segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Crítica – BoJack Horseman: 5ª Temporada


Análise Crítica – BoJack Horseman: 5ª Temporada


Review – BoJack Horseman: 5ª Temporada
A quarta temporada de BoJack Horseman se tornou marcante ao explorar o traumático passado familiar do protagonista e no impacto negativo de relação dele com os pais. Esta quinta temporada, por sua vez, ganha força ao explorar como a conduta destrutiva de BoJack afeta todos ao redor dele e como até aqui a maioria dos personagens foi permissivo com as ações do protagonista.

A narrativa da temporada é centrada na nova série estrelada por BoJack (Will Arnett) na qual ele interpreta um policial durão, traumatizado e abusivo. Durante as gravações BoJack se envolve com Gina (Stephanie Beatriz, a Rosa de Brooklyn Nine Nine), sua co-estrela na série dentro da série. Diane (Alison Brie) participa como roteirista, Princess Carolyn (Amy Sedaris) é uma das produtoras e inexplicavelmente Todd (Aaron Paul) se torna um dos executivos da empresa de streaming responsável pela série protagonizada por BoJack. Assim, a trama consegue unir todos os personagens em um mesmo espaço, evitando a natureza fragmentada da temporada anterior.

A escolha de contar a produção de uma série dentro da série serve como veículo para comentar sobre o momento da produção televisiva dos EUA e a nova “era de ouro” na qual ela se encontra (ou Peak TV como dizem os veículos de lá), cheia de séries sombrias e pessimistas protagonizada por homens anti-heróis de comportamento questionável. Com isso, a quinta temporada zoa essa tendência televisiva de tratar tudo que é sisudo, violento e sexualizado como um sinônimo de conteúdo maduro, complexo ou de qualidade. Flip (Rami Malek), o showrunner da série dentro série, fica a todo momento dizendo coisas do tipo “a escuridão é uma metáfora para escuridão”, construindo um olhar irônico sobre como essa tendência da televisão virou um padrão repetido no piloto automático.

A série dentro da série também permite comentar sobre a masculinidade tóxica que permeia Hollywood (ou Hollywoo, no universo de BoJack Horseman) e como essa tendência televisiva de anti-heróis moralmente questionáveis servem para relativizar e atenuar a conduta abusiva dos seus protagonistas masculinos. É quase como se BoJack Horseman fizesse uma meta crítica, já ela própria é uma série sobre um homem que continua a receber segundas chances apesar de claramente continuar repetindo os mesmos padrões de comportamento. Em um dos últimos episódios da temporada Diane confronta Bojack sobre a conduta dele, fazendo um meta-comentário sobre como esse tipo de narrativa é mais cúmplice do que crítica do comportamento abusivo de seus protagonistas.

A ideia de que a série está mirando no machismo no meio do entretenimento fica clara no quarto episódio quando BoJack acidentalmente vira um “herói feminista” ao falar o óbvio na televisão (dizer que homens não devem estrangular mulheres) enquanto que Diane é tratada como “feminista mal amada” por denunciar o machismo e patriarcado da sociedade de maneira mais consistente e incisiva. O episódio mostra o duplo julgamento que há entre homens e mulheres.

Há um foco maior na jornada das personagens femininas. Na complicada jornada de Carolyn para tentar adotar uma criança e um episódio inteiro dedicado a ida de Diane ao Vietnã, trabalhando questões de nacionalidade e identidade. Não deixa de ser curioso que na busca por raízes, Diane apenas descobre o quanto não pertence àquele lugar e está desconectada daquela herança cultural ao mesmo tempo que percebe que nunca será plenamente tratada como alguém nascida nos Estados Unidos.

Isso não significa, no entanto, que BoJack fica em segundo plano. Na verdade, há um episódio inteiro no qual ele é o único personagem em cena. Em “Churros Grátis” vemos Bojack discursar em um funeral e o episódio permite que o personagem dê vazão a todos os seus sentimentos envolvendo sua péssima relação com os pais e o impacto negativo deles em sua vida. É impressionante como um episódio inteiro com um único personagem falando sem parar, quase como um podcast, consegue nos manter envolvidos durante toda a sua duração, mérito tanto do texto quanto da dublagem de Will Arnett.

Vários episódios da temporada jogam com diferentes estruturas narrativas, como o sétimo episódio, que é todo contado sob o ponto de vista de duas mulheres (dubladas por Issa Era e Wanda Sykes) que tiveram que trabalhar com Bojack, Diane, Todd e Carolyn, com as aparências dos personagens se alterando para acomodar o ponto de vista das narradoras. Já o oitavo episódio alterna entre várias festas de Dia das Bruxas em anos diferentes para mostrar como Mr. Peanutbutter (Paul F. Thompkins) repete as mesmas escolhas imaturas em seus diferentes relacionamentos.

Em sua quinta temporada, Bojack Horseman continua mostrando que é a melhor animação da televisão e uma das melhores séries, conseguindo oferecer risos altos e reflexões profundas com a mesma intensidade.

Nota: 9/10


Trailer

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