quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Crítica - Westworld: 1ª Temporada



Quando Michael Crichton escreveu e dirigiu o filme Westworld: Onde Ninguém Tem Alma (1973) ele praticamente fez um rascunho dos principais temas de sua mais famosa obra: Jurassic Park, que virou filme em 1993 nas mãos de Steven Spielberg. A ideia de um enorme parque temático no qual o homem "brinca de Deus", perde o controle de sua criação (robôs em Westworld, dinossauros em Jurassic Park) e enfrenta terríveis consequências já tinha sido explorada à exaustão nesses dois filmes e nas múltiplas continuações de Jurassic Park. Assim sendo, quando a HBO anunciou que faria uma série de Westworld, tive dúvidas se ela teria a acrescentar ao que já foi dito antes.

Felizmente o showrunner Jonathan Nolan (responsável pela ótima e subestimada Person of Interest) não se limita a essas ideias e expande as propostas originalmente tratadas por Crichton para abordar alguns temas que lhe são caros, como a relação que temos com a ficção, o impacto da criação de uma inteligência artificial, o que nos torna humanos e o papel da memória na formação de nossa identidade (algo que ele já tinha trabalhado com o irmão Christopher quando desenvolveu o argumento de Amnésia). A partir deste ponto SPOILERS são inevitáveis.

A trama se passa no titular Westworld, um parque temático futurístico no qual os visitantes podem experimentar uma espécie de recriação do velho oeste americano e viver aventuras como criminoso ou herói interagindo com um enorme número de sofisticados robôs, chamados de "anfitriões". Os convidados podem fazer de tudo com os robôs, inclusive "matá-los" (posteriormente eles são consertados, tem suas memórias são apagadas e colocados de volta no parque), mas os robôs não podem causar nenhum ferimento real nos humanos. Aos poucos, vamos percebendo que alguns desses anfitriões, como a camponesa Dolores (Evan Rachel Wood) e a cafetina Maeve (Thandie Newton) começam a recuperar as memórias de suas "vidas" anteriores e a impressão de que sua realidade não é o que parece. Bernard (Jeffrey Wright), um dos engenheiros responsáveis pelos anfitriões, teme que isso possa significar que os robôs estão adquirindo consciência, mas seu chefe, Ford (Anthony Hopkins), o criador do parque, parece não se importar muito com isso. Ao mesmo tempo, uma figura misteriosa trajando preto (Ed Harris) cria o caos no parque à procura de algo chamado "O Labirinto", que aparentemente seria capaz de libertar os robôs de sua programação.

O primeiro episódio, quase todo centrado em Dolores e seu loop narrativo dentro do parque ajuda a estabelecer com clareza a lógica de funcionamento daquele universo, ao mesmo tempo que serve para construir uma sensação de confusão temporal, já que cada vez que a vemos acordar novamente na cama, nunca sabemos exatamente quanto tempo passou ou mesmo se estamos no passado ou no presente, já que ela começa a vivenciar várias memórias, inclusive de quando ela desempenhava um "papel" diferente no parque.

Essa falta de uma âncora temporal é importante para o desenvolvimento (e eventual desenlace) de alguns mistérios da trama, mas também serve para ilustrar a importância do tempo e da memória no desenvolvimento da consciência e personalidade, já que sem esse referencial de tempo a própria Dolores parece cada vez mais perdida. Por consequência, o espectador vai também se perdendo junto com ela, já que inicialmente a jornada dela ao lado de William (Jimmi Simpson), parece estar no presente, mas conforme a temporada avança, começamos a suspeitar que eles estão em uma temporalidade diferente. Evan Rachel Wood, por sinal, é eficiente em convocar o desespero e instabilidade de Dolores, cada vez mais perdida em sua própria mente e incerta de si mesma ou das vozes que ouve.

