quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Crítica - Emoji: O Filme



Resenha Emoji: O Filme

Review Emoji: O Filme
São tempos difíceis para a publicidade. Antigamente era certo de que as pessoas veriam ou ouviriam os anúncios publicitários veiculados nos intervalos comerciais de rádio e televisão e aqueles impressos em jornais. O consumo midiático migrou para internet, com serviços de streaming como a Netflix sem intervalos para publicidade e programas como Adblock que bloqueiam desde pop-ups e janelas de publicidade aos comerciais que passam no início dos vídeos de plataformas como Youtube. A publicidade passou a ser um inconveniente a ser evitado. Como, então, fazer publicidade em uma época na qual o consumidor foge dela como o diabo da cruz? Este Emoji: O Filme fornece uma resposta fácil para essa pergunta: simplesmente engane seu público. Faça ele acreditar que está vendo uma narrativa de fantasia e aventura e então despeje sem dó mensagens de consumo sobre ele.

Filmes feitos para venderem coisas não são exatamente novidade. Uma Aventura Lego (2014) tinha o claro interesse de vender seus brinquedos, mas fazia isso entregando uma narrativa genuinamente divertida e que lembrava do valor do componente lúdico, cooperativo e imaginativo do ato de brincar. Emoji: O Filme, no entanto, sequer parece se esforçar para encantar seu espectador, repetindo um monte de clichês pouco inspirados e algumas frases de efeito cheias de sensos comuns para dar a impressão de engajamento com uma determinada mensagem.

A trama é centrada em Gene (T.J Miller), um emoji que deveria representar a expressão "meh", mas que é capaz de exprimir muito mais do que a cara que foi designado para fazer. Quando ele falha em expressar o "meh" no momento em que seu usuário, Alex (Jake T. Austin), mandava uma mensagem para a menina de quem gosta, o menino acha que seu celular tem um defeito e resolve levá-lo à assistência técnica. Com medo que o garoto formate o aparelho, a Sorriso (Maya Rudolph), chefe dos emojis, ordena que Gene seja deletado pelo antivírus para que Alex deixe de pensar que o celular estava dando defeito. Como não quer ser deletado, Gene foge de Textópolis com a ajuda do emoji Bate Aqui (James Corden) e busca entre os demais apps do celular uma ajuda para corrigir seu problema.

O universo dentro do celular é basicamente uma reciclagem de elementos de Detona Ralph (2012), Divertida Mente (2015) e Tron (1982). É colorido e vívido o bastante para chamar a atenção da garotada, mas por ser uma colcha de retalhos de várias ideias de que já vimos antes e melhor concebidas, falta um senso de novidade ou criatividade necessário para nos encantar ou deslumbrar. Em nenhum momento da projeção temos aquela reação de "Nossa, que incrível! Como pensaram nisso?" e sim "Já vi isso antes".

O humor consiste em trocadilhos óbvios que fariam aquele seu tio, que sempre repete a velha piada do pavê nos almoços de domingo, corar de vergonha. Um exemplo é quando Gene pergunta a um trio de macacos qual o ramo de negócios deles e a resposta é um nada surpreendente "macaquices" ou quando o emoji do Cocô (Patrick Stewart) diz "eu sou o número 2!". Ao invés de fazer rir, o filme constantemente provoca tédio e aborrecimento.

O miolo da narrativa consiste dos personagens se escondendo entre diferentes aplicativos do celular, na grande maioria das vezes com muitas falas que explicam o funcionamento de um determinado jogo ou as funcionalidades de determinado programa. Quando eles entram em um aplicativo de compartilhamento de arquivos, por exemplo, um personagem é rápido em exaltar a segurança dele. É tudo tão inorgânico e claramente feito para tentar vender essas marcas ao público que em muitos momentos eu esperei que um letreiro aparecesse na tela informando algo como "aplicativo x pode ser baixado em dispositivos y e z". Boa parte desses segmentos, como o que envolve um famoso jogo para celulares, podiam ser completamente eliminados do corte final sem qualquer prejuízo à trama, deixando evidente que estão ali meramente como informes publicitários.

Temas como "achar seu lugar no mundo" e ensinamentos sobre o valor da amizade e da família, abordados em 9 de cada 10 filmes feitos para o público infantil como Detona Ralph (2012), O Bom Dinossauro (2016), Operação Big Hero (2015), Turbo (2013) ou Aviões (2013), são aqui repetidos de modo mecânico e sem brilho. Frases como "de que adianta alcançar seus objetivos se você não tem amigos?" martelam de maneira pouco sutil as mensagens e surgem em cena como se o roteiro apenas estivesse preenchendo um checklist de ideias que se espera encontrar em uma animação feita para toda família para tentar disfarçar o fato de que é uma publicidade insípida.

