigana (Jessica Camacho). As cenas dele com o sogro, o caçador de recompensas Invasor (Breacher), até renderam alguns momentos engraçados, mas a trama de Cisco e a Cigana nunca parecia ir para lugar algum e, assim como aconteceu com Wally, a série simplesmente resolveu se desfazer subitamente da personagem ao invés de fazer o esforço de dar a ela algum material interessante.

Quando falei da temporada anterior, mencionei que a série precisava encontrar algo para Iris fazer ou levá-la de volta ao jornalismo. Essa temporada fez as duas coisas e nenhuma delas funcionou. Quando a temporada começou, foi difícil embarcar na ideia dela como a líder da equipe ao invés de Cisco ou Caitlin, afinal eles dois são grandes cientistas, com múltiplos conhecimentos e habilidades enquanto Iris trabalhou seis meses em um jornal. Sem qualquer construção ela se tornou uma espécie de "gênio tático" e grande líder do dia para noite e heróis que já arriscam as vidas há anos passaram a acatar as ordens dela sem acatar.

Provavelmente a equipe criativa percebeu que não tinha como levar a personagem para esse lado, já que ela não tinha muito a oferecer a equipe, e decidiram colocá-la para reativar seu blog sobre o Flash. Era uma decisão boa, não fosse a ideia de que ela, através de seu blog, conseguisse satisfatoriamente alertar e convencer toda a cidade sobre o plano de DeVoe. Como, em tempos de debate sobre fake news e tudo mais, as pessoas dariam tanta credibilidade a um blog de internet com uma teoria maluca sobre um professor universitário usando satélites para destruir toda a tecnologia e emburrecer a população? Se ela já fosse uma repórter célebre (algo que a narrativa nunca estabeleceu) ou trabalhasse para um grande jornal, isso faria sentido, mas não foi o caso.

Por sua vez, o arco de Barry ensinando Ralph Dibny (Hartley Sawyer) a ser um herói soou como uma repetição da trama de Barry treinando Wally e não teve muito a acrescentar a nenhum dos dois personagens. Hartley Sawyer conseguiu tornar Ralph um personagem divertido com seu charme canalha e conseguiu criar um momento emotivo quando o personagem foi dominado por DeVoe, mas sua trama foi derivativa demais para envolver como deveria. Que melhor momento de Barry na temporada foi um que não tinha relação com qualquer uma das tramas principais é um testamento do quanto a maioria dos arcos narrativos desse quarto ano foram equivocados. O episódio quinze, Enter Flashtime, era uma história praticamente autocontida, que envolvia pelo uso modo como explorava com engenhosidade as possibilidades dos poderes do Flash e nos fazia ver o mundo sob os olhos dele.

Quem continua sendo a melhor coisa da série é Tom Cavanagh como as muitas versões de Wells. As cenas do "Conselho dos Wells" não só renderam boas piadas, como evidenciam a versatilidade do ator. Cavanagh também foi eficiente ao retratar a perda de inteligência de Wells na segunda metade da temporada, acertando tanto nos momentos em que os problemas do personagem eram usados para fins cômicos quanto nos momentos mais dramáticos, nos quais ele nos fazia sentir a dor de Harry ao ver seu único e principal dom escapando de si. Ele também teve algumas boas interações com Cecile (Danielle Nicolet),  apesar da trama dela receber poderes durante a gravidez ter sido aleatória e descartável. Sim, Cecile ajudou o time no episódio final, mas o roteiro poderia ter sido construído ao redor das habilidades de Cisco e não faria muita diferença.

O péssimo final


O final da temporada, já que falei dele, foi tão decepcionante e mal concebido quanto o péssimo final da quarta temporada de Arrow. O penúltimo episódio conseguiu me deixar empolgado com o desfecho ao mostrar DeVoe invadindo uma base militar e matando todo mundo em uma das melhores cenas de ação da série inteira, mas o confronto final entre ele o Flash foi bastante anticlimático.

A primeira coisa que falha no desfecho é o senso de escala. Diferente dos outros vilões da série, DeVoe é uma ameaça para o mundo inteiro e não apenas para a cidade ou os entes queridos de Barry, mas ao invés de nos fazer sentir essa devastação e caos em escala global a narrativa resolve colocar Barry dentro da mente do vilão, diminuindo o espoco que o próprio roteiro tinha ampliado. O confronto final, com Barry e Ralph enfrentando os clones do vilão, pareceu uma xerox piorada da luta de Neo contra os agentes Smith em Matrix Reloaded (2003), o que é bem problemático considerando que a computação gráfica usada lá já era considerada artificial na época em que foi lançada.

O texto tenta vender a ideia de que a vitória foi um mérito coletivo do Time Flash, mas é difícil comprar esse argumento quando tudo pode ser resumido a Barry correndo rápido o suficiente para atravessar um portal. Deveria ser uma vitória coletiva, com o time juntando suas habilidades e conhecimentos para mostrar ao vilão que nem toda a inteligência do mundo é capaz de superar o trabalho em equipe, a amizade e a força de vontade, mas foi a mesma resolução "Barry usa sua velocidade" de sempre.

Por um instante cheguei a pensar que essa não seria a vitória final quando DeVoe se digitalizou e começou a se espalhar pelos computadores, mas em questão de segundos isso foi resolvido com Marlize (Kim Engelbrecht) destruindo a cadeira dele. Eu entendo que era necessário dar um momento de redenção para Marlize depois dela ter ajudado o Pensador a temporada, mas a cena não fez o menor sentido. Se DeVoe já estava se espalhando pelos computadores (portanto estava na internet e plenamente digital), como destruir a cadeira apagaria sua consciência digitalizada? Se sua mente estava "presa" à cadeira e ele controlava os computadores com seus poderes, então DeVoe não é tão inteligente quanto deveria, já que é uma vulnerabilidade óbvia e estúpida.

Os minutos finais enfim revelaram a identidade da garota misteriosa que vinha interagindo com os personagens ao longo da temporada, mas a esse ponto já era óbvio que ela era uma parente de Barry vinda do futuro e introduzi-la literalmente no último minuto só para deixar um gancho fez todas as cenas da personagem ao longo da temporada parecerem uma imensa perda de tempo. Ela poderia ter aparecido só nesse último episódio para ajudar Barry com o satélite de DeVoe (mais uma oportunidade desperdiçada de ressaltar o trabalho do time, colocando Barry para cuidar de tudo sozinho) que não teria feito a menor diferença.

A quarta temporada de Flash falhou em aproveitar o gancho deixado pela anterior e ao invés de cumprir a promessa de retornar a série ao ótimo nível dos seus primeiros dois anos apenas sedimentou a queda em sua qualidade, tal qual a quarta temporada de Arrow. Flash era a única das séries do "Arrowverse" que eu continuava a acompanhar, mas depois do resultado dessa temporada mais recente é bem provável que eu não assista o quinto ano.


Nota: 4/10


Trailer

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