quinta-feira, 3 de maio de 2018

Crítica - God of War


Análise Crítica - God of War


Review - God of War
Eu joguei todos os games da franquia God of War lançados até aqui (sim, até os para PSP) e apesar de achar todos (em maior ou menor grau) games de ação bem divertidos, Kratos sempre me pareceu um protagonista bastante aborrecido. Se no primeiro jogo ele era meramente um sujeito com uma motivação clichê, no terceiro sua vingança cega o tornara um personagem insuportável de acompanhar, eu cheguei a demorar de terminar só porque não tinha paciência para os repetitivos rosnados de raiva, egoísmo e estupidez do personagem. Sim, o final o confrontava com as consequências de seu comportamento, mas até chegar lá, eram quase dez horas do personagem se comportando de maneira aborrecida. Pois este novo jogo da franquia, intitulado apenas God of War, finalmente consegue tornar Kratos um protagonista bem construído, complexo e interessante de acompanhar.

Funcionando simultaneamente como uma continuação e reboot, a trama coloca Kratos vivendo no reino dos deuses nórdicos. A história começa com a morte de Faye, a esposa de Kratos. O último desejo dela foi que Kratos e seu filho Atreus espalhassem suas cinzas no pico mais alto dos reinos. Kratos e Atreus tem uma relação distante e a jornada acaba expondo as tensões entre pai e filho.

Kratos ainda é um poderoso guerreiro e um sujeito bruto, mas agora tem uma postura menos impulsiva e relativamente melancólica, marcado pelos traumas do passado e todas as perdas que vivenciou. Apesar de ter encontrado um novo amor neste reino nórdico, ele claramente se sente deslocado e desconectado daquele lugar (sua esposa era a única conexão), algo evidenciado pela constante necessidade de ter Atreus traduzindo as diferentes línguas e escrituras do local.

Ele também tem certa dificuldade em ser um pai para seu filho. É evidente que. a seu modo, Kratos ama Atreus, mas sua vida de brutalidade e violência torna difícil que ele consiga se conectar com o garoto. O protagonista quer preparar o filho para as dificuldades que ele encontrará ao longo da vida, mas teme que Atreus trilhe o mesmo caminho que ele. Assim, Kratos deixou de ser um personagem unidimensional para se tornar um sujeito com dúvidas, anseios e contradições. Além de Kratos e Atreus, a narrativa também insere alguns coadjuvantes inesperadamente interessantes. Os ferreiros Brok e Sindri, bem como o sábio Mimir, inserem uma bem-vinda dose de humor que funcionam como um respiro a seriedade e drama que é a jornada de pai e filho da trama.

A partir do momento em que iniciamos o jogo, a câmera segue Kratos sem qualquer corte ou interrupção, como se estivéssemos acompanhando uma narrativa feita em um único plano-sequência (algo como o filme Birdman). O combate, as cenas da história, tudo acontece direto, sem transições, conferindo uma enorme fluidez à narrativa.

Eu imaginava que o jogo traria uma experiência bastante linear, tal qual os exemplares anteriores da franquia, mas me surpreendi ao me deparar com amplos espaços com muito a explorar e até ocasionais missões secundárias. Não chega a ser um jogo de mundo aberto como Horizon Zero Dawn, mas uma espécie de meio termo entre abertura e linearidade tal qual acontecia com Rise of the Tomb Rider que também apresentava algumas grandes áreas abertas que permitiam exploração. Há um senso de grandiosidade que permeia as grandes áreas abertas, como o Lago dos Nove, que nos faz sentir parte deste universo mitológico composto por antigas ruínas e seres colossais como a Serpente do Mundo, que observa Kratos e Atreus conforme eles navegam pelo Lago dos Nove. A qualidade dos gráficos, texturas e efeitos de iluminação trabalha lado a lado com o inventivo design para dar uma identidade própria aos reinos nórdicos apresentados ao longo da aventura.

O combate recebeu algumas modificações e agora é menos dependente de apenas atacar sem parar, requerendo uma abordagem mais cuidadosa sobre quando atacar, bloquear, esquivar ou usar as habilidades rúnicas. Apesar de um pouco mais lento que os outros games da franquia, os embates continuam brutais, com direito às finalizações em que Kratos destroça seus inimigos, e também bastante satisfatórios.


Parte da satisfação vem do uso do Machado Leviatã, principal arma do personagem, cujos efeitos sonoros e leves tremidas na câmera a cada ataque nos fazem sentir o impacto poderoso de cada golpe. O som do machado rasgando o ar cada vez que o chamamos de volta para a mão de Kratos também contribui para que sintamos a impressão de estarmos manejando uma poderosa arma. Como de costume, o jogo apresenta batalhas desafiadoras contra chefões, desde trolls, passando por um enorme dragão elétrico ou os filhos de Thor, todas com a mesma grandiosidade épica que se espera da franquia.

Além do combate, o machado é usado para resolver vários puzzles ao longo do jogo, alguns envolvem usar o machado para congelar engrenagens enquanto outros requerem que removamos obstáculos à distância. São desafios que começam bastante simples, mas conforme progredi alguns puzzles de fato testaram o meu raciocínio para solucioná-los. Mesmo quando parecem complicados, os puzzles nunca chegam a serem frustrantes e eu sempre senti que bastava pensar um pouco e observar o ambiente para encontrar a solução.

Atreus é útil tanto em combate quanto na resolução de puzzles, usando suas diferentes flechas para abrir passagens. Em combate é possível comandá-lo para disparar suas flechas nos inimigos, atordoando-os e causando dano. Tanto Kratos quanto Atreus podem adquirir novas habilidades com os pontos de experiência recebidos em combate ou completando missões. Ao longo do jogo os personagens encontram materiais e dinheiro que permitem criar ou comprar novos equipamentos e armaduras que melhoram os atributos de Kratos ou as ações de Atreus em combate. Cada conjunto de equipamentos privilegia um estilo diferente de jogar, fornecendo uma boa abertura para experimentação e customização.

Com tantas virtudes, God of War resulta em um excelente equilíbrio entre narrativa, combate, exploração e quebra-cabeças, executando cada um desses elementos com competência e combinando-os com perfeição.


Nota: 10/10

Trailer

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