quarta-feira, 19 de julho de 2017

Crítica - Transformers: O Último Cavaleiro

Análise Transformers: O Último Cavaleiro


Review Transformers: O Último CavaleiroUma nova ameaça contra o planeta surge e um grupo de personagens precisa descobrir um segredo dos Transformers guardado na Terra há anos para salvar o mundo. Essa era a premissa dos quatro filmes anteriores dos "robôs em disfarce" e também é deste quinto Transformers: O Último Cavaleiro, que já mostra os evidentes sinais de desgaste da franquia e que não há muito mais a ser dito ou feito com ela.

Depois dos eventos do filme anterior, Optimus (voz de Peter Cullen) viajou ao espaço em busca de seus criadores. O governo tornou os Transformers ilegais e passou a caçá-los. Cade Yeager (Mark Wahlberg) se tornou um fugitivo e vive de resgatar Autobots da força-tarefa que caça todos os robôs. O cotidiano muda quando Cade encontra um velho Transformer que chegou à Terra e lhe dá um misterioso medalhão que é a chave para impedir uma ameaça iminente. Enquanto isso, Optimus encontra sua criadora, Quintessa (Gemma Chan), que lhe faz de refém enquanto move as ruínas do planeta Cybertron em direção à Terra.


O filme apresenta uma quantidade grande de personagens e subtramas, mas nunca consegue juntar tudo de maneira coesa ou que faça sentido. Em um instante joga os personagens em uma determinada direção para abandonar tudo isso minutos depois e direcioná-los em um caminho que nada tem a ver com o que está acontecendo. Em muitos momentos ficamos nos perguntando qual a razão de determinadas coisas acontecerem, já que nada é muito justificado e parece acontecer por pura necessidade da trama. Com duas horas e meia de duração, todo esse vai e vem de ideias que as vezes não vão a lugar nenhum fica para lá de cansativo. A ideia dos Cavaleiros da Távola Redonda usarem equipamento alienígena é até interessante, mas acaba mal aproveitada em meio às incoerências e inconsistências do roteiro.

Se, por exemplo, Cade é um fugitivo da justiça, como a filha dele estuda normalmente em uma universidade? Não seria fácil para o governo prendê-la como cúmplice (afinal ela estava com ele durante os eventos do filme anterior) e usá-la para pressioná-lo a se entregar (ou como isca)? Se a força tarefa plantou um localizador em Bumblebee e sabia a localização de Cade, para quê fazer acordo com Megatron, que eles sabem ser maligno? Porque os Decepticons estão presos ao invés de serem destruídos? Se Bumblebee e outros Autobots colaboraram com os aliados na Segunda Guerra Mundial, como é que isso não é mencionado no primeiro filme pelo Setor 7? Afinal eles protegiam os destroços de Megatron e da Allspark na Represa Hoover desde um período anterior à guerra (a represa foi construída em 1936), então não faz sentido, em retrospecto, que o agente Simmons (John Turturro) e os demais agissem como se todos os Transformers fossem hostis e não conhecessem nada a respeito dos robôs, sendo que já houve uma colaboração entre eles.

Eu poderia escrever páginas e páginas sobre as inconsistências que esse filme tem tanto consigo mesmo quanto em relação aos quatro anteriores, mas isso significaria fazer um esforço mental sobre esse roteiro maior do que as próprias pessoas que o escreveram. A trama ainda gasta um bom tempo introduzindo novos personagens, como a menina Izabella (Isabela Moner), só para depois abandoná-la sem cerimônias, apenas que ela volte para a batalha final nos últimos minutos e ainda assim não tenha nada marcante para fazer. O mesmo, inclusive, pode ser dito de alguns personagens que retornam como o capitão Lennox (Josh Duhamel), que acompanhamos desde o primeiro filme e ainda assim é uma folha em branco. Ele poderia ser literalmente substituído da trama por um militar genérico qualquer que não haveria prejuízo algum. O veterano Anthony Hopkins consegue dar credibilidade ao seu lorde inglês cuja função é basicamente explicar a trama e dizer um monte de palavras inventadas, conferindo um grau de urgência que o restante do filme simplesmente não consegue trazer. Por outro lado, o comediante Jerrod Carmichael é desperdiçado como o histérico assistente de Cade, cuja "graça" consiste em gritar a todo momento.

