quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Crítica - Ben-Hur



Muita gente vai detestar este Ben-Hur simplesmente pela "heresia" de tentar refazer um dos maiores, mais célebres e mais icônicos filmes já feitos que é o Ben-Hur (1959) dirigido por William Wyler, o primeiro filme da história a vencer onze Oscars (algo que apenas Titanic e O Retorno Do Rei fizeram depois). Não vejo problemas em uma nova versão (principalmente porque a versão de 1959 não foi a primeira vez que essa história foi contada nos cinemas), mas se você vai mexer em algo que é sinônimo de alta qualidade é preciso ao menos se esforçar para tentar algo à altura e a produção parece apenas focada em ser um blockbuster de ação genérica com um leve subtexto religioso ao invés da épica e complexa história sobre fé, vingança e perdão que o romance de Lew Wallace e o filme de 1959 traziam.

Os problemas já começam na escolha do diretor, o russo Timur Bekmambetov é famoso por filmes de ação cheios de computação gráfica, mas inócuos dramaticamente, como O Procurado (2008) ou Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros (2012), e parecia um nome completamente inadequado para uma história cheia de subtextos sutis. Chamá-lo para dirigir uma nova versão de Ben Hur seria como querer fazer um remake estadunidense da série britânica Downton Abbey e chamar o Michael Bay para dirigir. O orçamento era outra questão, já que o filme de 1959 tinha um orçamento recorde para sua época e os maiores cenários até então construídos, enquanto que este, de acordo com reportagens de veículos internacionais, tem um orçamento de produção de cerca de 100 milhões, um valor relativamente baixo para um blockbuster hoje e principalmente para um épico dessa escala e isso é visível no produto final.

A história acompanha Judah Ben-Hur (Jack Huston), um príncipe judeu que é acusado por Messala (Toby Kebbell), seu irmão de criação, de um crime que não cometeu. Ele é preso, destituído de suas posses e transformado em escravo, obrigado a trabalhar como remador em um barco de guerra. Depois de perder tudo, a única coisa em sua mente é tentar retornar à sua terra natal para se vingar de Messala e descobrir o que aconteceu com sua família e sua amada Esther (Nazanin Boniadi). Sua jornada de vingança, no entanto, irá tocar constantemente na jornada de pregração de Cristo (Rodrigo Santoro), cuja mensagem de amor e perdão contrapõe a busca por vingança de Ben-Hur.

Jack Huston é apático como Ben-Hur e lhe falta carisma e intensidade para convencer da dor e sede de vingança do protagonista. O ator ainda é prejudicado por um roteiro que apresenta de modo equivocado a motivação do personagem, fazendo-o parecer um tolo incapaz de avaliar adequadamente um situação tensa ao invés de alguém condenado de maneira efetivamente injusta (como é no livro e no filme de 1959). O Messala de Toby Kebbell também falha em convencer como um vilão ardiloso e implacável, se comportando o tempo todo como uma criança birrenta que perde o controle e dá chilique toda vez que as coisas não saem como ele quer. Isso sem mencionar o exagero risível da cena em que Ben-Hur visita Messala depois da corrida e ele se comporta como um louco histérico apenas para depois mudar completamente de atitude sem nenhum motivo aparente (a postura de Ben-Hur naquele momento é justificada, mas a de Messala parece vir por pura exigência do roteiro).

Morgan Freeman é, pela quintilionésima vez, escalado como um personagem praticamente desprovido de arco narrativo próprio e que serve apenas para mastigar a trama do filme, explicar seus temas e dar lições de moral (sem mencionar suas inúteis e redundantes narrações em off). Seu trabalho se limita a dar diálogos expositivos como sua cadência lenta e serena para garantir que todas as informações do filme sejam devidamente mastigadas à audiência, igualzinho ao que já tinha feito em filmes como Truque de Mestre 2 (2016), Invasão a Londres (2016), Lucy (2014), Truque de Mestre (2013), Winter: O Golfinho 2 (2014), Ted 2 (2015), Oblivion (2013). Freeman é um ótimo ator com um enorme legado artístico, mas nos últimos anos se reduziu a uma paródia aborrecida e preguiçosa de si mesmo.

