sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Crítica - Final Fantasy XV

Análise Final Fantasy XV


Review Final Fantasy XV
Vou ser direto: desde os Final Fantasy do PSOne (o VII, o VIII e o IX) que um capítulo numerado da franquia (não coloco na conta spin-offs como o recente World of Final Fantasy) não me envolvia tanto quanto este Final Fantasy XV. Pode não estar no padrão de excelência dos melhores exemplares da série (como o quarto, o sexto e o sétimo) e tem lá sua parcela de problemas, mas consegue captar o espírito clássico desses games ao mesmo tempo que adiciona uma série de novos elementos e influências dos RPGs ocidentais (que ultimamente vem recebendo mais atenção e elogios que os JRPGs) sendo o "Final Fantasy para fãs e novatos" que a Square-Enix anuncia ao início do jogo.

Os Quatro Guerreiros da Luz


A trama se passa no mundo de Eos e acompanha Noctis, príncipe do reino de Lucis. Ele deixa a capital do reino acompanhado de seus três amigos e guardiões Gladiolus, Ignis e Prompto, em direção ao reino de Altissia para se casar com sua prometida, Lady Lunafreya. O casamento entre eles foi arranjado por seu pai, o rei Regis, como uma tentativa de gerar um cessar-fogo entre Lucis e o império de Niflheim. Durante o trajeto, Noctis e seus amigos descobrem que a capital de Lucis foi atacada, resultando na morte de Regis e na captura do místico cristal que gerava energia para a cidade. Com a morte de seu pai, Noctis precisa agora reunir o poder dos antigos reis e as bênçãos dos seis deuses de Eos para reclamar seu lugar ao trono, deter o avanço do império maligno e recuperar o cristal.

É uma trama bem típica da franquia: quatro "guerreiros da luz", cristais mágicos e um império maligno, mas apesar da história batida, o roteiro encontra força ao desenvolver as relações entre os quatro protagonistas. Diferente do que geralmente ocorria nos outros games, os personagens não são desconhecidos que se encontram durante uma crise, mas são amigos de longa data. O desenvolvimento dessa amizade, o modo como eles aprendem a confiar um no outro, entram em atrito e lidam com as consequências do que acontece ao seu redor foi o que me manteve interessado na trama. Na verdade, até mesmo o gameplay e o combate ajudam a construir essa impressão de uma camaradagem genuína entre eles, até nas pequenas coisas. Quando realizava um ataque em conjunto com Prompto, Noctis rapidamente dava mão para ajudá-lo a se levantar depois que ele deslizava por debaixo de um monstro para atirar em sua barriga. Em outro momento, o príncipe e Gladiolos tocam punhos em comemoração por um ataque conjunto bem sucedido.

O Mundo de Eos e a Jornada de Noctis


O jogo não perde tempo em colocar o jogador desde o início no mundo aberto do reino de Lucis. Depois da missão inicial de consertar o Regalia, o carro usado pelo grupo, boa parte do mapa já está à disposição do jogador. O mundo consegue fazer funcionar muito bem a mescla entre paisagens mais modernas (com carros, postes de luz, celulares) com uma ambientação fantasiosa, cheia de criaturas insólitas e ameaçadoras, com templos antigos e mágicos. Tudo isso auxiliado pelos ótimos gráficos que trazem grande detalhamento aos cenários e expressividade aos personagens.

O mundo não é apenas vasto, como também oferece muito a fazer. Além das missões da história, o jogador pode cumprir um grande número de missões secundárias, caçar monstros, pescar, coletar ingredientes para descobrir novas receitas, correr com chocobos, realizar algumas melhorias no Regalia, explorar masmorras e uma série de outras atividades. Se muitos se queixaram que Final Fantasy XIII era excessivamente linear, Final Fantasy XV oferece um mundo amplo e bem concebido para percorrer e é possível passar de uma centena de horas de jogo se quiser explorar tudo.

A questão é que toda essa abertura e exploração é deixada de lado pelos momentos mais avançados da história (por volta do capítulo 8), nos quais o jogador é colocado em missões que consistem basicamente em uma série de corredores lineares com onda após onda de inimigos a derrotar, muitas vezes com Noctis sozinho, o que elimina também a divertida dinâmica entre ele e seus aliados.

A epítome disso é o pavoroso capítulo 13 que segue Noctis sozinho em uma base inimiga andando por corredores genéricos e coletando chaves para avançar pelo local. È um segmento que pega tudo que o jogo tinha de excelente (a abertura, o combate, os diálogos entre os personagens) e substitui por absolutamente nada interessante por horas, transformando as braçadas finais da narrativa em uma monotonia insuportável. Claro, temos algumas excelentes sequências de ação e batalhas contra chefes (em especial os confrontos com Leviathan e Ifrit), mas são pontuais demais em relação ao tédio que toma conta nas missões finais da história. Os capítulos finais também parecem passar por cima da trama sem freio, atropelando muitos acontecimentos importantes (algumas coisas são ditas só em manchetes de jornal, cuja leitura é opcional) e apresentando muita coisa através de longos diálogos expositivos ao invés de efetivamente mostrar o que está se passando em Eos. Ainda assim, o desfecho apoteótico, cheio de sacrifício e demonstrações de amor fraterno não deixa de ser poderoso.

