sábado, 10 de março de 2018

Crítica - Jessica Jones: 2ª Temporada


Análise Crítica - Jessica Jones: 2ª Temporada


Review Jessica Jones: 2ª Temporada
A primeira temporada de Jessica Jones acertava na exploração dos traumas de sua protagonista e na criação de um vilão fascinante e ameaçador. Essa segunda temporada aprofunda seu mergulho na mente traumatizada de Jessica (Krysten Ritter) e, embora tenha bons momentos, não se sai tão bem quanto a anterior. Antes de prosseguirem na leitura, aviso que o texto a seguir contem SPOILERS.

A trama começa repercutindo os eventos da temporada anterior, com Jessica precisando lidar com sua consciência após ter matado Kilgrave (David Tennant). Ela também precisa lidar com os traumas do seu passado, em especial com o acidente que matou sua família e a fez ser usada como cobaia pela sombria organização IGH. Ao lado de Trish (Rachael Taylor), Jessica investiga o seu passado para tentar finalmente cicatrizar velhas feridas.

Assim como na temporada anterior, Jessica continua sendo uma personagem fascinante. É possível ver nela um grande potencial para fazer coisas boas, mas personagem já perdeu tanto, já passou por tantos abusos e já ultrapassou tantos limites éticos que não consegue acreditar em si mesma e em sua capacidade de se relacionar com outras pessoas. Nesse sentido, Krysten Ritter é ótima em nos fazer perceber, mesmo em pequenos gestos, a carência, solidão e problemas de abandono da personagem. Um exemplo é na leve expressão de tristeza que precede o sorriso dado por ela ao ouvir a notícia do noivado de Trish, como se antes de ficar feliz pela irmã Jessica primeiro pensasse que seria mais uma pessoa a abandoná-la e se ausentar de sua vida.

Da mesma maneira que a segunda temporada de Demolidor, a série demora um pouco para apresentar uma antagonista clara a Jessica, o que faz as coisas parecerem um pouco arrastas do início. Uma vez que Alisa (Janet McTeer) é apresentada, no entanto, a trama engrena ao usar a personagem como um reflexo dos problemas psicológicos de Jessica, seja em relação a sua dificuldade em controlar seu temperamento, seja em relação ao trauma não superado da perda da família.

Há uma certa natureza abusiva ou tóxica na relação entre Jessica e Alisa. Ao mesmo tempo em que Jessica possui um claro afeto por Alisa, já que ela representa o último vínculo que a protagonista tem com o passado e a própria Alisa tem um afeto inabalável por Jessica, a relação entre as duas está claramente fadada à tragédia pelo fato de Alisa não ter controle sobre si mesma ou seus poderes (um duro lembrete a Jessica do que ela pode se tornar). Jessica sabe disso, mas permanece ao lado de Alisa mesmo quando ela lhe causa problemas, a machuca ou machuca próximas a ela. Jessica demonstra saber tudo isso e ainda assim resiste a cortar o vínculo com Alisa justamente por já ter perdido gente demais, por ser sozinha demais, carente demais. Não é à toa que a abrupta eliminação de Alisa no episódio final da temporada é tão desoladora e impactante para Jessica.

No papel, Alisa deveria ser uma personagem tão rica e complexa quanto Jessica, mas a interpretação cheia de exageros de Janet McTeer impede que a antagonista seja tão interessante quanto deveria. Usando o que eu chamo de "método Nicolas Cage", a atriz varia entre a absoluta calma e o absoluto descontrole sem qualquer nuance entre esses dois extremos e a personagem termina como uma caricatura exagerada ao invés de alguém interessante. Deveríamos nos compadecer por ela da mesma forma que o fazemos com personagens como Bruce Banner ou Bucky, ambos igualmente vítimas de uma condição que lhes tira o controle sobre si mesmos, mas Alisa pende tanto para o excesso que é difícil forjar essa mesma conexão. A trama também traz Kilgrave de volta em determinado momento, usando-o com inteligência e de uma maneira que não sabota sua morte na temporada anterior. Na verdade, a presença do personagem serve como um duro lembrete para Jessica de que as marcas do abuso sofrido não desaparecem com tanta facilidade.

