segunda-feira, 12 de junho de 2023

Crítica – Bem-Vindos de Novo

 

Análise Crítica – Bem-Vindos de Novo

Review – Bem-Vindos de Novo
Assistindo o documentário Bem-Vindos de Novo, dirigido por Marcos Yoshi, de certa forma me remeteu a Os Dias Com Ele (2013), de Maria Clara Escobar, no sentido que ambas são produções que usam a estrutura documental como um meio de resgatar memórias e empreender uma tentativa de se reaproximar de pais com quem os realizadores tiveram pouco convívio. Claro, o filme de Marcos Yoshi não é só isso, refletindo também sobre os movimentos migratórios pendulares de nipo-descendentes no Brasil e a situação político-econômica do país.

A trama tem como ponto de partida a migração dos pais do diretor para o Japão a trabalho no final da década de 1990. Inicialmente os pais de Marcos, eles próprios descendentes de imigrantes japoneses que vieram para o Brasil no início do século XX, ficariam no Japão por dois anos para juntar dinheiro, mas esses dois anos logo se transformaram em mais de uma década. Quando os pais dele retornam, mal reconhecem os filhos ou as transformações no país e o diretor começa a construir o filme como uma maneira de se reaproximar deles.

Utilizando entrevistas e imagens de arquivo, interessa ao filme menos o factual ou a cronologia dos eventos e mais os sentimentos e a relação que essas memórias despertam no diretor e em suas irmãs. Tanto é que a narrativa vai e volta no tempo, mais interessada no fluxo de consciência que essas memórias percorrem no imaginário dos envolvidos, nos sentimentos que elas despertam e como elas nos informam dessa tentativa de reconstruir a relação com os pais.

Ao falar sobre a história dos pais, o filme também resgata os movimentos migratórios de outras gerações da família, ponderando sobre essa movimentação pendular de saída e retorno ao Japão e como isso impactou diferentes gerações de sua família. É uma reflexão que nos lembra como filhos de migrantes sempre tem uma relação diferente dos pais com a nação em que moram e como os planos e anseios de cada geração se transformam, mas não deixam de ser um reflexo do que veio antes.

A relação com os pais do diretor, os distanciamentos e aproximações são mostrados tanto através de imagens de arquivo, com os personagens muitas vezes narrando os sentimentos que essas imagens evocam em si, bem como imagens do cotidiano de Marcos com pais. Durante os registros do cotidiano o diretor permite também que vejamos o que acontecia por trás das câmeras, como as direções que ele dá aos pais de como entrar na garagem antes de começar a filmar, discussões que ocorrem à distância ou imagens do pai lendo cartelas com o texto da narração que ele faz de fotos do período no Japão, evidenciando como aquele é um depoimento preparado e não plenamente espontâneo.

Esses momentos em que o filme nos revela o dispositivo refletem não só a natureza construída da representação documental em si (algo que Os Dias com Ele também fez), mas também as fissuras nessa relação que tenta se apresentar como uma tentativa de aproximação, mas ainda é muito marcada pelas distâncias que os anos estabeleceram entre eles. Isso fica muito evidente pelos longos silêncios em conversas que o filme nos deixa experimentar sem cortes talvez numa tentativa de nos fazer ver a falta de familiaridade entre aquelas pessoas e como, apesar de tudo, ainda existem distâncias e vazios entre eles que não foram plenamente preenchidos.

Partindo de uma jornada por memórias, Bem-Vindos de Novo entrega uma jornada afetiva sobre conflitos geracionais, refletindo sobre movimentos migratórios e a natureza representativa do documentário ao longo do seu fluxo de consciência.

 

Nota: 8/10


Trailer

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