Rodrigo Santoro, por sua vez, se esforça ao máximo para conferir credibilidade ao seu Cristo e realmente é uma presença marcante, carregado por uma serenidade e compaixão bastante genuínas. O problema é que o Jesus interpretado por ele é prejudicado por uma direção incapaz de nuance ou sutileza e cada vez que ele entra em cena o trabalho de câmera, música e montagem berra na nossa cara: "OLHEM! ESSE É JESUS! OLHEM O EXEMPLO QUE ELE ESTÁ DANDO! VOCÊS ESTÃO VENDO!?". Assim, todo o cuidado na composição sutil e na postura humilde de Santoro é jogado ralo abaixo.

É também prejudicado por um roteiro que torna algumas de suas ações sem sentindo. Quando digo sem sentido, não me refiro ao modo como alguns eventos fogem completamente da linha narrativa do material original ou mesmo do texto bíblico (ele não tinha como já estar na cidade de Jerusalém no momento em que se encontra com Ben-Hur pela primeira vez), mas dentro da própria lógica estabelecida pelo filme. Afinal, se ele já estava em Jerusalém desde o início e Pilatos já o tinha como uma ameaça, porque então Pilatos não o prende na primeira vez que o vê no filme? Afinal ele claramente já tinha demonstrado poder e autoridade para tal, tanto que em dado momento ele ordena que vinte judeus sejam crucificados porque um soldado romano tomou um soco de um judeu. Se ele já podia sair matando livremente desse jeito, declara abertamente que Jesus é uma ameaça e chega a vê-lo nas ruas (e sinaliza que sabe quem ele é para seus guardas), então o que o impedia de prendê-lo e executá-lo? A resposta é simples, Jesus não deveria estar ali e aqueles encontros não deviam existir.

Outros furos aparecem constantemente ao longo da trama, a exemplo de quando Ben-Hur retorna a Jerusalem e envia para Massala a espada que tinha ganho de presente dele anos atrás. Se o protagonista tinha perdido tudo e vivido como escravo por cinco anos, como ele ainda tinha a espada? O filme mostra claramente que a casa da família de Ben-Hur estava em ruínas e tinha sido saqueada nesses cinco anos, então onde a arma estava? Ele a tinha escondido em algum lugar? Ele pegou uma espada similar de algum outro soldado? O filme nunca explica de onde saiu a espada enviada para Messala e fica a sensação de que ela foi conjurada do vácuo do espaço, demonstrando uma enorme falta de cuidado e coesão no roteiro.

Falta de cuidado também é percebida em elementos relativos ao design de produção, especialmente o figurino e o uso de cenários digitais. Os figurinos parecem algo feito nos dias de hoje usando ferramentas de confecção industrial e não vestes do século I d.C, com calças de couro tão perfeitas que parecem compradas em alguma loja de grife dos dias de hoje, quebrando completamente a imersão. Os cenários digitais soam completamente falsos e artificiais durante boa parte do tempo, em especial a cena do combate naval, que parece retirada de alguma cutscene de jogo de Playstation 3.

As cenas de ação, além de abusarem do uso de efeitos digitais mais do que deveriam, ainda são prejudicadas pela câmera epilética que treme o tempo todo e a montagem exagerada que corta praticamente a cada dois segundos. Isso torna os embates e a climática corrida de bigas (ou melhor, quadrigas, já que são quatro cavalos) numa bagunça semi-incoerente na qual é difícil ter clareza de quem está em qual posição, o que está fazendo e com quem. Se há algo positivo em meio a todo esse desastre? Err...bem...os cavalos são realmente bonitos, creio eu.

Ben-Hur tenta recontar uma conhecida história épica, mas o resultado é um épico fracasso no qual praticamente nenhum de seus elementos funcionam. O que fica é um arremedo de filme de ação que não empolga, nem emociona como deveria nem faz jus aos materiais nos quais se baseia. Esse filme, no entanto, não é ruim apenas em comparação ao que já existe, é ruim sob seus próprios méritos, ou melhor, por falta deles.


Nota: 1/10

Trailer:

Um comentário:

Andrea Martínez disse...

A verdade eu adorei este filme porque tem um grande elenco, especialmente Morgan Freeman. É um dos atores que melhor se veste e a tem a carreira em crescimento, o vi faz pouco tempo em Apenas o Começo e é algo diferente ao que estamos acostumados com ele, se vê espetacular. É um dos filmes de Morgan Freeman mais interessantes. Foi uma surpresa pra mim, já que foi uma historia muito criativa que usou elementos innovadores. Recomendo.