domingo, 26 de junho de 2016

Crítica - Person of Interest: 5ª Temporada



"Todos morremos sozinhos, mas se você significou algo para alguém,se ajudou alguém ou amou alguém, se uma única pessoa lembrar de você, então talvez você nunca morra de verdade"

Essa frase, dita pela Máquina ao fim do último episódio de Person of Interest é uma síntese bastante acertada do olhar da série sobre (e da própria Máquina) sobre as relações humanas. Podemos estar distantes um do outro, desamparados no momento em que morremos, podemos achar que tudo é barulho e caos, não vermos "o grande esquema das coisas" ou como nossas vidas se encaixam uma na outra, mas no fim das contas nossas ações tem impacto naqueles ao nosso redor. O que fazemos, por menor ou sem significado que pareça, quem ajudamos, quem deixamos de ajudar, tudo isso contribui para construir ao mundo a nossa volta, somando-se ao conjunto de ações de cada indivíduo. Cada pessoa, ao seu modo, é importante e faz alguma diferença no mundo.

Confesso que temi por esta quinta e última temporada quando foi anunciado que ela teria apenas 13 episódios e não os 22 habituais, já que a redução poderia prejudicar os planos iniciais do criador Jonathan Nolan para encerrar a série. Felizmente, a temporada consegue ir direto ao ponto, trazer uma sensação de clímax iminente e ainda assim arrumar espaços para que possamos respirar, tudo isso sem que a trama pareça corrida ou apressada demais. A partir deste ponto SPOILERS são inevitáveis.

A trama desta última temporada começa praticamente no ponto em que a anterior parou. A inteligência artificial Samaritan praticamente destruiu a Máquina, sobrando apenas uma versão comprimida de seu código que Harold (Michael Emerson) conseguiu guardar em um HD portátil. Agora o time precisa encontrar um modo de sobreviver ao cerco cada vez mais fechado do Samaritan, reativar a máquina e também tentar reencontrar Shaw (Sarah Shahi). Ao mesmo tempo, o detetive Fusco (Kevin Chapman) que, para sua própria proteção, vinha sendo mantido no escuro quanto ao duelo invisível das duas inteligências artificiais, acaba sem querer entrando com tudo no conflito quando começa a investigar o aumento de desaparecimentos em Nova Iorque.

Como já mencionei, mesmo com o número menor de episódios, a série consegue mover sua trama para frente sem parecer apressada, inclusive achando espaço para nos aliviar da tensão constante, como no episódio que Harold, Reese (Jim Caviezel) e Root (Amy Acker) precisam se infiltrar em um casamento, resultando em alguns momentos bem divertidos, como a inesperada cena em que Harold canta uma versão a capella de We're Not Gonna Take It da banda Twisted Sister.

Apesar dos interlúdios de leveza, o foco é mesmo na tensão provocada pela ameaça agora quase que onipotente do Samaritan, que amplia seu poder e influência no mundo cada vez mais. Conforme o sistema fica mais poderoso, vai crescendo a sensação de que é um oponente virtualmente invencível e que a postura defensiva adotada por Harold e repassada para a Máquina precisa ser revertida e o programador precisa dar à sua inteligência artificial a autonomia necessária para que ela seja capaz de vencer.

O episódio centrado nas tentativas do Samaritan em converter Shaw para sua causa, mostram o quão cruel o sistema pode ser, obrigando-a a vivenciar milhares de simulações nas quais ela é obrigada a matar seus companheiros, sempre acabando em seu suicídio virtual quando a agente é posta para matar Root. Aliás, por mais que tenha sido ótimo ver as duas finalmente concretizarem a relação, é decepcionante que tenha sido em uma simulação que as vejamos juntas pela primeira vez. Esse episódio expande algumas ideias trazidas no ótimo If-Then-Else da temporada anterior, no qual víamos as simulações da Máquina para tentar tirar sua equipe de uma situação de risco. Se lá era possível perceber o quanto uma inteligência artificial poderia ser benéfica em nos proteger, aqui vislumbramos o quanto é terrível e assustador ter uma inteligência tão superior simplesmente brincar com a mente e a sanidade humana para conseguir seus caprichos.

Apesar de bem usado inicialmente, ao longo da temporada o recurso das simulação acaba sendo bastante banalizado conforme a temporada avança e passa a ser óbvio identificar quando estamos vendo uma simulação o que tira o seu impacto. Felizmente as simulações são deixadas de lado nos últimos quatro episódios, quando a identidade falsa de Harold é descoberta e o Samaritan despacha todo seu poder para cima dele.

Esse trecho final da série traz um excelente episódio atrás do outro e passei boa parte deles à beira do assento com o coração quase saindo pela boca. Com o caos instaurado pela caçada à Harold ficava cada vez mais difícil prever se nossos heróis sairiam todos vivos. Afinal, uma grande vitória sem dor ou sofrimento dificilmente soa como algo merecido ou que os personagens superaram muito, mas mais do que pontuar as dificuldades, as mortes que ocorrem funcionam como o elemento que faltava para que Harold finalmente partisse para o ataque e que a Máquina se tornasse ainda mais humana.

