quarta-feira, 29 de maio de 2019

Crítica – Dilema: 1ª Temporada


Análise Crítica – Dilema: 1ª Temporada


Review – Dilema: 1ª Temporada
Fiquei curioso quando vi o anúncio deste Dilema. Um melodrama escrito por Mike Kelley, criador de Revenge, e estrelado por Renée Zellweger soava como a promessa de um novelão cheio de excessos e diversão como foram as duas primeiras temporadas de Revenge (que foi ladeira abaixo a partir da terceira, quando Kelley deixou a série). O produto final, no entanto, carece do senso de intriga, exagero e diversão que tornava Revenge tão legal de assistir.

A série acompanha Lisa (Jane Levy), uma jovem empreendedora do ramo biomédico que está em busca de financiamento para sua empresa conseguir lançar um tratamento revolucionário. Todos os possíveis investidores fecham as portas para Lisa, mas quando tudo parece caminhar para a sua falência, ela é abordada pela misteriosa Anne (Renée Zellweger), uma poderosa investidora que faz uma proposta pouco usual para Lisa. Anne diz que irá financiar por completo a empresa de Lisa, mas em troca irá querer passar uma noite com o marido dela, Sean (Blake Jenner), e os obriga assinar um contrato de que Sean não poderá falar nada a Lisa sobre a noite passada com Anne, caso contrário Anne tomará controle da empresa de Lisa.


Só pela premissa já dá para perceber que a história é algo bastante folhetinesco e Dilema, tal como Revenge, tem plena ciência disso. A série não tem nenhuma vergonha em se assumir como cafona, exagerada e absurda, ela entende sua própria natureza de entretenimento escapista e o fato de que a maioria das pessoas que se dispõe a assistir algo assim espera ver intrigas e barracos de gente rica. Tal como Revenge imaginei que Dilema seria capaz de usar sua breguice em seu favor, mas não é isso que acontece.

O arco principal envolvendo Anne e Lisa conta com uma boa dose de mistérios e intrigas, mas boa parte do problema reside nos núcleos secundários formados pelos amigos e parentes de Anne. Esses arcos envolvem essencialmente traições conjugais que nunca conseguem envolver e soam redundantes diante do arco principal, já que apenas repetem os mesmos temas de escolhas e consequências, além de não terem praticamente nenhum impacto com conexão com a trama principal, fazendo tudo parecer uma perda de tempo. Personagens como Angela (Samantha Marie Ware) e Marcos (Juan Castano) soam vazios e desinteressantes e seus conflitos conjugais soam banais demais frente as intrigas corporativas com milhões em jogo de Lisa e Anne.

A equipe criativa parece perceber isso e na segunda temporada tenta movimentar mais essas subtramas, mas passam tanto do ponto do exagero que fica difícil se importar com qualquer coisa. A trama de Angela, por exemplo, transforma o amante (e chefe dela) em um psicopata torturador sádico que captura Angela e o marido e os põe em um cativeiro para submetê-los a tormentos físicos e psicológicos. Todo esse segmento destoa do restante da série e mais parece um Jogos Mortais de quinta categoria.

Não ajuda que mesmo na trama principal os personagens são cheios de incoerências, mudando de conduta quando convém ao roteiro. No início, Lisa vê Anne como uma ameaça potencial e pede à amiga, Cassidy (Daniella Pineda), que investigue a investidora. No entanto, assim que Lisa vê o tratamento de sua empresa aprovado pelos órgãos do governo (algo que dependeu exclusivamente do trabalho da própria Lisa), passa a tratar Anne como melhor amiga e até tenta subornar Cassidy para encerrar sua investigação, mesmo sabendo que Cassidy teve a reputação destruída por Anne.

O mesmo pode ser dito da conduta de Sean, que passa a temporada quase toda tentando esconder um crime do passado, cedendo a chantagens e fazendo qualquer coisa para manter o segredo. Porém, basta uma conversa com Foster (Louis Herthum), o principal capanga de Anne (portanto é um sujeito ligado a alguém que Sean sabe que quer prejudicá-lo), sobre o valor catártico de se libertar do peso de um segredo que Sean corre para uma delegacia para confessar seu crime e ser preso sem sequer tentar justificar uma ação que facilmente poderia ser enquadrada como legítima defesa.

Zellweger é a melhor coisa da série, construindo Anne como uma mulher fatal, manipuladora e que sempre tem segundas intenções em tudo que faz. A atriz também nos deixa perceber como toda a dureza da personagem esconde uma grande vulnerabilidade interna e traumas não remediados. Zellweger compreende bem a natureza excessivamente melodramática do material e devora o cenário com uma alegria maléfica, embarcando com os dois pés na persona de vilã de novela. É uma pena, portanto, que o texto não consiga aproveitar todo o potencial da personagem, diluindo ela em meio a um monte de subtramas inúteis, já que quando o material aposta em Anne, como na revelação que ela faz a Lisa no penúltimo episódio, digna de um novelão mexicano, a coisa toda funciona muito bem e é bastante divertida.

Com um ritmo narrativo truncado, núcleos desinteressantes e personagens inconsistentes, nem Renée Zellweger consegue salvar Dilema de ser uma imensa decepção.

Nota: 4/10


Trailer

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