terça-feira, 8 de agosto de 2017

Crítica - 11.22.63

Análise 11.22.63


Review 11.22.63Tenho um certo fascínio por narrativas que tentam abordar versões alternativas de eventos históricos e mostram o "e se..." de momento marcante. Foi isso que me atraiu a esta minissérie 11.22.63, adaptação do romance Novembro de 63 de Stephen King, que lida com a possibilidade do assassinato do presidente John Kennedy ter sido evitado.

A trama segue Jake Epping (James Franco), um professor de literatura do ensino médio que descobre um portal para ano de 1960 no restaurante do amigo Al (Chris Cooper). Al conta que há anos vem usando o portal para investigar o assassinato de John Kennedy e que está muito próximo de saber quem foi o real culpado. Al também revela que está com câncer terminal e não pode continuar sua missão, pedindo que Jake a termine para ele, retornando a 1960 e seguindo Lee Harvey Oswald (Daniel Webber) até ter certeza se ele é mesmo o único responsável pelo atentado a JFK.

O primeiro episódio deixa claras as regras da viagem no tempo na narrativa. O portal no restaurante de Al sempre leva a pessoa para o mesmo dia e local em 1960. Não importa quanto tempo a pessoa passe no passado, sempre que retornar terão passado apenas dois minutos desde que entrou no portal. Se a pessoa voltar no tempo mais de uma vez, todas as mudanças feitas na viajem anterior serão "resetadas". Além disso, Al adverte Jake a ter cuidado ao tentar reescrever o passado, pois o fluxo do tempo resiste a mudanças e tentará impedi-lo.


No primeiro episódio essa resistência do tempo é retrada de maneira semelhante à Morte nos filmes Premonição, criando incidentes aparentemente fortuitos para impedir que Jake mexa na linha do tempo. Quando ele tenta ligar para o pai, um carro em alta velocidade destrói a cabine telefônica e quando ele tenta ouvir uma conversa de Lee Harvey Oswald que ninguém tinha ouvido, um lustre cai do teto e quase o atinge.

Se nesse primeiro episódio o tempo parece ser bem agressivo, nos episódios seguintes a resistência à reescrita da linha temporal parece bem menor e em alguns momentos quase que inexistente. No segundo episódio Jake mata sem muitas dificuldades o pai de um aluno e o próprio presença dele como professor em uma escola nos anos 60, que de certa forma muda e impacta a vida de muita gente, também não parece receber muita resistência, embora aqui e a ali volte a rechaçar Jake com agressividade.

A reconstrução dos anos 60 é tecnicamente bem competente. Além da fidelidade visual dos carros, figurinos e ambientes, há também um constante uso de tons pastéis e dourados na fotografia que evocam uma certa medida de simplicidade e nostalgia por este passado. Ao mesmo tempo, a trama não se furta em comentar e criticar problemas sociais e políticos do passado abordando temas como racismo, machismo, o conservadorismo religioso e a repressão sexual.

James Franco é ótimo em evocar todo o percurso emocional de Jake ao longo da narrativa. Da incredulidade e exasperação inicial (no primeiro episódio ele chega a se divertir com os preços baixos), passando pela sensação de isolamento conforme avança o tempo no passado e as mentiras que conta sobre si começam a pesar sobre seus ombros. Ele também tem uma boa química e constrói um afeto bem sincero entre Jake e seu interesse romântico, Sadie (Sarah Gadon). Se de início a relação entre os dois parece uma distração desnecessária para a investigação de Jake, aos poucos ela vai se tornando mais interessante conforme ela avança e vemos que Sadie funciona como uma necessária conexão humana em meio à solidão em que Jake vive.

O ator Daniel Webber faz de Lee Harvey um sujeito claramente perturbado, mas injeta nele uma relativa dose de tolice e impetuosidade imatura que constantemente nos deixa em dúvida se estamos diante de alguém verdadeiramente perigoso ou se ele não passa de um coitado instável usado como bode expiatório por forças acima dele. Os momentos em que a série foca na investigação a Lee Harvey e nas pessoas ao seu redor são sempre intrigantes e recheados de tensão, mesmo para que não é afeito a teorias da conspiração. Ocasionalmente a série se detém em algumas subtramas que não levam a lugar algum e acrescentam pouco, como o envolvimento entre Bill (George MacKay) e Marina (Lucy Fry), a esposa de Lee Harvey, mas no geral há sempre um fechamento recompensador para os arcos narrativos, mesmo que eles demorem a vir.

Assim, 11.22.63 vale pela qualidade do elenco, pelo seu cuidado com a reconstrução de seu período histórico e como se vale dele para tecer sua trama investigativa e pensar sobre questões sociais e políticas que continuam a reverberar hoje. É um lembrete de que, por mais que neguemos, os eventos ruins são tão importantes e definidores de nossa vida quanto os momentos de felicidade.


Nota: 8/10

Trailer

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