sexta-feira, 21 de julho de 2017

Crítica - Em Ritmo de Fuga

Resenha Em Ritmo de Fuga


Review Em Ritmo de Fuga
Alguns filmes nos conquistam não pela história que nos contam, mas pela maneira que eles contam sua história. É exatamente isso que acontece neste Em Ritmo de Fuga que encanta pelo modo como integra a música à ação em uma trama de roubo que é bem típica.

Baby (Ansel Elgort) é um jovem órfão extremamente hábil no volante que há anos vem trabalhando para o misterioso Doc (Kevin Spacey) como motorista em seus assaltos de modo a saldar uma dívida antiga que tem com ele. Baby está apenas a um roubo de ficar quites com seu empregador quando conhece a bela Debora (Lily James) e se apaixona por ela. Baby pensa em largar sua vida de crimes e fugir com ela, mas Doc o obriga a continuar trabalhando para ele e tudo se complica quando a instável equipe do mais recente roubo parece botar tudo a perder.

A narrativa traz tudo que já vimos em outros "filmes de roubo". Elementos como "o último golpe", a paixão capaz de redimir o protagonista, os conflitos com os demais membros da equipe. Não fosse a mão de um cineasta com uma visão bem particular para esse material como o Edgar Wright, o resultado seria algo bem banal. O que Wright faz, no entanto, é encher o filme de ritmo e energia ao deixar toda ação e movimentação dos personagens síncrona (e, de certa forma, submissa) às batidas da música que não para de tocar nos fones de ouvido do protagonista. Assim, ele inverte a típica relação entre música e imagem do cinema hollywoodiano na qual a música acompanha as imagens, não o contrário. Isso fica evidente na cena em que Baby pede aos demais ladrões que esperem o momento certo da música para saírem do carro.

Fazer as imagens aderirem sincronicamente ao fundo musical não é exatamente novo no cinema, as primeiras animações funcionavam exatamente assim, com a música seguindo e ilustrando cada movimento dos personagens, tanto que foi cunhado o termo "mickeymousing" para descrever esse tipo de uso da música. Nos primeiros anos do cinema hollywoodiano a música era costumeiramente usada dessa forma e compositores como Max Steiner, que fez a música de King Kong (1933), criaram todo um modelo de composição musical em torno disso. Wright porém, não apenas se apropria se um antigo modelo de composição, ele modifica isso ao situar toda a música dentro do universo fílmico (afinal ela vem dos iPods do protagonista) e ao usar praticamente músicas não originais o tempo inteiro, o que significa que a ação precisa ser adaptada ao tempo das músicas e não o contrário como acontecia com o mickeymousing ou o tipo de partitura composta por Steiner, que eram feitas a partir das imagens.

O filme nos coloca no "ponto de escuta" de Baby, ouvindo suas músicas como se estivéssemos com seus fones em nossos ouvidos, tanto que quando ele tira um dos fones, o som da música diminui do mesmo lado da sala de cinema para refletir a maneira como ele está ouvindo. Do mesmo modo, quando ele coloca as mãos sobre uma caixa de som, sentimos um aumento dos sons graves para transmitir as experiência tátil do personagem com as vibrações sonoras e quando ele retira completamente os fones, ouvimos um constante, mas sutil, zumbido agudo que reflete o problema auditivo do personagem. É por todas essas nuances em seu desenho sonoro que o filme merece ser visto em uma sala de cinema (uma que tenha um bom aparato de som), já que a menos que você um home theater de altíssima qualidade ou excelentes fones de ouvido vai ser difícil perceber toda as sutilezas da construção sonora na televisão de sua casa. Mesmo com muitas camadas de som, é possível identificar cada elemento, nunca caindo no caos barulhento e incômodo do recente Transformers: O Último Cavaleiro, por exemplo.

A montagem é precisa ao fazer os cortes seguirem o ritmo da música de uma maneira quase que obsessiva, assim como tudo que acontece em cena é milimetricamente pensado, coreografado e executado para refletir uma plena sincronicidade com a música. Um feito tecnicamente complexo de realizar (pois a ação foi pensada a partir da música e não o contrário) e que é delicioso de ver. As perseguições são talvez as melhores do cinema desde Mad Max: Estradada Fúria (2015), sendo velozes, brutais e cheias de momentos estilizados de tirar o fôlego.

Ansel Elgort dá um charme misterioso a Baby, sempre absorto em suas músicas e com o rosto constantemente coberto por seus óculos escuros. Lily James, por sua vez, é adorável o bastante para compreendermos o motivo de Baby finalmente enfrentar Doc, além de ter uma boa química com Elgort. O elenco de apoio formado por nomes como Jamie Foxx, Jon Bernthal e Jon Hamm (que usa um penteado inspirado em um Pidgeotto) ajudam a povoar o universo do filme com criminosos exóticos, perigosos e também divertidos. Doc dá uma guinada inesperada no final que soa pouco coerente com o que o filme tinha apresentado até então em relação ao personagem, mas não é algo que chega a atrapalhar tanto a experiência.

Assim sendo, para além de seu excelente trabalho em desenho de som, Em Ritmo de Fuga oferece boas cenas de ação, personagens insólitos e uma aventura estilosamente divertida.


Nota: 8/10

Trailer

Um comentário:

Fabrizio Oliveira disse...

Achei muito interessante a maneira em que terminou é filme. De forma interessante, o criador optou por inserir uma cena de abertura com personagens novos, o que acaba sendo um choque para o espectador. Desde que vi o elenco de Em Ritmo de Fuga imaginei que seria uma grande produção, já que tem a participação de atores muito reconhecidos, pessoalmente eu irei ver por causo do ator Ansel Elgort, um ator muito comprometido. Baby Driver é uma historia que vale a pena ver. Para uma tarde de lazer é uma boa opção. A direção de arte consegue criar cenas de ação visualmente lindas.