Maeve, por sua vez, inicia seu despertar ao "acordar" na mesa de reparos depois de ser "morta". A cena em que ela vê os empregados do parque carregando os cadáveres de seus conhecidos e os manejando como se fossem coisas e não pessoas (e para eles realmente não são) é quase toda em primeira pessoa e ajuda a transmitir o pavor provavelmente experimentado pela personagem. É interessante notar o modo fluido como Evan Rachel Wood, Thandie Newton e outros atores que vivem anfitriões conseguem transitar de maneira orgânica entre seu "estado humano" e o "robótico" nas sessões com os engenheiros, rapidamente desfazendo qualquer expressão, adotando uma postura rígida e um tom de voz monocórdio, mesmo quando interrompidos em meio a um rompante emocional.

Falando nas mortes de anfitriões, a série também explora o aspecto de "jogo" do parque, mostrando o que acontece quando você deixa pessoas em um ambiente aberto e livre de consequência. Como boa parte dos jogadores de Grand Theft Auto e similares, muitos frequentadores só se importam em pegar prostitutas e se engajarem em matanças desenfreadas, levantando a questão sobre de até que ponto esses convívio constante com uma violência simulada revela sobre nossa própria natureza.

Ford inicialmente parece um cientista benevolente, mas aos poucos vai demonstrando um lado mais sombrio, principalmente quando a executiva Theresa (Sidse Babett Knudsen) ameaça sua posição no parque. Ele vai se mostrando como um megalomaníaco que parece apreciar a posição de "deus" que ele ocupa dentro do parque, criando vidas, determinando o destino de seus personagens, mudando a paisagem e exercendo controle total sobre tudo. A cena em que ele intimida Theresa mostra o tanto que ele pode ser perigoso, assim como na tensa cena entre ele e o Homem de Preto, quando o anfitrião Teddy (James Marsden) age de maneira brutal, fria e completamente automática a um gesto agressivo contra seu criador, mostrando o quão apavorantes esses robôs podem ser. Que Anthony Hopkins tem talento para criar indivíduos sinistros e ambíguos todo mundo já sabe (ele é Hannibal Lecter afinal de contas), mas aqui ele consegue tornar Ford um mistério impenetrável e inescrutável, mantendo ocultas suas reais intenções até o fim.

O final, aliás, mostra que ele tinha objetivos similares ao de seu sócio, Arnold, mas meios diferentes. Acho que já falei isso aqui, mas tenho um fraco por arcos narrativos simétricos e ver o capítulo final da temporada terminar com a mesma citação shakespeariana que encerrou o primeiro episódio ("esses prazeres violentos encontram fins violentos", de Romeu e Julieta) é altamente satisfatório. Sem mencionar que a citação já mostra como a iniciativa de tentar criar formas de vida e mantê-las sob controle dentro de um parque é fadada ao fracasso. Igualmente satisfatório (e simétrico) foi o conflito de Dolores e o Homem de Preto no início desse season finale, com Dolores espancando-o e arrastando-o pelo chão tal qual ele fez com ela no início da temporada.

O episódio final inclusive foi competente em oferecer respostas para praticamente todos os mistérios revelados ao longo da temporada, como a identidade do Homem de Preto, qual a natureza do labirinto e quem era o misterioso novo vilão criado por Ford para o parque. A maioria delas já eram teorias de fãs circulando pela internet, mas a execução é tão competente (como o raccord que começa com William em seu chapéu e termina no Homem de Preto) que é difícil não sair satisfeito. Sem falar que em uma era de distribuição digital, em que depois da exibição o episódio cai na internet para ser minuciosamente dissecado por fãs, é inevitável, de certo modo, que alguém acabe acertando em suas observações. Principalmente pela série ser bem transparente e fair play quanto aos seus mistérios, sempre deixando indícios sutis, ainda que em plena vista, do que realmente está acontecendo. A transformação de William, por exemplo, vai sendo mostrada através de seu figurino, com seu impecável chapéu branco se tornando mais cinzento e escuro conforme ele progride pelo parque e aos poucos o vemos adquirir certos equipamentos usados por outro personagem.