O Gameplay


O jogo abandona a tradicional mecânica de turnos em favor de um combate em tempo real que lembra um pouco a franquia Kingdom Hearts (também da Square-Enix). São lutas velozes, grandiloquentes, que exigem atenção do jogador para atacar, esquivar e contra-atacar. O jogador está sempre no controle de Noctis, cujas habilidades de teletransporte são importantes para o ataque e defesa, e pode equipar até quatro armas ou magias simultaneamente, podendo trocá-las livremente durante o combate com as setas do direcional digital.

A magia funciona de modo um pouco diferente, sendo necessário coletar energia elemental de alguns pontos do mapa e então confeccionar cápsulas (ou granadas) de magia para usar nas lutas. O sistema de criação de magia requer certa experimentação para misturar os elementos e itens e formar combinações poderosas. A magia sempre afeta uma área ao redor de onde é conjurada e pode causar dano aos personagens, assim seu uso acaba sendo mais restrito ao início dos combates ou para controlar multidões de inimigos. O modo como a magia é tratada aqui é coerente com a abordagem mais "realista" da narrativa, com ela sendo uma força poderosa e instável, mas isso acaba limitando seu uso.

As summons continuam trazendo aquelas animações grandiosas e exageradas e praticamente são um botão de "vitória instantânea". Para impedir seu abuso, apenas Noctis ganha experiência quando uma summon é usada, sem mencionar que o jogador não pode usá-las livremente, mas precisa esperar (e torcer, já que é relativamente aleatório) para que elas se manifestem durante o combate pedindo que pressione o botão específico. Assim, é possível completar toda a história sem sequer ter usado todas. A câmera atrapalha um pouco durante as batalhas, por vezes se posicionando de maneira que atrapalha a visibilidade e isso é piorado pela ausência de um botão para centralizá-la novamente (na maioria dos jogos isso é feito pressionando o alavanca analógica direita, mas aqui esse input serve para abrir o mapa). Subir de nível rende pontos de habilidade que podem ser usados nas árvores de habilidades chamadas Ascension para melhorar atributos e técnicas de combate.

Cada personagem tem também uma habilidade específica que ajuda na exploração e evoluem conforme são utilizadas. Noctis pode pescar, Gladiolus recolhe itens do campo de batalha, Prompto tira fotos (e o jogador pode salvá-las em um albúm) e Ignis pode cozinhar quando o grupo acampa. Os alimentos feitos por Ignis ou comprados em restaurantes fornecem valiosos bônus temporários de atributo e o personagem pode aprender receitas adquirindo novos ingredientes ou consumindo comida em restaurantes. Diferente do que acontece em outros games, a experiência só é computada quando o jogador descansa em acampamentos e hospedagens. Acampar permite que Ignis cozinhe, enquanto que dormir em hospedarias fornece multiplicadores para a experiência. Descansar também permite ver as fotos que Prompto tirou ao longo do dia e selecionar as que se quer para o álbum (isso será importante no fim).

A Música


A música composta por Yoko Shimomura é a melhor apresentada pela franquia em muito tempo (e perfeitamente à altura do legado deixado pelo venerável Nobuo Uematsu) e ajuda a dar o tom de grandiosidade e encantamento do mundo Eos, assim como contribui para a construção da amizade entre Noctis e seus guardiões. O uso da versão de Florence + The Machine para a canção Stand by Me funciona como uma síntese precisa da jornada do grupo e é difícil não se emocionar ao ouvi-la no fim conforme as fotos do seu álbum vão passando durante os créditos. Durante o jogo é possível comprar CDs com as músicas de outros jogos para ouvir durante as viagens de carro e confesso que ouvir o tema de Terra (de Final Fantasy VI) ou a abertura de Final Fantasy VIII (a canção Liberi Fatali) durante minhas andanças por Eos me deixou com um largo sorriso.

Final Fantasy XV faz valer a espera de seus mais de dez anos de desenvolvimento, entregando combates grandiosos, um mundo amplo para explorar e um grupo de protagonistas cuja amizade nos mantém emocionalmente engajados apesar dos tropeços da narrativa. Pode ter sua parcela de problemas, mas é um exemplar digno do legado que representa, conseguindo ser fiel às suas origens ao mesmo tempo que lhe aponta para novos caminhos.


Nota: 8/10

Obs: O jogo está disponível para PS4 e Xbox One

Trailer





Versão de Stand By Me de Florence + The Machine

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