sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Crítica – Bojack Horseman: 6ª Temporada


Análise Crítica – Bojack Horseman: 6ª Temporada


Review – Bojack Horseman: 6ª Temporada
Depois de chegar em seu ponto mais baixo na quinta temporada, a sexta e última temporada de Bojack Horseman inicia com a tentativa do protagonista em corrigir seus erros do passado e tratar sua dependência de drogas. É uma temporada coerente com o espírito da série e o exame sincero que seu texto faz em pessoas marcadas por traumas e problemas psicológicos, muitas vezes usando do humor e do absurdo para falar de situações bem reais. A partir desse ponto, o texto pode conter SPOILERS da temporada final.

Na primeira metade da temporada acompanhamos a dificuldade de Bojack em se manter sóbrio e percebemos como seus vícios emergem de questões passadas mal resolvidas, em especial de todos os comprometimentos morais que fez para se manter em seu seriado de sucesso e a culpa que carrega por ter sido a pessoa que introduziu Sarah Lynn às drogas. Durante o percurso dele vai se construindo a impressão de que o complexo de culpa pela morte de Sarah Lynn e como ele viveu sua vida impune aos erros que cometeu tem uma relação direta com os vícios do personagem

Esses erros e condutas escusas vem a público justamente na segunda metade da temporada, quando Bojack percebe que se manter sóbrio não é tão simples quanto parece e que ter seu pior lado exposto tão publicamente pode alienar as pessoas de sua vida. Essa exposição pública também serve para mostrar como a sociedade e o jornalismo lidam com homens abusivos que ocupam posições privilegiadas. Isso fica evidente na primeira entrevista dada por Bojack depois que é publicada a relação dele com a morte de Sarah Lynn. A repórter simplesmente permite que ele se coloque em posição de vítima e que todo um passado de padrões de abuso sejam resolvidos com um mero pedido de desculpas.

Como de costume, a série evita julgamentos ou maniqueísmos simplórios, mostrando que tanto Bojack quanto as pessoas que o rechaçam tem motivações compreensíveis (ainda que no caso de Bojack nem sempre sejam moralmente justificáveis) para agir do jeito que agem e talvez seja esse senso palpável de causa e consequência que torne tudo tão doído. O melhor exemplo é o modo abrupto com o qual o protagonista é cortado da vida de Hollyhock (Aparna Nancherla).

A ficção muitas vezes tende a operar de um jeito diferente da realidade, explicando e amarrando tudo de um jeito que não acontece na vida real. Aqui, no entanto, não há muita explicação, não há uma ponta solta sendo amarrado, nunca sabemos de maneira explícita as razões dela ou o conteúdo da carta. Como na vida real, muito fica em aberto, não resolvido e essa secura torna o evento dolorosamente real e justifica a espiral autodestrutiva de Bojack, afinal a irmã era talvez a principal razão dele se manter sóbrio.

Os outros personagens também são confrontados com seus próprios problemas ou imaturidade, seja Todd (Aaron Paul) tentando mostrar aos pais que é adulto, Princess Carolyn (Amy Sedaris) precisando descobrir o que quer para si mesma agora que atingiu o sucesso profissional ou Diane (Alison Brie) enfrentando seus problemas com a depressão. Assim como em outras temporadas, alguns episódios adotam estruturas diferentes para tentar nos deixar imersos no universo mental de seus personagens a exemplo do episódio que insere rabiscos para mostrar como os medicamentos antidepressivos afetam o processo mental de Diane ou o penúltimo episódio que se passa nos pensamentos aparentemente aleatórios da consciência de Bojack tentando mantê-lo vivo.

O episódio final evidencia não só as transformações que os personagens experimentaram ao longo dos seis anos da série e o quanto se tornaram conscientes de si mesmos ao mesmo tempo em que deixa muito aberto, sem soluções rápidas para os problemas dele. Diante de tudo que a série construiu até aqui seria desonesto que Bojack ou Diane simplesmente tivessem algum tipo de epifania que facilmente fizesse seus problemas psicológicos desaparecerem e tudo desse certo para eles.

Ao invés disso a série nos deixa com uma conversa bem sincera entre esses dois personagens nas quais admitem suas falhas um com o outro e o quanto foram importantes para a jornada um do outro. Talvez o elemento mais significativo seja o longo silêncio, com ambos demonstrando o quanto estão confortáveis consigo mesmos e um com o outro ao ponto de não precisarem dizer mais nada, apenas vivendo o momento. Se a vida deles irá melhorar ou piorar depois disso, se Bojack irá reconstruir a carreira ou se irá se afundar ainda mais é tudo deixado em aberto, porque nada realmente se resolve, nenhum estado é permanente e os seres humanos (ou cavalos antropomórficos) estão em constante transformação.

A sexta temporada de Bojack Horseman é um desfecho coerente que nos lembra como o quanto somos criaturas falhas, não existem respostas simples e tudo que nos resta é tentar fazer nosso melhor com o tempo que nos é dado.

Nota: 10/10


Trailer

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