sexta-feira, 10 de maio de 2019

Lixo Extraordinário – Eu Sei Quem Me Matou

Análise Crítica - Eu Sei Quem Me Matou


Review - Eu Sei Quem Me Matou
Estrelado por Lindsay Lohan, Eu Sei Quem Me Matou (2007) é um dos maiores vencedores do Framboesa de Ouro, premiação que celebra os piores filmes, ao lado de porcarias como A Reconquista (2000) e Cada Um Tem a Gêmea Que Merece (2011). Na verdade, Eu Sei Quem Me Matou superou o recorde de sete "prêmios" de A Reconquista, vencendo oito Framboesas.

A trama acompanha Audrey (Lindsay Lohan), uma jovem pianista e escritora com uma carreira promissora pela frente. Tudo muda quando Audrey é misteriosamente sequestrada por um serial killer que está mutilando mulheres na cidade. Audrey é aparentemente encontrada dias depois, caída no meio da estrada sem um braço e uma perna. Acordando no hospital, no entanto, a garota diz não ser Audrey, mas uma stripper chamada Dakota. Como os exames de DNA são iguais aos de Audrey e a polícia encontra contos no computador de Audrey com uma personagem com esse nome, a polícia simplesmente supõe que Dakota é uma personalidade alternativa criada por Audrey para lidar com o trauma, mas Dakota vai demonstrando ser muito mais que isso.


Como a maioria dos filmes desgraçadamente ruins, Eu Sei Quem Me Matou é cheio de cenas despropositadas e sem sentido que não servem a propósito algum. Um exemplo é uma cena no início quando Aubrey chega em casa e um estranho jardineiro está cuidando do gramado. Assim que Aubrey salta do carro, o jardineiro olha para ela com lascívia, posicionando um galho na frente das calças, simbolizando o que imagino ser seu pênis ereto de tesão por Audrey, que, por sua vez, rejeita os “avanços” do sujeito. É uma cena que parece inteira saída de algum pornô tosco e se por si só ela já é ridícula, fica ainda mais quando percebemos que nada disso terá impacto ou significado algum para a trama.

Na verdade, há uma quantidade considerável de cenas sensuais ou de sexo que não servem a muito propósito. Quando Dakota acorda no hospital e começa a contar sua história aos agentes do FBI, vemos um longuíssimo flasback dela fazendo strip-tease em uma boate e a cena parece nunca ter fim, se estendendo mais que o necessário para dar contexto da vida de Dakota.

Do mesmo modo, há a estranha cena de sexo que acontece quando o namorado de Aubrey, Jerrod (Brian Geraghty), visita Dakota. Dakota diz não ser Aubrey, mas o namorado a beija mesmo assim e Dakota retribui, subindo com ele para o quarto. Os dois começam a transar vigorosamente enquanto a montagem corta para a mãe de Aubrey na cozinha ouvindo todo o som da transa. Em nenhum momento fica claro o propósito da cena. Era para ser sensual? Era para ser engraçado? Ela serve para quê no sentido de construir personagens ou avançar a trama?

A resposta é que eu não senti nada além de constrangimento por todos os envolvidos. Considerando que o filme é de 2007 e a carreira de Lohan ainda não tinha saído completamente dos trilhos, imagino que todas essas cenas de Lohan tirando a roupa existem só para mostrar como a jovem atriz amadureceu e está pronta para papeis mais “adultos”, tentando afastá-la da imagem de queridinha adolescente que ela cultivou durante anos. A questão é que a maioria dessas cenas soa gratuita ou ridícula ao invés de um veículo consistente para mostrar o alcance de Lohan como atriz.

Outra coisa que parece não servir a propósito algum é o fato do filme constantemente destacar as cores azul e vermelha nos cenários e figurinos. São cores que aparecem chamando bastante atenção para si, marcando principalmente Aubrey (azul) e Dakota (vermelho) e é de se imaginar que o filme usará essas escolhas para dizer alguma coisa interessante. A questão é que nada desse uso de cor que berra ao espectador o tempo todo “ME NOTE!” não serve para coisa alguma além de ser um cacoete estilístico despropositado, tal como a decisão de filmar todo A Reconquista com planos holandeses. Talvez o azul pudesse ser usado como um indicativo de quem é o culpado, já que o assassino usa ferramentas azuis, mas como a cor aparece em absolutamente todo lugar e em todos os personagens, é impossível que a cor cumpra esse propósito.

O mistério em si também não é lá empolgante ou esperto, apesar do filme ser conduzido com a extrema certeza de que cada reviravolta fará a cabeça do espectador explodir. Sim, a premissa até poderia render um bom thriller psicológico, mas as decisões de como conduzir o desenvolvimento e desenlace da investigação são as mais estúpidas possíveis.

