terça-feira, 16 de maio de 2017

Crítica - Master of None: 2ª Temporada

Análise Master of None: 2ª Temporada


Review Master of None: 2ª Temporada
A temporada de estreia de Master of None inicialmente não tinha me atraído. Não era lá grande fã do comediante Aziz Ansari e o primeiro episódio não me deixou uma boa impressão, parecia mais uma daquelas séries "quero ser Seinfeld", falando sobre adultos imaturos e despreparados fazendo "nada" por Nova Iorque. Então, não me lembro exatamente o motivo, assisti ao segundo e a série imediatamente me ganhou na gag em que Dev (Aziz Ansari) recusava ajudar o pai com seu iPad e mostrava um rápido flashback dos perrengues que o pai dele passou desde a infância até se estabelecer nos Estados Unidos, contrapondo-os com a infância fácil do personagem. Essa mistura entre trágico e cômico, bem como sua capacidade de confrontar seus personagens por seu comportamento imaturo, acabou funcionando muito bem e criando uma jornada coesa sobre um sujeito que tenta se descobrir apesar de não saber exatamente o que quer.

Essa segunda temporada começa mais ou menos onde a primeira terminou, com Dev na Itália estudando culinária. A partir daí acompanhamos as andanças do personagem em busca de propósito e realização tanto na Itália quanto nos Estados Unidos, quando eventualmente retorna para o país.


A série se constrói sob essa sensação de errância, de um sujeito à deriva em busca de significado, relacionamentos e comidas gostosas, conseguindo ser competente em criar essa sensação de naturalismo, como se realmente estivéssemos vendo a vida de alguém, com toda a sua falta de planejamento e suscetibilidade ao acaso se desenrolar diante de nossos olhos. Dessa vez, no entanto, Ansari e o co-criador Alan Yang se mostram mais confortáveis em experimentar com a linguagem e a maneira como retratam o vaguear do personagem e os modos como os pequenos momentos do cotidiano formam sua personalidade.

O começo da temporada, por exemplo, todo filmado em preto e branco remete a filmes europeus (italianos em especial) que Dev parece tanto gostar, como se para ele sua vivência na Itália fosse como estar em um filme do neorrealismo. Em outro episódio, a começa a acompanhar figuras aparentemente desconectadas em Nova Iorque, incluindo uma garota surda cujo segmento é todo sem som, ilustrando a maneira como a personagem experimenta o mundo. Um episódio é estruturado a partir dos vários encontros de Dev através da montagem alternada, passando de um para outro durante as diferentes etapas do passeio (ele as leva para o mesmo lugar) para mostrar cada uma de suas parceiras reage a ele.

O melhor episódio da temporada é talvez aquele que mostra a relação dele com sua amiga Denise (Lena Waithe) e se estrutura ao redor dos vários almoços de Ação de Graças que Dev teve com a família de Denise desde a infância. Ao longo desses vários almoços vemos não apenas a amizade entre Dev e Denise, mas o modo como a família dela lida com o fato dela sair do armário. Angela Bassett faz uma ponta como a mãe de Denise e as cenas entre as duas são carregadas de sentimento e sensibilidade, conforme ela se esforça para entender a filha.

Além de Bassett a temporada conta com algumas outras participações especiais como Bobby Cannavale como um chef bonachão com um comportamento bastante inapropriado, ou H. Jon Benjamin (a voz do Archer) como um ator amigo de Dev. O que sustenta essa narrativa, no entanto, é Aziz Ansari. Tudo bem que essa coisa do "adorável perdedor" já foi explorada à rodo pela comédia (além de Seinfeld a igualmente novaiorquina Louie também investia nessa seara), mas Ansari traz uma doçura e honestidade ao personagem, que é difícil não se deixar levar por suas andanças em busca de autorrealização ou de bons lugares para comer. Ele também tem uma ótima química com o resto do elenco, incluindo Alessandra Mastronardi com quem constrói uma relação encantadora.

Assim sendo, essa segunda temporada de Master of None funciona como um agridoce passeio pela vida de seu protagonismo. Tal qual a vida não tem exatamente um arco bem delineado ou um ponto central, mas é eficiente em construir o naturalismo do vaguear de seus personagens, que sempre os leva (e a nós) para lugares ou estruturas narrativas inesperadas.


Nota: 8/10

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