terça-feira, 15 de março de 2016

Crítica - Ressurreição



Toda época de Páscoa sempre chega aos cinemas alguma nova versão do calvário de Jesus Cristo para tentar arrecadar alguns trocados do público que está no espírito do feriado e um dos exemplares deste ano é Ressurreição, que até tenta trazer algo novo a esta história conhecida ao centrar sua narrativa em um oficial romano, mas tropeça em vários problemas que o impedem de funcionar.

Acompanhamos Clavius (Joseph Fiennes), um oficial romano destacado por Pôncio Pilatos (Peter Firth) para descobrir o que aconteceu com o corpo de Yeshua (Cliff Curtis), crucificado por ser um agitador e considerados por muitos o messias, que desapareceu de sua tumba lacrada. Sim, o diretor e roteirista Kevin Reynolds decidiu transformar uma das histórias mais conhecidas do mundo ocidental em uma narrativa policial no padrão "mistério do quarto fechado" e, bem, é claro que isso não funciona.

Como praticamente todo mundo que entrará no cinema para ver esse filme já está de algum modo familiarizado com a narrativa sobre a morte e ressurreição de Cristo, então toda a investigação de Clavius fica esvaziada de mistério, tensão, suspense ou incerteza, pois todo mundo sabe exatamente o que está ao fim do percurso. Mais que isso, o modo como o filme conduz tudo isso torna tudo ainda mais enfadonho ao colocar o protagonista para interrogar bêbados e moradores de rua que não trazem qualquer informação útil a sua investigação ou ao público, além de serem interpretados com tanto exagero (há uma cena com um soldado embriagado que parece o Tonho da Lua) que se tornam caricaturas aborrecidas. Deste modo, toda a primeira metade do filme soa como um inócuo teste de paciência enquanto vemos o filme preencher o tempo enquanto atrasa uma revelação que todos sabemos qual é.

A partir do momento que ele encontra Yeshua ressuscitado e seus discípulos, imaginei que o filme pudesse ganhar algum fôlego ao trabalhar as dúvidas e incertezas do soldado ao ser confrontado com algo claramente sobrenatural e metafísico, mas estava enganado. No instante que Clavius vê Yeshua ele imediatamente o aceita como messias e resolve acompanhar seus discípulos sem pensar duas vezes e não exibirá qualquer dúvida daí por diante, esvaziando qualquer possível conflito e sendo tão enfadonha quanto a primeira metade, já que apenas vemos os discípulos percorrendo o deserto buscando um novo contato com seu mestre.

A única coisa que salva o filme é o Yeshua de Cliff Curtis, cuja escalação por si só já é um grande acerto ao fugir do padrão de "homem branco de traços finos e olhos claros" que é normalmente usado para representar Jesus e que está bem distante de como ele possivelmente era. Para além da aparência, Curtis traz ao seu personagem uma presença forte, mas alentadora graças ao seu olhar sereno e sua voz carregada de compaixão. Os momentos em que ele aparece em cena são os únicos que me tiraram da apatia e tédio que senti durante o restante da projeção.

Joseph Fiennes faz o que pode para dar um mínimo de credibilidade a Clavius, mas é sabotado por um roteiro simplório que simplesmente não dá espaço para o personagem se desenvolver. O restante do elenco varia entre o apático, como acontece com a maioria dos discípulos, e o exagero, como as testemunhas, e faz pouco para nos engajar.

Apesar de sua tentativa de dar outro olhar a algo familiar, Ressurreição entrega apenas uma narrativa enfadonha e superficial que não chega nem perto de cumprir o que promete.

Nota: 4/10

Trailer:

2 comentários:

Karla P disse...

Na trama do filme, Fiennes interpreta Clavius um poderoso militar romano que recebem a missão de desvendar o mistério sobre o que aconteceu com Jesus nas semanas após a crucificação. Recentemente, Tom Felton apareceu no filme Risen, que é uma espécie de sequela do "Paixão de Cristo". Eu não sou um fã deste gênero de filme, mas eu gostei da perspectiva ateísta com uma estrutura narrativa realizada da maneira mais respeitosa, honesta e real. Vale a pena vê-lo como ele é uma adaptação do que acontece depois que Jesus ressuscita.

Lucas Ravazzano disse...

Que bom que você gostou Karla, mas me parece um filme que tem muito pouco à acrescentar a uma história já contada exaustivamente, mesmo toda essa perspectiva do soldado romano que questiona tudo ao ter contato com o Cristo já tinha sido melhor explorada em filmes como Quo Vadis (1951), O Manto Sagrado (1953) e mais uma penca de outros.