Em uma cena Dakota pede a Jerrod que a leve para a casa da primeira vítima do serial killer que capturou Aubrey, uma garota, Jennifer Toland, que era colega de escola de Jerrod e Aubrey. Chegando na casa, Dakota pede para ver o quarto da garota, o que não parece fazer muito sentido. Afinal, ela clama não ser Aubrey (e posteriormente descobriremos que ela não é), então ela não conhece essa garota, nem esteve cativa do assassino, então como Dakota saberia o que procurar ou o que investigar, portanto a cena inteira é dramaturgicamente errada e despropositada.

Isso começa a ficar evidente na cena em que Dakota finalmente resolve explicar como ela perdeu seu braço e perna para que todos entendam que ela não é Aubrey e, diferente de Aubrey, não foi capturada por nenhum serial killer. A explicação de Dakota é que um dia seu braço e perna simplesmente começaram a sangrar e caíram do nada. Se isso soa estúpido, esperem até o filme tentar relacionar a história de Dakota com a de Aubrey.

Dakota começa a ter visões envolvendo Aubrey, como se elas tivessem algum elo telepático. As visões em si soam equivocadas por serem mostradas em terceira pessoa, pois se Dakota está vendo o que Aubrey vivenciou essas visões não deveriam estar em primeira pessoa? De algum modo as visões deixam Dakota convencida de que ela e Aubrey são gêmeas e que o fato do braço e perna de Dakota terem caído gratuitamente se deu por Dakota e Aubrey serem gêmeas stigmatas. “O que é isso?”, você me pergunta. Bem, sabe a noção de que uma gêmea sente o que a outra sente? Então, a ideia de gêmeas stigmatas é isso levado ao extremo da estultice, no qual as gêmeas efetivamente sofrem os mesmos ferimentos uma da outra. Assim, os membros de Dakota caíram “do nada”, porque o assassino provavelmente estava cortando os membros de Aubrey naquele momento, com a protagonista ainda estando em cativeiro.

A maneira como Dakota conclui o fato de ser gêmea e que o pai de Aubrey comprou Aubrey ainda bebê da mãe de Dakota (que era mãe das duas), não segue qualquer elo lógico de causa ou consequência. Dakota conclui tudo que falei no período anterior simplesmente por lembrar dos envelopes com dinheiro que a mãe recebia com selo da cidade de Aubrey. Sim, só isso, a partir de um selo postal Dakota resolve concluir que a mãe vendeu a irmã gêmea dela, sendo que a premissa e a conclusão mal se relacionam, fazendo a trama recorrer a um non sequitur bizarro para explicar a relação das duas personagens.

As mesmas conclusões inconsequentes surgem quando Dakota, já ciente de que ela e Aubrey são gêmeas, decide encontrar a irmã. Ela vai ao túmulo de Jennifer, a primeira vítima, e encontra uma faixa azul assinada por um sujeito chamado Douglas e conclui que esse deve ser o assassino. Como ela chegou a essa conclusão? A faixa poderia ser de um parente, de um amigo ou de uma pessoa qualquer já que o sumiço da garota foi noticiado pela imprensa e causou comoção na cidade. Seria menos problemático se fosse uma pista falsa, se Dakota estivesse equivocada, mas como a trama mostra que a conclusão dela foi correta, a maneira pela qual o assassino é descoberto não faz nenhum sentido. Narrativas investigativas costumam ser baseadas em raciocínio lógico-dedutivo, mas as deduções de Dakota não tem lógica alguma.

Douglas, por sinal, é o nome do professor de piano de Aubrey, então Dakota e o pai de Aubrey vão sozinhos à casa do professor, o que soa como uma decisão estúpida considerando que os dois acham que o sujeito é um serial killer sádico (e ele é). Não seria melhor ter avisado o FBI? Por outro lado, talvez os personagens sejam conscientes da maneira inconsequente pela qual deduziram a identidade do assassino e que o FBI não acreditaria nelas e se o filme tivesse mostrado isso tornaria crível a decisão dos personagens de confrontarem o assassino sozinhos, mas do jeito que está é só sem noção mesmo.

Obviamente Dakota enfrenta o assassino e resgata Aubrey, que tinha sido enterrada viva em um caixão azul. Esse deveria ser o momento do arremate, no qual o filme explicaria as motivações do assassino e a escolha dos seus métodos, mas não, nada acontece. Sim, podemos supor que ele quis “punir” Aubrey por querer desistir de estudar piano, mas se esse é o caso, porque cortar a perna dela? A mão é compreensível, já que a maioria das peças para piano requer duas mãos, mas e a perna? Ou porque não matar logo Aubrey? Porque enterrar viva em um caixão azul de vidro? Tudo isso soa desmotivado e escolhido à esmo, só porque os realizadores acharam que seria visualmente interessante e não porque faziam sentido para a personalidade e conduta do assassino.

Eu Sei Quem Me Matou tem uma premissa que até poderia render um thriller razoável, mas é tudo tão estúpido, gratuito e incoerente que é impossível encontrar qualquer nível de tensão ou suspense em uma trama tão porcamente construída.


Trailer

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