quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Crítica - It: A Coisa


Análise It: A Coisa


Resenha It: A Coisa
Lembro de ter assistido It: Uma Obra Prima do Medo (1990) quando ainda garoto em uma noite no SBT e morrido de medo do palhaço demoníaco Pennywise vivido por Tim Curry. Foi essa minissérie (dividida em dois episódios, mas ocasionalmente exibida como um filme de três horas) que provavelmente sedimentou em mim a impressão de palhaços como criaturas assustadoras. Agora o romance de Stephen King recebe uma nova adaptação neste It: A Coisa, que curiosamente chega aos cinemas 27 anos depois da versão anterior, o mesmo intervalo de tempo que a criatura da narrativa demora a aparecer novamente.

A trama dessa nova versão abrange apenas uma parte do livro de Stephen King que compreende a infância dos personagens e o primeiro confronto entre eles e Pennywise (Bill Skarsgard). Na pequena cidade de Derry começam a acontecer inúmeros desaparecimentos de crianças. Uma delas é Georgie (Jackson Roberts Scott), irmão do garoto gago Bill (Jaeden Lieberher de Um Santo Vizinho) que é puxado para dentro de um bueiro por Pennywise. Mesmo depois de passados muitos dias Bill se recusa a aceitar que o irmão esteja morto e junta seus amigos para procurá-lo nos esgotos da cidade. O grupo acaba se encontrando com Ben (Jeremy Ray Taylor), um garoto solitário e recém chegado a Derry que passa boa parte de seu tempo na biblioteca. Ele conta a Bill e os demais que pesquisando a história da cidade encontrou um recorrência em matanças que ocorrem a cada 27 anos e que os desaparecimentos de crianças podem estar ligados a esse aumento cíclico de violência.

O filme acerta ao focar na construção da amizade entre os personagens e em dar a eles o tempo necessário para entender o que a união deles significa um para o outro, além de dar-lhes espaço para desenvolverem suas personalidades e traumas. Nesse sentido, o enfrentamento da ameaça sobrenatural acaba servindo como uma metáfora para a perda de inocência dos garotos, que são confrontados com a morte, bullying, abuso parental e descobertas afetivas. Conseguimos nos conectar com a dificuldade de Bill em lidar com a morte do irmão, da relação bizarra que Beverly (Sophia Lillis) tem com o pai, da dificuldade de Eddie (Jack Dylan Grazer) em lidar com a mãe superprotetora, do conflito de Mike (Chosen Jacobs) em aceitar ter que matar animais em seu trabalho na fazenda do avô. A ideia, como em muitos outros bons filmes de terror, é que pessoas "normais" podem ser tão malignas e assustadoras quanto um monstro como Pennywise.

A superação desses traumas através da cooperação e amizade dá ao filme um coração e uma afetividade que filmes de terror raramente exibem e o elenco infantil tem uma excelente química em conjunto, nos convencendo do laço que há entre eles. Há uma naturalidade grande nos diálogos e piadas trocadas entre o grupo, em especial os comentários divertidos de Richie (Finn Wolfhard, o Mike de Stranger Things).

Além da construção de personagens, o filme também é bastante eficiente em criar situações de terror e imagens bastantes sinistras. Do encontro entre Georgie e Pennywise no início do filme, passando pela cena do sangue e do cabelo na pia envolvendo Berverly, há ocorrências bizarras e sangrentas suficiente para deixar o público na beira do assento. Isso sem falar, claro, da figura arrepiante que é o palhaço Pennywise e suas aparições súbitas que muitas vezes me fizeram pular da cadeira. Bill Skarsgard é esperto ao não tentar imitar o trabalho de Tim Curry em 1990. Ao invés de uma afabilidade dissimulada, o palhaço de Skarsgard é uma figura indubitavelmente sinistra e perturbadora, com uma fala aguda cheia de malícia e sadismo, se comportando como um predador que mal pode esperar para dar o bote em sua presa e não é à toa que ele baba muitas vezes durante seus diálogos. Assim, Skarsgard consegue criar uma ameaça tão marcante quanto aquela já eternizada por Curry ao mesmo tempo que consegue oferecer algo diferente ao público e não uma mera repetição. Ocasionalmente o filme telegrafa seus sustos de maneira óbvia pelo modo como a música sobe rapidamente em acordes graves sustentados antes que algo pule sobre os personagens, mas isso acaba sendo um problema menor que não diminui a competência da obra em criar uma atmosfera de terror.

Confesso que não esperava que It: A Coisa conseguisse me fazer novamente temer o palhaço Pennywise, mas o resultado final é mais do que satisfatório ao conseguir equilibrar seus elementos macabros e sobrenaturais com o calor humano e sinceridade de seus personagens. Espero que não demorem muito para fazerem uma continuação que aborde a segunda metade do livro de Stephen King (com os personagens já adultos) e consigam manter as qualidades deste primeiro. Assim como a versão de 1990, este filme tem tudo para mais uma vez despertar a coulrofobia (medo de palhaços) em uma geração inteira.


Nota: 8/10

Trailer

Um comentário:

Andrea Martínez disse...

Eu concordo com você. Eu gostei deste filme e acho que foi uma das melhores adaptações cinematográficas da obra de Stephen King. Também li o livro e como você diz eu também espero um segundo filme do livro. Eu também achei que o filme Torre Negra deve ter tido uma sequela porque essa obra é muito boa. Porém gostei muito da história por que não é tão previsível como outras. Vale muito à pena, é um dos melhores do seu gênero. Além, tem pontos extras por ser uma historia criativa. Se vocês são amantes dos filmes de Stephen King este é um filme que não devem deixar de ver.