quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Crítica – O Lobo de Wall Street

A recente crise econômica dos Estados Unidos motivou muitas séries e filmes a se debruçarem sobre o universo e quais as possíveis fatores responsáveis por fazerem a economia do país estourar feito uma bolha de sabão enquanto o cidadão médio tinha certeza de que tudo estava indo bem. Diante disso, havia certo temor de este O Lobo de Wall Street com suas intimidadoras três horas de duração pudesse ser um grande embuste que não fosse nada além de uma versão do Scorsese de Wall Street: Poder e Cobiça (1987) de Oliver Stone. Mas a verdade é que o veterano Scorsese não é alguém que deva ser subestimado e seu O Lobo de Wall Street é um retrato vibrante, enérgico e debochado dos bastidores do mundo financeiro com um vigor, uma energia e uma completa falta de noção que fazem o Gordon Gekko (Michael Douglas) do filme de Oliver Stone parecer um escoteiro perto da insana e delirante falta de escrúpulo de Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) e seus sócios. Chega a ser impressionante que Martin Scorsese, no alto de seus 71 anos, consiga fazer uma obra tão enérgica, juvenil, demente e porra-louca.
O filme conta a história real do corretor da bolsa de valores Jordan Belfort, que começou a trabalhar em um grande escritório de corretagem, mas logo abriu sua própria firma ao descobrir o quanto podia ganhar negociando ações de baixíssimo valor que não entravam nos índices do pregão e ofereciam comissão mais alta. Claro, suas atividades não eram completamente dentro da lei e logo o crescimento de sua empresa chama atenção do agente do FBI Patrick Denham (Kyle Chandler), ao mesmo tempo em que Belfort precisa lidar com seu crescente vício em drogas e com os problemas em seus relacionamentos.