Michael Bay conduz tudo repetindo a mesma meia dúzia de cacoetes de sempre, como planos em ângulos baixos, giros de câmera ao redor dos personagens, planos na contraluz e uma fotografia tendendo para tons alaranjados. A essa altura tudo isso já ficou manjado e o diretor soa mais como um sujeito extramente limitado em relação aos recursos de construção audiovisual de seus trabalhos do que alguém que tenta construir um estilo próprio. Até porque o uso de nenhum desses recursos, ou mesmo a combinação deles, é exclusividade de Bay.

As cenas de ação são simplesmente uma bagunça. Filmadas com uma câmera tremida e enquadramentos descentralizados e editadas com uma montagem ultra acelerada que não permite nenhuma tomada durar mais de dois segundos, são inábeis em criar qualquer senso de coesão ou unidade espacial. O excesso de câmera lenta acaba atrapalhando mais do que ajuda, ampliando a sensação de uma ação truncada e fragmentada. Isso piora se considerarmos que com exceção de Optimus e Bumblebee, a maioria dos robôs tem o mesmo design cinzento que contribui para a grande confusão de não sabermos quem está lutando com quem e qual a posição deles em relação aos demais no campo de batalha. Falando em batalha, qual o motivo de Grimlock, que estava no ferro velho de Cade com o resto dos Autobots, não aparecer na batalha final com os demais robôs? Ele simplesmente ficou lá relaxando no ferro velho enquanto um planeta inteiro se chocava com a Terra?

A bagunça se agrava mais ainda pela atroz mixagem sonora que mistura os tiros, explosões e sons metálicos de uma maneira quase que indistinguível. A sensação é que ao invés de estar dentro de um cinema, fui parar em uma rave de dubstep na qual as caixas de som acabaram de sofrer curto circuito. A música é excessivamente intrusiva, sempre martelando exaustivos acordes graves dos momentos de ação e tensão ou subindo o volume nos instrumentos de corda chorosos nas cenas que deveriam ter algum tipo de impacto emocional, soando mais manipulativas do que algo a acrescentar significado.

O único embate em que toda essa condução acelerada e bagunçada fica suavizada é no antecipado confronto entre Optimus e Bumblebee, o que parece ser uma coisa boa, mas considerando que a luta dura pouco mais de um minuto, o resultado é bem decepcionante. Além de não empolgar, a luta é resolvida de modo abrupto e forçado, já que durante cinco filmes e quase uma dúzia de horas fomos martelados com a informação que a caixa vocal de Bumblebee estava além de qualquer concerto e, ainda assim, o personagem magicamente recupera a sua voz em um momento conveniente. A motivação de Optimus, ou melhor, falta dela, contribui para a falta de peso dramático já que a trama recorre à boa e velha lavagem cerebral para justificar o fato dele se voltar contra os aliados. Considerado que até mesmo o recente Velozes e Furiosos 8, uma franquia que não exatamente se preocupa com a complexidade de seus personagens e tramas, conseguiu oferecer uma motivação compreensível e aceitável para que Dom enfrentasse sua família, ver Transformers: O Último Cavaleiro usar uma muleta fácil como essa torna-se inadmissível.

Com um texto mais esburacado que uma rodovia brasileira, personagens vazios e cenas de ação insuportáveis de ver ou ouvir, há muito pouco o que aproveitar em Transformers: O Último Cavaleiro. É tão ruim que consegue superar o pavoroso segundo filme como o pior da franquia. Eu diria que seria melhor parar por aqui, mas como o filme menciona várias vezes um conhecido e poderoso vilão, diria que ao menos mais uma continuação é inevitável.


Nota: 2/10

Obs: Há uma cena adicional no meio dos créditos.

Trailer

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