Assim, por mais que eu adorasse Root e tenha sido triste vê-la partir (eu avisei que haveriam spoilers), seu sacrifício é bastante compreensível, afinal desde o início ela sempre se mostrou disposta a tudo pela Máquina (e posteriormente por Harold), então é bem coerente que ela tenha se sacrificado para que ambos continuassem sua missão. Do mesmo modo, faz todo sentido que a Máquina passe a usar a voz dela, afinal Root sempre foi a humana com quem a inteligência artificial teve mais contato, inclusive foi a hacker a primeira a se referir à Máquina como "ela" (ao invés de "isso"), não apenas conferindo-lhe humanidade como também uma identidade de gênero. Evidentemente, tenho que dizer que foi lamentável que ela tenha partido sem nunca ter realmente concretizado sua relação com Shaw (isso só acontece nas simulações) apesar das muitas declarações de amor e afeto feitas a ela.

Michael Emerson, que já tinha construído um personagem incrivelmente rico e fascinante em Lost com seu Ben Linus, entrega aqui outro excelente trabalho como Harold Finch. Aliás, é interessante que seu personagem aqui seja o total oposto do dissimulado Linus. Seu Harold possui em si uma enorme compaixão, que não é motivada apenas por um senso de justiça e correção moral, mas também por uma dose de arrependimento e dor por erros do passado. É impressionante a quantidade de sentimentos conflitantes que ele passa ao dialogar com a Máquina nos primeiros episódios da temporada quando tenta reativá-la. Ele claramente possui uma medida considerável de afeto pela criação, mas também muito temor e receio de que ela se torne como Samaritan e muito de sua jornada nessa temporada é aprender a confiar nela. O fato dele conseguir transmitir tanto contracenando apenas com palavras em um monitor é um testamento de sua competência.

Essa temporada também permite que vejamos uma faceta mais sombria de Finch. Como já foi dito, a morte de Root o impele a tomar a ofensiva e a partir desse momento vemos o quanto ele pode ser perigoso e ameaçador quando deixa de lado seus escrúpulos e passa a ver qualquer um em seu caminho como um obstáculo a ser eliminado. Inclusive, o momento que ele resolve "tirar as luvas" e se dirige ao Samaritan através de uma câmera de vigilância ameaçando matá-lo é simplesmente de gelar a espinha. Afinal se alguém com ele que sempre abominou violência diz algo assim é porque ele realmente está disposto a qualquer extremo.

A Máquina, que sempre foi tão protagonista quanto os personagens humanos, se faz ainda mais presente nesta última temporada. Não apenas pela voz que adota próximo ao fim da temporada, mas também por todos os diálogos que tem com Harold via texto no início, que ajudam nos dar uma compreensão maior de como ela pensa. Se ao longo dos quatro anos anteriores ela sempre pareceu uma divindade distante da humanidade, aqui vamos percebendo como ela é incrivelmente humana ao percebemos que ela tem em sua memória a dor de todos as versões anteriores dela que Harold "matou" e também sentimos sua tristeza ao dizer que viu a morte de cada ser humano do mundo e ficamos imaginando como deve ser imenso o pesar que ela experimentou ao acompanhar tantas mortes. Tudo isso remete a uma fala de Root em temporadas anteriores quando ela perguntou a Harold "o quanto você teve que aleijá-la para que ela se importasse tanto?", demonstrando que a hacker sempre percebeu que a inteligência artificial tinha uma consciência e sentimentos próprios e era essa "humanidade" que a fazia valorizar tanto a vida humana, ao invés da lógica absoluta do Samaritan, que nos enxergava como peças descartáveis de um jogo de tabuleiro.

O arco da Máquina nos faz vê-la quase como uma filha de Harold, partilhando da compaixão que lhe foi ensinada pelo "pai" e nos lembra que são nossos sentimentos, nossa capacidade de olharmos e nos importarmos uns com outros independente das dificuldades que nos torna tão formidáveis enquanto espécie. A cena em que ela gentilmente toca o ombro de um jovem Reese no enterro do pai serve como uma exata ilustração da empatia que ela sempre por nós, em um gesto singelo e cheio de significado, como se ali ela dissesse para ele e para todos "eu te entendo, eu te apoio, eu estarei sempre ao seu lado, você não está sozinho". Ao fim ela se torna a divindade compreensiva e amorosa que Harold sempre desejou que fosse, em contraste com o deus frio e furioso simbolizado pelo Samaritan e a oposição entre feminino e masculino aqui certamente não é à toa. O embate entre ela e o Samaritan ressalta que inteligência e informação sem qualquer pingo de sentimento ou empatia jamais será plenamente capaz de entender a conduta humana, afinal não somos perfeitos, não somos completamente lógicos, somos falhos, contraditórios e cada um de nós contêm multidões. Tanto que é por mera força de vontade e não por poder e lógica que ela derrota seu rival, quase como uma luta de Rocky Balboa vemos o azarão continuar a se levantar mesmo diante da superioridade inquestionável do oponente simplesmente por não querer admitir a derrota.