O universo de Wall Street é retratado no filme como um ambiente insano, cheio de pessoas esbravejando o tempo todo em toda a sorte de palavrões como que tomados por uma espécie de frenesi incontrolável como se estivéssemos diante de alguma espécie de culto ou seita bizarra e não dentro de uma empresa e seu funcionamento cotidiano, os corretores comportam-se como adolescentes que acabaram de entrar na puberdade e começaram a descobrir os palavrões, as drogas e o sexo, xingando, transando e usando todo tipo de substância o tempo todo.
De início o filme já deixa clara a motivação daqueles corretores em uma cena entre Belfort e seu chefe, Mark Hanna (Matthew McConaughey), no qual Hanna explica para um iniciante e pasmo Belfort que a função de um corretor não é angariar investimentos para as empresas de capital aberto ou ajudar seus clientes a ganhar dinheiro, mas para ganhar dinheiro para si mesmo, não importa se precisarem obrigar seus clientes a continuarem investindo, dando-lhes a ilusão de riqueza enquanto tudo que possuem em ações não é real e os corretores ficam com o dinheiro de verdade. A participação de McConaughey é pequena, mas essencial para definir o rumo do protagonista, que parte então em sua jornada de enriquecimento a qualquer preço, movida a cocaína e outras drogas.
A trama se desenvolve toda a partir do ponto de vista do protagonista, que narra tudo em primeira pessoa e até se dirige diretamente ao público, quebrando a “quarta parede” e permitindo que ele exiba por completo sua personalidade (e até seus delírios) ao público. O recurso ajuda a perceber a mentalidade imatura, egocêntrica e egoísta do personagem, percebemos isso quando ele termina com sua primeira esposa e diz: “Isso me deixou muito triste. Três dias depois coloquei a Naomi (Margot Robbie) para morar comigo”, denunciando como ele pouco se importava com a presença da esposa em sua vida. O mesmo acontece quando a tia de Naomi morre e ao invés de dar atenção aos sentimentos da esposa ele apenas se importa se vai ou não perder os milhões que lavou em nome dela. O uso dos pensamentos dele também permite algumas hilárias “discussões mentais” como acontece na cena entre ele e um banqueiro suíço (Jean Dujardin) ou entre a tia de Naomi.
Além da voz do personagem, as imagens também parecem estar subordinadas ao olhar do personagem, algo que fica evidente na surreal cena da “paralisia cerebral”, na qual Jordan se arrasta para fora de umcountry club ao tomar uma dose massiva de drogas e tudo discorre de uma maneira tão absurda e inacreditável que o filme precisa voltar a cena e nos revelar o que de fato ocorreu. Percebemos isso na engraçadíssima montagem alternada que contrapõe o ato de Jordan cheirar cocaína com imagens do desenho animado do Popeye comendo seu espinafre, revelando o que a droga significa para o corretor. Claro que nada disso valeria sem uma performance impressionante de Leonardo DiCaprio, que capta com bastante competência as diversas facetas de Belfort, do exímio vendedor ao drogado paranoico, vivendo com total entrega mesmo seus instantes mais patéticos, nunca permitindo que deixemos de crer na verossimilhança do personagem ou que o vejamos como uma mera caricatura.
Os recursos da linguagem do cinema são usados pelo filme para nos colocar dentro do estado mental do personagem, investindo numa edição rápida e uma câmera que se movimenta constantemente pelos ambientes, uma fotografia que usa bastante cores quentes e saturadas, além de uma trilha sonora recheada de canções de pop e rock bastante potentes, como se quisesse nos fazer sentir o estupor enérgico e louco daqueles personagens que se comportam como neandertais em festas dignas de um Calígula, muitas delas dentro do próprio escritório, não parando de trabalhar, de festejar e de fazer coisas absurdas enquanto vivem aquilo que acreditam ser o “sonho americano”.
Sonho este que, na visão destas pessoas, consiste basicamente em agir de maneira desmesuradamente gananciosa e inescrupulosa, aproveitando qualquer oportunidade de acumular riqueza independente da legalidade, não se importar com ninguém além de si mesmo e na crença que o dinheiro é capaz de suprir toda e qualquer necessidade, transformando aqueles que os tem em sujeitos que estão acima de qualquer norma ou leis e os permite fazer qualquer tipo de bizarrice que suas mentes permitirem. Um pensamento que o filme faz questão de revelar que não está apenas nas altas classes e nos ricos corretores, mas também na classe média trabalhadora que almeja este estilo de vida extravagante, absurdo e cartunesco, tornando-os vítimas perfeitas de golpes financeiros, como os que Jordan comete em sua corretora, e de gurus de autoajuda com suas frases de efeito, conforme vemos na cena que encerra o filme com Jordan apresentando sua palestra diante de uma plateia cujos olham brilham diante da possibilidade de se tornar tão rico quanto ele.
No fim das contas o filme parece nos dizer que não é a ganância isolada dos operadores de bolsa e outros recursos especulativos a responsável pelas crises, mas a ganância conjunta de uma sociedade que entrega de voluntariamente e de bandeja todos os meios e recursos para que essas pessoas concretizem e imponham seus ideais de consumo.
Com uma energia que faz às três horas de projeção passarem sem que se sinta, O Lobo de Wall Street é uma vigorosa e ácida crítica à cultura do consumo e do enriquecimento a qualquer custo, apostando no deboche e no humor para expor o quão ridículas são essas pessoas que se julgam senhores do universo.
Nota: 10/10

Um comentário:

Luciana Costa disse...

O lobo de Wall Street é interessante, não? Também achei uma excelente produção. O elenco fez um excelente trabalho no filme. Matthew McConaughey esta impecável no filme, ele sempre surpreende com os seus papeis, pois se mete de cabeça nas suas atuações e contagia profundamente a todos com as suas emoções. Adoro porque sua atuação não é forçada em absoluto. Seguramente o êxito de filmes de Matthew McConaughey deve-se a auas expressões faciais, movimentos, a maneira como chora, ri, ama, tudo parece puramente genuíno. Este ator nos deixa outro projeto de qualidade, de todas as suas filmografias essa é a que eu mais gostei, acho que deve ser a grande variedade de talentos. É uma produção espetacular, desfrutei muito.