A música composta por Ramin Djawadi (que é o compositor de Game of Thrones e já tinha trabalhado com Jonathan Nolan em Person of Interest) evoca todo o clima de mistério, tensão e futurismo da narrativa, mas também é permeada por certa melancolia, uma vez que a jornada de muitos personagens é terrivelmente trágica. Também é preciso no uso de músicas não originais, em especial as que aparecem em versões instrumentais no bordel de Maeve que nunca são colocadas gratuitamente e sempre comentam o que se passa com a personagem.

Quando ela se torna ciente da falsidade de seu universo ouvimos Fake Plastic Trees do Radiohead ao piano. Quando a personagem começa a morrer repetidas vezes para aprender mais sobre o parque e seu funcionamento, ouvimos acordes de Back to Black de Amy Winehouse tocando e justamente na parte do verso "I died a hundred times" (eu morri uma centena de vezes). Do mesmo modo, no fim do último episódio ouvimos o piano tocar Exit Music (que Djawadi e Nolan já tinham usado em Person of Interest e recentemente foi usada em um episódio de Black Mirror), também do Radiohead. Além da melodia inquietante, assustadora e carregada de melancolia, a letra fala sobre fuga, se relacionando com a tentativa de fuga de Maeve; de despertar, se relacionando com o despertar da consciência de Dolores; e sobre querer que as regras de um poder superior o sufoquem, ilustrando o levante dos anfitriões na festa de Ford.

O desfecho ainda conseguiu dar leves indicadores de uma extensão deste universo (Samuraiworld!), ampliando as possibilidades para futuras temporadas. Ao mesmo tempo que deixa um gancho instigante do inevitável conflito que virá a seguir (e reparem no leve sorriso de satisfação do Homem de Preto ao ver que os anfitriões agora podem machucá-lo) e o papel que cada um desempenhará nele, já que nem todos os anfitriões parecem ter visto com bons olhos a decisão de Dolores (Teddy parece particularmente incomodado).

Por outro lado também deixou algumas coisas secundárias de lado ou mal explicadas, como o que aconteceu com o segurança Stubbs (Luke Hemsworth) depois de cercado por índios, como a manobra de William envolvendo Logan (Ben Barnes) lhe deu o controle da empresa, afinal a segurança do parque provavelmente não o deixaria morrer e se isso tivesse ocorrido certamente seria mencionado em algum momento. O destino de Elsie (Shannon Woodward) também acaba sendo deixado de lado (numa série como essa ninguém está realmente morto até vermos um corpo). Incomoda também que Felix (Leonardo Nam) tenha continuado a ajudar Maeve mesmo depois de vê-la ameaçando e posteriormente matando seus colegas de trabalho, ainda que sua reação no último episódio ao descobrir que um importante personagem era na verdade um anfitrião tenha sido divertidíssima.

De todo modo, são problemas menores em uma temporada de estreia bastante consistente. Em seu primeiro ano Westworld nos apresentou a uma narrativa complexa, estrutural e tematicamente, com mistérios instigantes, personagens envolventes e inteligentes provocações sobre a condição humana.


Nota: 9/10

Trailer:

Um comentário:

Camila Hernández disse...

Espero a nova temporada! acho que deve satisfazer e incitar o público, mostrando poucas repostas e levantando questões o suficiente para intriga-los. As series são os meus passatempos preferidos já que existem produções de diferentes temas. Estive procurando novas series que fossem sair recentemente e a nova temporada de Sr. Ávila é a que mais chamou a minha atenção. Sem dúvida, é uma das melhores series HBO de drama, esta temporada vai ser um êxito, pelo o que li que o elenco esta confirmado por atores que são muito profissionais. É das melhores que já vi, a história é levada de uma forma perfeita porque mantém o espectador sempre interessado, é uma excelente opção para ver. Já conto os dias para a data de estréia!