O detetive Fusco, por sua vez, finalmente é colocado à par da situação por Reese e os demais, mas incomoda um pouco o tanto que demoraram para contar ele, uma vez que o policial tinha mais do que provado seu valor e percorrido um longo caminho em relação ao corrupto mesquinho que conhecemos no início da série. Dada a situação precária que a "equipe Máquina" se encontrava nessa temporada, já não fazia sentido manter segredo principalmente quando perceberam que sua investigação das coisas estranhas que ocorriam na cidade iria inevitavelmente colocá-lo em perigo. Assim, soou desnecessário que tenham esperado o personagem quase morrer nas mãos de agentes do Samaritan para finalmente contar toda verdade a ele.

Já Sara Shahi traz com competência a fragilidade mental de Shaw depois de toda a tortura psicológica à qual ela é submetida. Do mesmo modo, é interessante como ela demonstra seu afeto por Root mesmo que ao seu modo sisudo e fechado, mostrando o quanto ela evoluiu, mas sem trair a essência do personagem e é difícil não se emocionar com a discreta lágrima que ela deixa escorrer ao ouvir a máquina falando com ela usando a voz de sua amada pela primeira vez.

O último episódio consegue tecer uma investida final no qual tudo pode acontecer, sendo tenso do início ao fim. Conseguiu também dar desfechos bastante digno e satisfatório aos personagens da série, algo que pode parecer o mínimo, mas nem sempre acontece. Isso, no entanto, não significa que todos tenham conseguido caminhar rumo ao pôr do sol e o desfecho de Reese foi simultaneamente trágico e belo. Além do tocante diálogo que ele e Harold trocam, dando a entender que ele seria deixado para trás e que Harold se sacrificaria, há a revelação de que o operativo e Máquina enganaram Harold. Isso ressalta a natureza altruísta de Reese, que sempre colocou a segurança e a vida dos outros na frente da própria e o fato dele se sacrificar pelo patrão e amigo é uma bela retribuição por toda relação que construíram juntos. Quando conhecemos Reese pela primeira vez ele estava prestes a se matar e foi Harold que o salvou de si mesmo, dando-lhe um novo propósito e fazendo-o lembrar que cada vida importa, assim faz todo o sentido que ele dê sua vida por Harold como retribuição.

Apesar da cena final deixar a possibilidade de novas aventuras e um dos últimos episódios já ter deixado claro que a Máquina tinha outros "times" à sua disposição, sinceramente torço para que a série encerre por aqui e não ganhe nenhum tipo de spin-off. Não porque tenho qualquer ressalva quanto à qualidade, mas porque seu desfecho é tão bem amarrado, pleno e poderoso que seria quase desrespeitoso diluir sua força ao tentar continuar essa história.

Ao longo dessa temporada (e da série como um todo) Person of Interest trouxe discussões interessantes sobre vigilância, liberdade de informação, democracia na era digital, ética científica e sobre a natureza humana. À despeito de toda sua ambientação futurista e tecnológica é, em seu cerne, um produto que tenta compreender o que nos faz verdadeiramente humanos, o que nos dá essa enorme capacidade para o bem ou para mal e sua conclusão é bastante humanista ao lembrar que não é nossa inteligência, não é todo o nosso conhecimento acumulado que nos torna diferente de outras espécies. São nossas emoções, nossa capacidade de odiar, de amar, de sentir dor, de sentir compaixão é o que nos impele a buscar mais, a ser mais. É a base do nosso potencial e negar isso é desistir da humanidade não apenas enquanto conceito, mas enquanto espécie.

Se comecei esse texto com uma citação, permitam-me terminar com outra, esta não da série, mas uma de Charlie Chaplin. Em seu discurso final em O Grande Ditador, Chaplin diz: "Homens máquina tem mente de máquina e coração de máquina! Vocês não são máquinas, vocês não são gado, vocês são homens! Vocês tem o amor da humanidade em seus corações!"

Essas palavras me remetem diretamente ao episódio final da série, que nos lembra de nossa capacidade de nos conectarmos uns com outros, de sentirmos empatia, compaixão e, claro, amor é a fonte de tudo que há de bom em nós. Tanto que até mesmo uma máquina, uma entidade artificial, consegue aprender e crescer ao observar essas qualidades em nós e a cena final, com seu pequeno quadrado aparecendo no rosto de cada pessoa observada é o símbolo desse aprendizado de que cada vida importa.

A temporada final de Person of Interest, a despeito de alguns pequenos tropeços, é um agridoce e poderoso desfecho para uma ótima série que consistentemente trouxe reflexões sobre nosso modo de vida, nossa sociedade e como nos relacionamos uns com os outros.


Nota: 9/10

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