segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Crítica – Entre Realidades


Análise Crítica – Entre Realidades


Review – Entre Realidades
Uma história pode ter falhas, mas se entregar um bom desfecho somos capazes de relevar todos os problemas da trama. Do mesmo modo, se um produto que começa promissor, entrega um desfecho que não consegue dar conta de suas próprias ambições, é difícil espantar o sentimento de insatisfação. Esse Entre Realidades acaba lamentavelmente se encaixando na segunda categoria.

A narrativa é centrada na solitária Sarah (Alison Brie). Ela passa os dias indo do trabalho para casa assistir seriados e não tem muita vida social. Um dia ela começa a ter sonhos estranhos e passa a questionar a própria realidade.

A jornada da personagem e o uso do realismo fantástico pode ser entendida como uma grande metáfora para o processo de alguém profundamente sozinha se perdendo na própria instabilidade mental. Nesse sentido o trabalho de Alison Brie é fundamental para nos vender o senso de confusão mental da protagonista. Brie consegue fazer de Sarah alguém vulnerável emocionalmente, carente, solitária e que, talvez por tudo isso, esteja se desconectando do mundo real e se entregando a uma série de delírios e paranoias. Do mesmo modo, Brie também consegue inserir em sua personagem uma energia insana em seus momentos de maior instabilidade, mostrando o quanto ela pode ser perigosa a si mesma ou a outros.

A montagem e a música também contribuem para o senso de confusão e de uma realidade que pode esconder mais do que está a vista. A montagem apresenta transições fluidas que costuram e comprimem diferentes tempos e espaços de uma maneira que faz tudo parecer uma coisa só e realmente dá a impressão de que Sarah pode estar vivenciando diferentes níveis de realidade. Já a música opera para construir uma sensação de estranhamento, se valendo de dissonâncias e instrumentos como xilofones.

As coisas vão ficando cada vez mais malucas conforme a trama progride, o que em si não é um defeito. O problema é que conforme as coisas ficam progressivamente mais doidas não há uma igual progressão do desenvolvimento da personagem e o entendimento que temos de seus problemas. O filme indica algumas pistas, como um trauma de infância, o suicídio da mãe, a loucura da avó, sem, no entanto, efetivamente mergulhar em como tudo isso impacta diretamente Sarah.

Subtramas e personagens são inseridos sem causar qualquer repercussão na trama, como o encanador interpretado por John Ortiz, e fica a impressão de que boa parte desses elementos só está sendo colocado em cena para criar algo hermético e impenetrável que fundamentalmente não tem muito a dizer. É hermético só para dar uma impressão de complexidade.

Isso fica evidente no desfecho, que pode ser lido de duas maneiras e nenhuma delas é particularmente interessante. Se lido como uma metáfora, podemos entender que Sarah afundou completamente em seus transtornos psíquicos (chegando talvez ao suicídio), só que como o filme nunca tentou efetivamente entender esse transtorno, tudo carece de impacto, com o transtorno sendo reduzido a espetáculo visual. Se, por outro lado, entendermos o final de maneira literal, então é só um filme de abdução alienígena genérico.

Entre Realidades tem muitas ideias interessantes para falar sobre instabilidade mental, mas é soterrado pelo peso das próprias ambições e nunca consegue desenvolver de maneira satisfatória as questões que propõe.

Nota: 5/10


Trailer

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