O mesmo pode ser tido das tentativas de usar a emoji Rebelde (Anna Faris) para falar da falta de representação feminina. A personagens fala palavras de ordem do tipo "as mulheres não precisam ser só princesas ou noivas" ou "não preciso de um príncipe encantado" fazendo parecer que o filme tem algo a dizer sobre isso (e seria importante que dissesse), mas nunca sai da superfície dessas frases que são lugares-comuns. Para piorar, apesar do discurso a personagem termina se contentando em ficar em Textópolis e mantendo sua imagem de princesa. O percurso dramático da personagem é diametralmente oposto ao seu discurso. Sim, ela voltou para ajudar Gene, mas uma vez resolvido o problema, nada a impedia de correr atrás de seus sonhos e voltar ocasionalmente para visitar os amigos de Textópolis. Basta comparar o que é feito aqui com essa personagem e a complexidade ou variedade de personagens femininas em animações como Moana: Um Mar de Aventuras ou Smurfs e a Vila Perdida (ambas desse ano) ou Frozen: Uma Aventura Congelante (2013), para ver como essas questões são trabalhadas de modo extremamente raso. São usadas para dar a aparência de um engajamento, mas sem realmente concretizá-lo.

O pior, no entanto, é como o filme aborda (ou não aborda), a presença cada vez maior da tecnologia nas nossas vidas e o modo como somos cada vez mais dependentes de smartphones. Em um dado momento os personagens entram rapidamente no Facebook e há um comentário sobre como amigos virtuais não são a mesma coisa que amigos reais. É algo que ouvimos constantemente e dá a impressão que a narrativa irá questionar essa digitalização da vida e o fato de passarmos mais tempo em nossos celulares do que com pessoas reais. Isso, no entanto, não acontece, já que em nenhum momento é posto em questão o fato do garoto Alex pensar em seu celular como a única maneira de se comunicar com a garota da qual gosta, quase como se vivessem em algum cenário distópico digno de Black Mirror no qual é necessário ter contato no mundo virtual antes de qualquer interação no mundo real.

A centralidade do uso de recursos virtuais nas interações humanas é tratado como um paradigma pétreo que nunca é posto em questão e em nenhum momento ninguém sugere ou encoraja que Alex vá diretamente falar com sua paixão já que seu celular não está funcionando direito. Nesse ponto, o que o filme faz é mostrar o smartphone como a única alternativa viável para se aproximar de alguém, o mediador-mor e inquestionável das relações humanas. Que um filme voltado para o público infantil sequer questione a necessidade de se fazer tudo, inclusive se comunicar com alguém que está ao seu lado, através de aplicativos de internet é algo no mínimo negligente.

Há uma tentativa de exaltar o uso dos emojis como forma de comunicação, algo evidente na cena em que o professor explica como civilizações antigas, como os egípcios, se comunicavam através de símbolos pictóricos. Nesse sentido, o discurso fílmico visa tratar o uso de emojis como uma espécie de "retorno às origens", uma retomada à nossa essência e uma forma de comunicação mais "pura". Seria um argumento interessante se não fosse completamente furado. Os três roteiristas do filme esquecem ou ignoram (o que é muito grave de qualquer maneira), que as letras dos diferentes alfabetos (latino, grego, cirílico, etc), bem como ideogramas de idiomas orientais (japoneses, chineses, etc) também são símbolos imbuídos de significados que são usados para transmitir emoções, conceitos, ideias, estados de espírito e tudo mais. Não há retorno ou resgate de coisa alguma, não há nada de especial em relação aos emojis, que os torna uma forma "diferenciada", melhor ou pior de comunicação. Claro, emojis não são a mesma coisa que letras, mas ambos são sinais socialmente construídos e compartilhados com finalidade comunicacional, mas a exaltação que o filme tenta fazer aos emojis não faz o menor sentido.

Vazio, equivocado e sob certos aspectos repreensível, Emoji: O Filme não passa de uma publicidade cínica e conformista. Um filme que parece ter sido concebido por executivos em uma sala de reunião e uma síntese de tudo que há de errado no cinema hollywoodiano.


Nota: 1/10

Obs: Há uma cena adicional no meio dos créditos.

Trailer

Um comentário:

Luciana Sousa disse...

Foi muito divertido. Não sou muito fã dos filmes de Columbia Pictures mas essa animação, que comecei a ver com baixas expectativas, é fantástica, um dos melhores em todos os aspectos pelos qual uma produção cinematográfica é avaliada. Acho que as imagens das animações são cada vez mais realistas e os personagens melhores caracterizados. Além, acho que a trama de Emoji tem uma história que fala de amor, amizade, família, etc. de uma maneira muito original e divertida, é um dos melhores filmes de animação não tem dúvida que o filme se tornara num clássico.