Trish, por sua vez, luta contra seus próprios sentimentos de insegurança, inadequação e impotência, se agarrando desesperadamente a qualquer chance que possa lhe dar o poder que ela tanto almeja para fazer a diferença. Essa tentativa de tomar o controle de sua vida a faz agir impulsivamente e tomar decisões questionáveis, uma delas inclusive com potencial de arruinar sua relação com Jessica para sempre. Ela também precisa lidar com a dificuldade de ser levada à sério como jornalista, constantemente sendo estimulada a deixar de lado notícias mais sérias para falar de moda e coisas supérfluas. Esse arco seria uma ótima oportunidade para falar de machismo no ambiente de trabalho, mas a trama não se detém sobre o tema por muito tempo.

Quando a série não mantém seu foco sobre os problemas de Jessica ou Trish, por outro lado, tudo desmorona. Tal como na temporada anterior, os vizinhos de Jessica mudam de personalidade a cada episódio. O zelador Oscar (J.R Ramirez) detesta Jessica na primeira vez que a vê e não quer que ela leve a polícia ao prédio de jeito nenhum por conta de seu passado criminoso, mas alguns episódios depois ele próprio sugere que Jessica entre em contato com a polícia. É curioso, inclusive, que uma série tão preocupada com representação feminina construa a ex-esposa de Oscar como uma megera histérica e irracional disposta até mesmo a sequestrar o próprio filho só para punir o ex-marido.

Malcolm (Eka Darville) aceita silenciosa e passivamente as provocações e comentários de menosprezo de Jessica, mas quando ele comete um erro verdadeiramente grave que põe todos em risco e Jessica tem toda razão em reclamar, de repente o personagem decide que esse momento, aquele que ele tinha menos vantagem moral para reclamar, é aquele no qual não irá aceitar os xingamentos da protagonistas. Deveria ser um momento de tomada de atitude e evolução por parte dele, deveria ser uma triste ruptura entre os dois personagens, mas ao invés disso Malcolm soa como uma babaca estúpido e imaturo. Igualmente incoerente é o investigador Pryce Cheng (Terry Chen). No início da temporada ele enche a boca para dar uma lição de moral em Jessica sobre seu temperamento violento e ímpeto homicida, mas alguns episódios depois ele próprio resolve agir impulsivamente e tenta matar Alisa (e Jessica) por conta própria ao invés de comunicar as autoridades ou mesmo tentar forjar evidências por algum crime. A trama tenta vendê-lo como uma sujeito esperto e ardiloso, mas ao longo da temporada tudo que o personagem consegue é falhar ridiculamente em tudo que tenta fazer, nos fazendo indagar como alguém tão estúpido e obtuso conseguiu obter algum renome em seu campo de atividade.

A atriz Carrie-Anne Moss é ótima em construir a espiral de desespero e descontrole que acomete a sempre fria e contida Jeri quando ela recebe o diagnóstico de uma doença grave, mas o talento de Moss não consegue sozinho afastar a sensação de que essa subtrama inteira é uma enorme perda de tempo por ela mal se conectar com o restante dos eventos da série. Além disso há o problema que esse arco leva a personagem do nada ao lugar nenhum, com Jeri terminado como a mesma pessoa cruel e egocêntrica que começou a temporada, não passando por qualquer tipo de aprendizado ou transformação.

Apesar dos problemas, o saldo da temporada se revela positivo ao encerrar com Jessica finalmente deixando parte de suas inseguranças de lado e se abrindo a uma conexão com outras pessoas. Essa evolução da personagem me deixa curioso pelo que virá a seguir, da mesma forma que também fico intrigado sobre como Trish lidará com as consequências de suas ações ao fim da temporada e suas recém-descobertas habilidades.

A segunda temporada de Jessica Jones vale pela complexa jornada emocional de sua protagonista, ainda que não seja tão concisa quanto seu ano de estreia, tenha problemas de ritmo e apresente muitos personagens secundários desinteressantes.


Nota: 7/10

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