terça-feira, 14 de junho de 2022

Crítica – Stranger of Paradise: Final Fantasy Origin

 

Análise Crítica – Stranger of Paradise: Final Fantasy Origin


Assim que o primeiro trailer de Stranger of Paradise: Final Fantasy Origin foi divulgado, o jogo virou meme quase que imediatamente. Internautas zoavam o modo exagerado como o protagonista Jack se comportava e dizia a cada trinta segundos o quanto queria matar Chaos. Não era uma zoeira imerecida, já que os rosnados do protagonista, claramente pensados para mostrá-lo como um sujeito durão, o tornavam mais ridículo do que empolgante. Desenvolvido pelo Team Ninja, responsáveis pelos dois Nioh, o jogo funciona como um soulslike no universo Final Fantasy.

A trama tenta funcionar como uma espécie de prelúdio para o Final Fantasy original, contando como o reino de Cornelia foi tomado pelos quatro monstros que dominaram os cristais elementais e jogaram o mundo na escuridão, obrigando os guerreiros da luz a agirem. O protagonista é Jack, um homem sem memória que vaga Cornelia em busca de Chaos, movido pelo desejo de matá-lo. No início de sua jornada ele encontra Jed e Ash, dois guerreiros também sem memória, portadores de cristais negros similares aos de Jack e com o mesmo desejo de matar Chaos. Assim, o trio parte em uma jornada para matar Chaos e livrar o reino da escuridão. Já mencionei que eles querem matar Chaos?

De início a trama não exibe muita conexão com o Final Fantasy original a despeito de menções ao vilão Garland ou alguns outros personagens. No entanto a trama diverte pelo exagero da conduta de Jack, sempre raivoso, batendo primeiro e perguntando depois, largando palavrões a esmo e basicamente agindo como um completo babaca com os aliados a maior parte do tempo. Poderia ser algo que nos causasse repulsa, mas é tão exagerado e caricato que fica divertido. É como se alguém pegasse um típico protagonista de filme de ação da década de oitenta tipo Stallone Cobra (1986) ou Comando Para Matar (1985) e jogasse ele no meio de uma trama de Final Fantasy. É uma mistura inesperada que acaba tendo certo charme canastrão.

Perto do final é quando a trama realmente começa a se conectar com o game original da franquia e confesso que algumas cenas dos últimos segmentos chegam a ter um inesperado impacto emocional conforme compreendemos o plano dos personagens e o sacrifício que eles empreendem para tentar salvar Cornelia. Como um bom prelúdio, nos faz reinterpretar as ações dos personagens do primeiro Final Fantasy, embora o fato da divulgação do jogo ter revelado o nome completo de Jack antes do lançamento estraga uma das revelações finais.

O combate lembra um pouco Nioh, no sentido se bem ágil e deliberado. Como em muitos soulslike saber quando atacar e quando defender é essencial para sobreviver já que os inimigos causam muito dano, podendo eliminar rapidamente Jack e seus aliados. Todos os inimigos possuem uma barra de resistência e eliminar a resistência do inimigo dá a chance de executar um brutal finalizador que mata os inimigos instantaneamente, regenera parte do MP dos personagens e expande a barra total de MP. Usar essas finalizações é importante para expandir o MP dos personagens, dando a eles mais possibilidade de usar magias e ataques especiais. Ao morrer, os personagens perdem parte desse MP adicional, então é importante tomar cuidado.

O jogador não controla diretamente os dois aliados de Jack, mas é possível comandar eles para que temporariamente usem suas habilidades mais poderosas e ataquem mais agressivamente. Mesmo sem um comando do jogador, os aliados conseguem oferecer uma ajuda razoável e servem para atrair a atenção dos inimigos, permitindo que o jogador ataque, algo importante principalmente nas lutas contra chefões. As batalhas contra chefes, como em qualquer soulslike, são bastante desafiadoras e exigem que o jogador conheça cada ataque inimigo e saiba coordenar suas habilidades com as dos aliados, além de aprender os pontos fracos dos chefes para quebrar sua barra de resistência e eliminá-los mais rápido.

O protagonista conta com uma grande variedade de armas, cada uma com diferentes combos e habilidades especiais, o que dá várias opções de combate e muito a experimentar em termos de builds. Essa variedade se amplia com as várias classes disponíveis ao protagonista. De início são classes básicas como guerreiro, pugilista ou mago negro, mas conforme essas classes vão subindo de nível novas classes avançadas vão se tornando disponíveis, como cavaleiro, monge ou sábio. Subir o nível de classe gera pontos de habilidade para a melhorar a referida classe, seja incrementando atributos ou novas habilidades. Os companheiros de Jack também tem acesso a diferentes, mas de uma maneira mais limitada e novas classes só se tornam disponíveis para eles em pontos específicos da história ou fazendo certas missões secundárias, já que assim como Nioh, o jogo é dividido em missões selecionadas de um mapa.

É importante destacar que o nível de personagem é diferente do nível de classe. Aqui, o nível de personagem é determinado pelo equipamento, entretanto, como praticamente todo inimigo deixa algum equipamento, dificilmente os personagens ficarão defasados em relação ao nível dos inimigos. Na verdade, os drops de loot são tão constantes que é fácil atingir a quantidade máxima de equipamentos antes do fim da missão, sendo necessária uma constante navegação em menus para descartar elementos não desejados ou para otimizar os equipamentos dos personagens.

O fluxo de novos equipamentos é tão constante que lá pela metade do jogo eu simplesmente apertava o botão de equipar os itens de nível mais alto no menu de equipamento, já que ficar analisando constantemente os muitos itens obtidos estava truncando o fluxo da ação. Ao menos os equipamentos representam incrementos significativos, sempre fazendo o jogador se sentir mais poderoso e também alterando a aparência dos personagens, com muitos visuais inspirados em classes clássicas da franquia, como samurais, magos ou dragoons.

Outro problema é a câmera que muitas vezes não acompanha a velocidade das ações dos personagens e fica empacada nos piores ângulos possíveis quando a ação ocorre em espaços fechados não muito amplos. Considerando o quanto os inimigos são letais, alguns poucos segundos sem ver direito a ação podem significar a morte. O recurso de travar a mira em inimigos também costuma a exibir problemas, já que nem sempre ele trava no inimigo que você está centralizando o olhar, mas parece selecionar aleatoriamente em quem travar, expondo o jogador a riscos desnecessários.

Graficamente o jogo exibe modelos detalhados para os personagens principais e chefões, embora todo o resto, principalmente os cenários e personagens secundários, apresentam texturas pobres e parecem saídos de uma produção de duas gerações atrás. Eu sei que não é um game feito exclusivamente para a nova geração, mas muito dele soa visivelmente datado mesmo em relação ao PS4 e Xbox One. Ao menos o jogo está bem otimizado nos consoles da nova geração (joguei no PS5), com tempos mínimos de carregamento que facilitam voltar a ação depois de cada morte.

Mesmo com falhas e precisando de polimento em alguns atributos, Stranger of Paradise: Final Fantasy Origin vale a pena pelo ótimo sistema de combate que oferece variedade e desafio, além de uma trama que diverte pelo exagero, conseguindo envolver em seus momentos finais.

 

Nota: 7/10


Trailer

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