sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Rapsódias Revisitadas – Questão de Honra

 Crítica – Questão de Honra


Review – Questão de Honra
Confesso que até hoje nunca tinha assistido Questão de Honra, originalmente lançado em 1992, apesar da clássica cena do interrogatório entre Tom Cruise e Jack Nicholson já ter sido citada e parodiada à exaustão. Tampouco sabia que o texto fora escrito por Aaron Sorkin, baseado numa peça escrita por ele mesmo. O texto é, de fato, marcado pelos diálogos ágeis de Sorkin e é também uma ponderação sobre o papel dos militares, o que significa honra e a banalidade do mal.

A trama é protagonizada pelo advogado da marinha Daniel Kaffee (Tom Cruise), inteligente, mas inexperiente no tribunal e mais disposto a fazer acordos do que ir a julgamento, Kaffee parece escolhido a dedo para encerrar o mais rápido possível o processo de dois soldados acusados de matar um colega de farda na base de Guantánamo em Cuba. A tenente Joanne Calloway (Demi Moore), que lidera a corregedoria das forças armadas, desconfia que a ação não foi dos dois soldados, mas dos superiores da base e pressiona Kaffee a investigar mais a fundo, principalmente por conta da conduta autoritária do coronel Jessep (Jack Nicholson), o responsável pela base.

O arco Kaffee não é apenas o de sair da sombra do pai, que faleceu anos antes e cujas expectativas ele nunca sentiu que conseguira cumprir, mas o que significa o dever de servir, o que é exatamente servir com honra. Para os dois soldados que defende, honra parece ser seguir ordens sem questionar, mas ao longo do filme Kaffee percebe que esse é um caminho para abusos de poder e da necessidade de agir com responsabilidade e colocar em xeque aqueles que excedem sua autoridade.

O julgamento ocupa boa parte do filme e há uma tensão palpável conforme os procedimentos se desenvolvem e Kaffee vê suas chances diminuírem conforme Jessep adultera provas e intimida testemunhas para manter sua versão de que os soldados agiram sozinhos. O oponente de Kaffee é promotor militar Jack Ross (Kevin Bacon), um advogado experiente no tribunal e tão esperto quanto o protagonista, criando um embate cheio de suspense por conta das constantes guinadas que eles conseguem dar nas estratégias um do outro. O texto acerta em nunca reduzir Ross a um mero vilão, mas um sujeito duro, que acredita no que faz e acredita em um exército ético, alguém que fundamentalmente pensa como Kaffee ou Calloway, ainda que esteja em um lado oposto.

Apesar de aparecer pouco, Jack Nicholson devora o cenário (falo isso como um elogio) toda vez que entra em cena como Jessep. O ator dá ao coronel uma autoridade imponente e segura ao mesmo tempo dotado de um ar de superioridade moral com a qual ele se acha capaz de justificar qualquer ação. Jessep é um sujeito agressivo, ardiloso, com visões de mundo retrógradas e tão confiante em seu próprio poder que não vê problema em exibir seu machismo para Calloway diante de uma mesa cheia de outros oficiais (e ao fazer isso ele tenta demonstrar que não está intimidado pela corregedora).

O embate entre Jessep e Kaffee ao final é digno de todas as citações que teve até hoje, com Cruise e Nicholson demonstrando o desprezo que seus personagens sentem um pelo outro e o modo como Kaffee inteligentemente provoca o ego de Jessep até ele confessar. O coronel é fechado em suas crenças que sequer consegue entender a decisão do juiz e da promotoria em prendê-lo, já que na mente dele não há nada de errado em matar um soldado que ele não julga digno do serviço.

O julgamento também põe em questão argumentos sobre a banalidade do mal, já que os soldados justificam a ação como um mero cumprimento de ordem e que naquela base não se poderia desobedecer ordens de superiores. A ideia de uma hierarquia burocrática no qual sempre tem alguém acima e as ordens serem tratadas como um dogma inquestionável torna fácil que abusos e ações desumanas ocorram, já que tudo é reduzido ao mero cumprimento de ordens sem que as pessoas façam um julgamento sobre a correção moral dessas ordens. Nesse sentido, o desfecho deixa evidente que agir com retidão é mais importante do que meramente obedecer, tanto que os acusados se mostram surpresos quando são considerados culpados por quebra de decoro, já que na cabeça deles, quebra de decoro seria descumprir ordens, quando, na realidade, ações cruéis, desumanas e antiética é que são incompatíveis com a posição de responsabilidade ocupada pelas forças armadas.

Com um elenco consistente, texto afiado e uma competente construção de intriga, Questão de Honra consegue funcionar muito bem mesmo décadas depois de seu lançamento.


Trailer

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